Uma semana depois de processar a dona do ChatGPT, a Apple partiu para o ataque individual: cartas pessoais mandando guardar documentos e marcar reunião com os advogados dela. Entenda a tática.
A Apple enviou cartas jurídicas a cerca de 40 ex-funcionários que hoje trabalham na OpenAI, exigindo que preservem documentos e comunicações e que marquem reuniões com os advogados da empresa. A informação é do Financial Times, que ouviu várias pessoas a par do assunto. Apple e OpenAI não quiseram comentar.
O movimento vem uma semana depois do processo em que a Apple acusa a OpenAI e dois funcionários de roubarem planos secretos de hardware — caso que o Analistas já detalhou em Espionagem no Vale do Silício.
O que é uma carta de preservação
Não é uma intimação nem um processo contra quem recebe. É uma notificação formal que obriga a pessoa a guardar documentos, mensagens, e-mails e qualquer registro que possa interessar à disputa judicial. Destruir esse material depois de notificado pode ser tratado pela Justiça americana como destruição de prova.
O detalhe agressivo aqui é o segundo pedido: as cartas também exigem que essas pessoas se sentem com os advogados da Apple.
A conta que explica o tamanho da briga
Segundo o Financial Times, cerca de 400 ex-funcionários da Apple trabalham hoje na OpenAI. As cartas foram para aproximadamente 10% deles.
Ou seja, a Apple não está mirando apenas os dois nomes do processo. A empresa afirmou em juízo que as evidências apresentadas até agora são a "ponta do iceberg" da conduta que atribui à OpenAI, e as cartas indicam que ela acredita que o vazamento de informação confidencial foi mais amplo do que o processo original sugere.
O que a Apple alega
O processo, protocolado na sexta-feira passada, tem como réus a OpenAI, a io Products e dois ex-funcionários:
- Tang Tan, que passou 24 anos na Apple, chegou a vice-presidente e hoje é o chefe de hardware da OpenAI
- Chang Liu, ex-funcionário que, segundo a acusação, levou um notebook da Apple ao sair
Entre as alegações mais chamativas, a Apple sustenta que Tan orientou candidatos que ainda trabalhavam na empresa a levarem "peças reais" para entrevistas, em sessões de demonstração nas quais a equipe da OpenAI extrairia mais informação confidencial. A companhia também afirma que a OpenAI orientou funcionários em saída sobre como driblar os processos de segurança da Apple.
Vale notar quem não está no processo: nem Sam Altman, CEO da OpenAI, nem Jony Ive, ex-chefe de design da Apple que foi para a startup no ano passado, quando ela comprou o estúdio dele, o IO Products, por US$ 6,4 bilhões.
O que diz a OpenAI
A empresa afirmou que leva as acusações a sério, mas que não tem conhecimento de qualquer evidência de que a ação tenha fundamento. Disse também não ter interesse nos segredos comerciais de terceiros e que segue focada em construir sua própria tecnologia.
O aparelho no centro de tudo
Toda a briga gira em torno de um produto que ainda não existe nas lojas. Segundo o Financial Times, o primeiro dispositivo da OpenAI deve ser um aparelho portátil, do tamanho da palma da mão, pensado para a casa e parecido com uma caixa de som inteligente.
As características descritas:
- Sem tela
- Microfone e câmeras, para captar pistas de áudio e do ambiente
- Um assistente de IA capaz de recorrer aos dados pessoais e à rotina do usuário
Mesmo antes do processo, a OpenAI já não esperava começar a enviar o aparelho neste ano. A empresa vinha enfrentando três dores de cabeça: calibrar a personalidade do assistente entre ser útil e ser intrusivo, resolver questões de privacidade e encontrar chips potentes o bastante para rodar seus modelos em um produto de consumo em massa.
A ação pede que a OpenAI seja impedida de usar qualquer informação da Apple no desenvolvimento do seu hardware. Na prática, a Apple sustenta que todo o negócio de dispositivos da rival está contaminado.
Por que isso importa agora
Dois motivos. O primeiro é o calendário: a OpenAI se prepara para uma abertura de capital muito aguardada, e um processo dessa magnitude é exatamente o tipo de passivo que investidor não gosta de ver na véspera.
O segundo é o divórcio. As duas empresas já trabalharam juntas, com a tecnologia da OpenAI integrada à Siri. Mas a Apple passou a usar modelos do Google como base do assistente de voz e texto que apresentou em junho. A parceria virou litígio.
Reportagem original de Michael Acton, do Financial Times. Contexto adicional com informações da CNBC.