Íntegra da decisão que autorizou a 10ª fase da Compliance Zero detalha o "Projeto DV": multa de R$ 800 mil para quem vazasse o acordo, dados comprados em plataforma clandestina e até a companheira do presidente do BC no radar do grupo.
A Polícia Federal entra agora na fase de análise do material apreendido na quinta-feira (9), durante a 10ª etapa da Operação Compliance Zero, que investiga o colapso do Banco Master. Segundo apuração da CNN Brasil, o objetivo é identificar quem mais atuava ao lado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro — preso preventivamente na Papuda, em Brasília — e do publicitário Thiago Miranda no esquema investigado.
Os mandados de busca e apreensão, pessoal e domiciliar, cumpridos na capital federal foram autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do inquérito, na Petição (PET) 16346, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). A decisão, assinada em 8 de julho e já pública, expõe em detalhes inéditos a engrenagem do grupo.
Os três objetivos do esquema, segundo a PF
De acordo com a decisão, os crimes apurados teriam três finalidades: proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, manipular a opinião pública e coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
O documento lembra que a organização montada por Vorcaro tinha estrutura "celular", com um braço especializado em intimidação e obtenção de dados sigilosos — inclusive por meio da cooptação de policiais, também federais. Foi graças a essa rede de contrainteligência, segundo a decisão, que Vorcaro soube antecipadamente da operação de 18 de novembro de 2025 e tentou fugir do país na véspera, sendo preso no aeroporto de Guarulhos quando embarcaria em voo internacional.
Os recursos que bancavam tudo, aponta a PF, vinham do próprio esquema de fraudes do Banco Master. Para o ministro Mendonça, o modo de agir do grupo lhe confere "contornos de máfia".
Como funcionava o "Projeto DV"
O "Projeto DV" — iniciais de Daniel Vorcaro — nasceu, segundo o próprio Thiago Miranda em depoimento, como um plano de reestruturação de imagem e gestão de crise que ele ofereceu ao banqueiro após a primeira soltura. Miranda conheceu Vorcaro ao negociar a venda de parte do portal de notícias Léo Dias por R$ 3,5 milhões, dentro do interesse do banqueiro em montar um conglomerado de mídia.
A operação de desinformação incluía, conforme a decisão: derrubada de conteúdos jornalísticos e perfis em redes sociais; inserção coordenada de comentários positivos sobre o banco; elevação artificial de avaliações de aplicativos; negociações financeiras com veículos e jornalistas; e até ataques cibernéticos para tirar do ar links prejudiciais ao grupo.
Um caso concreto ilustra o método. O vereador Rony Gabriel contou à PF que foi procurado por um representante da agência UNLTD para um trabalho de "gestão de crise". Antes de saber do que se tratava, teve de assinar um acordo de confidencialidade — que menciona expressamente o "PROJETO DV" — com multa de R$ 800 mil em caso de quebra. Só depois da assinatura foi revelado o serviço: gravar vídeos dizendo que o Banco Master teria sido "vítima" do Banco Central.
As propostas a influenciadores chegavam a R$ 2 milhões. Os pagamentos eram feitos pelo próprio Miranda, com recursos repassados pela Super Empreendimentos e Participações, empresa de Vorcaro. A execução das campanhas ficava a cargo da agência Unlimited, de André Salvador e Anderson Antunes, contratada por Miranda. Quando havia recusa, o grupo partia para intimidação com dados privados obtidos ilegalmente.
A devassa contra Malu Gaspar
A decisão detalha o monitoramento da jornalista Malu Gaspar, de O Globo, cujas reportagens sobre o Master incomodavam Vorcaro. Miranda coordenava uma equipe dedicada a vasculhar a vida da colunista: houve estimativa de renda, listagem de operações de cartão de crédito, análise de movimentações bancárias, identificação dos filhos e até dados do veículo que ela usava.
As informações financeiras, segundo a PF, eram compradas em uma plataforma clandestina associada a esquemas de venda não autorizada de dados pessoais — conduta que pode configurar o crime do artigo 154-A do Código Penal (invasão de dispositivo) e violação da Lei Geral de Proteção de Dados. O objetivo declarado nas conversas era reunir material capaz de constranger, desacreditar ou expor a jornalista publicamente.
Maluhy, Galípolo e os jornalistas abordados
Outros alvos aparecem na decisão:
- Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco): Vorcaro pediu a Miranda um levantamento sobre o CEO do banco, dizendo que ele lhe causava muitos problemas; o publicitário respondeu de imediato: "Deixa comigo". A PF localizou depois um documento com dados pessoais e patrimoniais do executivo e da esposa, Camila Moretti Maluhy — intitulado como relatório confidencial sobre execução fiscal da família — estampado com a identidade visual da agência MiThi, de Miranda.
- Gabriel Galípolo (Banco Central): em mensagens reveladas por reportagens do portal Fatos Online e confirmadas pela PF no material apreendido, Miranda afirmava ter relação próxima com a companheira do presidente do BC, sugerindo que essa proximidade poderia ser usada estrategicamente.
- Consuelo Dieguez (Piauí) e Renato Breia (Nord Investimentos): Miranda abordou os dois para retirar do ar conteúdos prejudiciais a Vorcaro. A jornalista recusou; o sócio da consultoria atendeu, mas registrou contrariedade com a abordagem. Miranda comemorou com o banqueiro: "Mais um arquivado!".
O mapeamento de influenciadores cooptados gerou inclusive um inquérito próprio no STF (Inq. 5.035), reforçado por levantamento da Febraban que identificou ataques coordenados ao Banco Central nas redes sociais.
O que a decisão autorizou
Mendonça autorizou a apreensão de documentos físicos e eletrônicos, contratos, notas fiscais, registros contábeis, comprovantes bancários, celulares, computadores e dados em nuvem — com afastamento de sigilo bancário, fiscal e telefônico —, além de dinheiro em espécie acima de R$ 20 mil e bens de luxo sem origem lícita comprovada. A PGR requereu ainda a preservação imediata dos dados do investigado em serviços de nuvem, para impedir exclusão ou alteração de arquivos.
O ministro determinou que os mandados fossem cumpridos de forma discreta, "sem qualquer espetacularização". Não há condenações até o momento, e os investigados têm direito ao contraditório e à ampla defesa.
A íntegra da decisão está disponível no site do STF.
Próximos passos
De acordo com as informações obtidas pela CNN Brasil, a expectativa dos investigadores é que a análise do material permita dimensionar a estrutura do grupo, identificar os auxiliares de Vorcaro e Miranda e esclarecer como funcionava a máquina de dossiês montada contra quem era visto como obstáculo aos interesses do Master.
Com informações da CNN Brasil e da decisão do ministro André Mendonça (PET 16346/STF).