Vindos de lados opostos, a Fazenda e o mercado chegaram quase ao mesmo número para a inflação deste ano, e ele estoura o teto. O governo elevou sua projeção; o mercado baixou a dele. No meio do caminho, os dois se encontraram em 5,1%.
Por meses, governo e mercado discordaram sobre a inflação de 2026. Agora, discordam menos, e é justamente aí que mora a notícia. As duas projeções convergiram para praticamente o mesmo ponto, um pouco acima de 5,1%, que estoura o teto da meta do Banco Central.
De um lado, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, no Boletim Macrofiscal de julho, elevou a estimativa de IPCA para 2026 de 4,5% para 5,1%. Do outro, o mercado, ouvido no Boletim Focus desta segunda, cortou a projeção para 5,15%, na terceira semana seguida de queda. O governo subiu, o mercado desceu, e os dois se encontraram.
Por que a convergência importa
Quando governo e mercado divergem sobre inflação, sempre resta a dúvida de quem está otimista demais. A Fazenda costuma projetar números mais comportados, porque suas estimativas embutem o efeito esperado das próprias políticas. O mercado tende a ser mais conservador. Quando os dois se aproximam, a leitura ganha força: não é mais a aposta de um lado só, é um diagnóstico compartilhado.
E o diagnóstico compartilhado agora é desconfortável. A meta de inflação do Banco Central é de 3%, com teto de 4,5%. Tanto os 5,1% da Fazenda quanto os 5,15% do mercado estão acima desse limite. Ou seja, os dois principais termômetros da economia brasileira projetam que 2026 fecha com a inflação furando a meta.
O que empurrou a Fazenda para cima
A SPE foi clara sobre o que a fez elevar a projeção em mais de meio ponto: pressão nos preços dos alimentos, repasses do atacado para o consumidor, os efeitos indiretos do conflito no Oriente Médio e a possibilidade de um El Niño mais intenso, que pode afetar a produção agrícola.
Vale um cuidado importante de data: o Boletim Macrofiscal tem data de corte anterior a 8 de julho, quando o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã foi interrompido. O próprio documento reconhece que a retomada do conflito e a nova alta do petróleo vieram depois desse corte e representam um risco adicional de alta para os preços de energia. Em outras palavras, a projeção de 5,1% pode já estar defasada para cima, porque não capturou por completo o petróleo que voltou a subir e mexe com o bolso do brasileiro.
O crescimento resistiu
No que diz respeito à atividade, a Fazenda foi na direção oposta e manteve a projeção de crescimento do PIB em 2,3% para 2026. Dentro desse número, houve trocas: a estimativa para a agropecuária subiu de 1,2% para 1,8%, a da indústria caiu levemente de 2,2% para 2,1%, e a de serviços ficou em 2,4%.
O governo prevê uma desaceleração ao longo do ano, efeito dos juros altos segurando a economia, com recuperação apenas no quarto trimestre. E aponta que esse repique final deve ser mais fraco do que se esperava antes, justamente porque o ciclo de corte de juros deve ser mais curto. Isso conversa com o que o Focus mostrou: com a inflação furando a meta, não há espaço para o Banco Central baixar a Selic tão cedo.
O que fica no radar
A inflação alta e resistente tem uma consequência direta para o seu bolso: juros altos por mais tempo. Isso significa crédito caro, mas também renda fixa continuando a pagar bem. É o que explica o apetite por títulos públicos num momento como este.
O próximo teste é o Boletim Focus da segunda que vem, o primeiro a capturar todo o efeito da nova alta do petróleo. Se a projeção do mercado voltar a subir, a convergência com a Fazenda pode virar algo pior: as duas visões subindo juntas.