O que começou como teste em mercados e farmácias virou hábito de massa: a modalidade saltou de 500 mil para 1,3 milhão de pedidos em poucos meses, com taxas que chegam a 8,36% para dividir uma refeição.
Parcelar o pedido de comida deixou de ser exceção no Brasil. O parcelamento no cartão de crédito dentro do iFood, desenvolvido pelo braço financeiro da empresa, o iFood Pago, estreou em setembro de 2025 restrito a compras de mercado e farmácia. Em dezembro, chegou ao coração do aplicativo: os pedidos em restaurantes.
O resultado foi rápido. Entre setembro e novembro de 2025, a função somava cerca de 500 mil pedidos. Só nos meses de dezembro e janeiro, o número passou de 1,3 milhão, segundo dados divulgados pela própria empresa. Em outras palavras, o volume mais que dobrou assim que a opção alcançou a refeição do dia a dia.
Quanto custa parcelar um pedido
A operação funciona como qualquer compra parcelada com juros, mas aplicada a valores baixos e recorrentes. O consumidor escolhe de uma a seis parcelas na hora do pagamento, com cartões das principais bandeiras do mercado, entre elas Visa, Mastercard, Elo, American Express e Hipercard.
De acordo com testes realizados pelo Melhores Cartões, as taxas ficam nesta faixa:
- 2 parcelas: cerca de 3,53%
- 6 parcelas: cerca de 8,36%
São percentuais abaixo da média cobrada em parcelamentos com juros no varejo, mas que pesam quando aplicados a um gasto que se repete várias vezes no mês. Dividir um pedido de R$ 120 em seis vezes significa pagar perto de R$ 130 pela mesma refeição, já consumida no mesmo dia.
O recurso ainda não aparece em todos os estabelecimentos. Ele está liberado para os parceiros que operam com o iFood Pago, e a tendência é de ampliação conforme mais restaurantes migrem para o novo arranjo de pagamento.
Por que a adesão explodiu
O avanço acontece no pior momento possível para o orçamento das famílias. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio, mostrou que 81,6% das famílias brasileiras tinham dívidas a vencer em junho de 2026, com inadimplência em 29,9%. Em março, o indicador de endividamento já havia batido recorde na série iniciada em 2010.
Ou seja: o parcelamento da comida chega a um consumidor que já opera no limite. Para a empresa, o argumento é de conveniência e de um hábito consolidado no país, o de diluir custos ao longo do mês. Para especialistas em finanças pessoais, o alerta é outro: quando o consumo imediato e de baixo valor entra no crédito rotativo do orçamento, a próxima fatura chega com gastos que já foram consumidos e esquecidos.
Há situações em que a conta fecha. Cupons de desconto acima de 10% podem compensar os juros das parcelas, assim como pedidos de valor mais alto, para grupos ou datas comemorativas. O problema é o uso rotineiro, em compras pequenas, que transforma um gasto variável em compromisso fixo dos meses seguintes.
O que está por trás da estratégia
O parcelamento não é um recurso isolado. É a ponta visível da entrada do iFood Pago no crédito ao consumidor final, mirando a base de dezenas de milhões de usuários da plataforma. A fintech, criada inicialmente para financiar restaurantes parceiros, projeta encerrar o ano fiscal de 2026 com receita na casa dos R$ 2,5 bilhões, praticamente o dobro do período anterior.
Para o restaurante, o efeito esperado é o aumento do ticket médio. Para a plataforma, é receita financeira somada à receita de entrega. Para o consumidor, é uma escolha nova a ser feita a cada pedido.
O que fica no radar
O ponto de atenção nos próximos meses é a taxa de inadimplência dessa modalidade, ainda não aberta pela empresa, e a eventual expansão do modelo para pagamento em 30 dias sem juros, no formato de compre agora e pague depois. Também vale acompanhar se órgãos de defesa do consumidor passarão a cobrar mais transparência na exibição do custo total antes da confirmação do pedido.