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OpenAI e Google vendem IA a gigantes chinesas vetadas pelo Pentágono

OpenAI e Google vendem IA a filiais de Alibaba, Tencent e Baidu em Singapura, driblando lista negra do Pentágono. Prática é legal e pressiona Washington.

EQ
Equipe Analistas Equipe Editorial
Publicado em: 10/07/2026
Singapura
Foto: Ernie Santiago | Pexels

Alibaba, Baidu e Tencent estão na lista negra militar dos EUA — mas continuam acessando os modelos de IA americanos mais avançados por meio de filiais em Singapura. A prática é legal, e é exatamente isso que preocupa Washington.

OpenAI e Google confirmaram que fornecem serviços avançados de inteligência artificial a subsidiárias de Alibaba, Baidu e Tencent sediadas em Singapura, mesmo com as matrizes chinesas incluídas na lista negra do Pentágono. A revelação é de uma investigação do Financial Times publicada nesta sexta-feira (10) e expõe uma brecha nos esforços dos EUA para frear o avanço da IA chinesa.

As três gigantes de tecnologia figuram na chamada lista 1260H, um cadastro do Departamento de Defesa americano que reúne empresas acusadas de manter vínculos com o Exército de Libertação Popular da China. Ainda assim, as vendas não violam nenhuma regra: a legislação americana restringe a exportação de chips avançados, como os da Nvidia, mas não proíbe de forma ampla que empresas chinesas acessem software de IA fora da China continental.

Como funciona a brecha de Singapura?

O mecanismo é simples. O acesso direto aos modelos a partir da China continental é bloqueado pelas próprias empresas americanas. Mas as filiais dos grupos chineses registradas em jurisdições como Singapura e Hong Kong podem contratar os serviços normalmente, sujeitas apenas aos termos de uso.

De acordo com as informações obtidas pelo Financial Times, a OpenAI afirmou que prefere ver o mundo usando uma IA moldada por valores democráticos a uma IA controlada por governos autocráticos, e que a nacionalidade não deveria ser o único critério de acesso. O Google, por sua vez, disse que seus serviços estão disponíveis nesses mercados sob políticas que proíbem práticas abusivas — mas admitiu que restrições geográficas, sozinhas, não impedem usuários sofisticados de contornar os controles.

O caso da "destilação" que travou o Alibaba

A relação já produziu atrito. No mês passado, a OpenAI suspendeu o acesso à sua API de usuários ligados ao Alibaba após detectar indícios de "destilação" — técnica em que desenvolvedores usam as respostas de um modelo avançado para treinar e melhorar um sistema rival. A empresa reportou a atividade ao governo americano.

O tema não se limita à OpenAI. A Anthropic, dona do Claude, já acusou laboratórios chineses como DeepSeek, Moonshot e MiniMax de usar destilação contra seus produtos e informou ao Congresso dos EUA que o Alibaba teria criado cerca de 25 mil contas fraudulentas, somando mais de 28,8 milhões de interações com seus modelos em violação aos termos de uso. A empresa adota a política mais dura do setor: proíbe companhias chinesas — e entidades estrangeiras controladas por elas — de acessar seus modelos de fronteira, e defende controles de exportação mais amplos para software de IA.

O Alibaba não comentou as acusações, mas contra-atacou em outra frente: pediu à Justiça americana que retire seu nome da lista 1260H, classificando a designação do Pentágono como arbitrária e caprichosa. O Baidu preferiu não se manifestar e a Tencent não respondeu aos questionamentos.

Chips têm veto, software não: o debate em Washington

O episódio reacendeu a pressão por controles de exportação sobre modelos de IA semelhantes aos que já valem para semicondutores avançados. O argumento dos críticos: se os modelos de fronteira fluem livremente para empresas da lista negra por meio de jurisdições amigas, todo o regime de restrições construído em torno dos chips fica poroso no lado do software.

Chris McGuire, ex-integrante do governo Biden hoje no Council on Foreign Relations, defende que os modelos mais avançados fiquem fora do alcance de empresas chinesas independentemente do país onde elas façam o login. Especialistas em segurança nacional também alertam que a prática permite à China extrair capacidades avançadas de IA sem arcar com os custos bilionários de desenvolvimento pagos pelas empresas americanas.

O que fica no radar

A bola está com Washington. A legislação atual já restringe o acesso a alguns modelos de ponta específicos, mas não há veto geral — e o caso deve acelerar propostas de controle de exportação de software de IA no Congresso. Para as big techs americanas, o dilema é comercial e político: fechar a porta significa abrir mão de receita bilionária na Ásia; mantê-la aberta significa conviver com a acusação de abastecer, ainda que indiretamente, o ecossistema militar-tecnológico chinês. No mercado, a reação inicial foi morna: as ações da Alphabet e os ADRs do Alibaba operavam praticamente estáveis no pré-mercado desta sexta-feira (10).

Com informações do Financial Times.

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