A estatal de correios da Itália abriu nesta segunda a oferta para comprar toda a Telecom Italia, num negócio que o Financial Times avalia perto de € 13 bilhões, ou R$ 80 bilhões. Como a Telecom controla a TIM daqui, o dono final da sua operadora pode passar a ser o governo italiano.
A Poste Italiane, a estatal de correios e serviços financeiros da Itália, abriu nesta segunda-feira (20) o período de adesão à sua oferta pública para adquirir 100% das ações da Telecom Italia (TIM), a companhia italiana que controla a TIM Brasil. A oferta vai até 11 de setembro. No sábado (18), o conselho da Telecom Italia aprovou por unanimidade a proposta, considerando o preço financeiramente justo.
Para o Brasil, a consequência é direta e histórica: se a operação se concluir, o controle indireto da TIM Brasil, sediada no Rio e uma das três maiores operadoras móveis do país, passa às mãos do Estado italiano, que é dono de 64% da Poste Italiane.
Quanto custa, de verdade
Aqui vale esclarecer um número que está circulando de formas diferentes. A oferta foi estruturada em março e avaliada em cerca de € 10,8 bilhões. Ela não é toda em dinheiro: para cada ação da TIM, a Poste paga € 1,67 em dinheiro mais 0,218 ação nova da própria Poste.
Como parte do pagamento é em ações da Poste, e esses papéis se valorizaram desde março, o valor total da transação subiu. O Financial Times observou que o negócio agora vale algo próximo de € 13 bilhões, ou cerca de R$ 80 bilhões na conversão atual. Ou seja, os R$ 80 bilhões são o valor atualizado pela alta das ações, não o preço fixo da oferta, que segue ancorado nos € 10,8 bilhões originais.
O prêmio embutido era de pouco mais de 9% sobre a cotação da TIM antes do anúncio.
Não é bem "vender o controle"
A manchete de que a TIM "aceita vender o controle" merece um ajuste de precisão. A Poste Italiane já vinha montando esse controle havia mais de um ano, em etapas:
- Em fevereiro de 2025, comprou 9,81% da estatal Cassa Depositi e Prestiti
- Em março de 2025, mais 15% da francesa Vivendi, por € 684 milhões
- Em dezembro de 2025, mais 2,51% da Vivendi, chegando a 27,32% e se tornando a maior acionista
- Agora, com a oferta pelos demais papéis, busca consolidar o controle total
O que aconteceu no sábado não foi um dono vendendo, e sim o conselho da TIM recomendando que os acionistas aceitem a oferta. A saída da Vivendi, que por dez anos foi a maior acionista e vivia em conflito com a gestão, encerra um capítulo e devolve a uma estatal italiana o comando da antiga incumbente do país.
O que muda para a TIM Brasil
No curto prazo, nada. A TIM Brasil segue operando normalmente, e a própria Telecom Italia informou que não vai atualizar seu plano de negócios até a conclusão da oferta. Os resultados do segundo trimestre saem em 29 de julho.
No médio prazo, o sinal é de continuidade com reforço. O CEO da Poste Italiane, Matteo Del Fante, afirmou publicamente que o Brasil é um ativo estratégico e que o grupo pretende investir forte no país. Para o acionista da TIM Brasil (TIMS3), listada na B3, os pontos de atenção são os de praxe em troca de controle: eventuais mudanças no conselho, na política de dividendos e no plano de investimentos, que só devem ficar claras depois que a oferta se encerrar, em setembro.
Vale lembrar que a operação ainda depende de aprovações regulatórias, incluindo o antitruste italiano, que já abriu investigação, e da eventual análise de autoridades brasileiras como a Anatel sobre a mudança de controle indireto.
O que fica no radar
Três datas organizam o calendário. A adesão à oferta corre de hoje até 11 de setembro, e o nível de aceitação dos acionistas vai definir quanto da TIM a Poste efetivamente controlará. Em 29 de julho saem os resultados do segundo trimestre da Telecom Italia. E a conclusão do negócio é esperada até o fim de 2026, condicionada às aprovações regulatórias nos dois lados do Atlântico.