O governo constrói a maior plataforma de arrecadação da história do país: o split payment vai separar o imposto no momento exato da compra. O Ministério da Fazenda já gastou R$ 2 bilhões só neste ano no desenvolvimento.
O Brasil está montando uma máquina de arrecadar impostos que promete ser 170 vezes maior que o Pix. É o split payment ("pagamento dividido"), peça central da Reforma Tributária que começa a valer na prática a partir de 2027. Segundo reportagem de O Globo, o sistema deverá processar cerca de 70 bilhões de documentos fiscais por ano — para comparar, o Pix realiza hoje na casa de 300 milhões de operações por dia.
A ideia é direta: quando o consumidor pagar uma compra — no cartão, no Pix ou no boleto —, a fatia correspondente aos novos tributos (CBS e IBS) será separada automaticamente e enviada em tempo real para a União, os estados e os municípios. A empresa deixa de ser intermediária do recolhimento, o que fecha a porta para a sonegação.
Por que o sistema é tão maior que o Pix?
A comparação impressiona, mas os dois sistemas fazem coisas diferentes. O Pix apenas liquida pagamentos. O split payment terá que cruzar, em cada transação: o pagamento, a nota fiscal, o produto ou serviço vendido, comprador, vendedor, créditos e débitos tributários e ainda a repartição da receita entre os três níveis de governo.
De acordo com as informações de O Globo, o próprio Fisco subestimou o tamanho do desafio: a projeção inicial era de uma plataforma 150 vezes maior que o Pix, revisada depois para 170 vezes. O ministro-executivo da Fazenda, Dario Durigan, classificou o desenho do sistema como hipercomplexo e disse que o governo faz um trabalho intenso de pactuação com estados e municípios para evitar ruído federativo.
Para bancar a engrenagem, a Fazenda deve desembolsar R$ 2 bilhões apenas em 2026 no desenvolvimento da tecnologia.
O que muda para empresas e consumidores?
A promessa do governo é concentrar toda a complexidade no "motor" do sistema e entregar simplicidade na ponta. Entre os pontos já definidos:
- Nota fiscal em um clique: a Receita Federal pretende entregar a nota praticamente pronta ao pequeno empreendedor, sem cálculos manuais;
- Sistema único de emissão: fim da burocracia separada com União, estados e municípios;
- Restituição em até 90 dias: crédito tributário das empresas devolvido em prazo definido, melhorando o fluxo de caixa;
- Cashback tributário: devolução de parte dos impostos para famílias de baixa renda inscritas no CadÚnico;
- Calculadora oficial antierro: alertas ao contribuinte antes de qualquer autuação por erro de classificação.
O cronograma acompanha a transição da Reforma Tributária: 2026 funciona como ano-teste, com alíquota simbólica e sem punição a contribuintes em ajuste. A partir de 2027, PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS começam a dar lugar à CBS e ao IBS, num processo que vai até 2033.
O que fica no radar
A documentação técnica da plataforma foi publicada em junho — e é a partir dela que empresas, bancos e fintechs começam a dimensionar o impacto real em contratos, sistemas e gestão de caixa. Os próximos meses serão decisivos para saber se a infraestrutura ficará pronta no prazo e se a promessa de simplicidade vai se confirmar quando os primeiros pagamentos "fatiados" começarem a rodar em escala nacional.