O pré-candidato do PSD elevou o tom contra o senador do PL, questionou a atuação do Itamaraty e reacendeu o debate sobre o crime de traição à pátria no Brasil. Entenda o que está em jogo.
A disputa presidencial de 2026 ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (7). Em sabatina, o pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) fez duras críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL), também pré-candidato, por sua atuação em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Para Caiado, o comportamento do senador em relação ao tema é "inaceitável" e configura uma conspiração contra a economia nacional. A declaração ocorre no mesmo dia em que Flávio participou de uma audiência em território americano para tratar do tarifaço.
O que motivou a crítica de Caiado
O estopim da polêmica remonta a maio, quando Flávio Bolsonaro esteve na Casa Branca em reunião com o presidente americano Donald Trump. Dias após o encontro, Washington anunciou uma nova rodada de tarifas de 25% sobre produtos do Brasil — movimento que gerou forte reação no cenário político nacional.
Durante a sabatina, o mediador Zeca Martins questionou se o episódio poderia ser enquadrado como "traição à pátria". Caiado respondeu que legislações desse tipo existem em qualquer democracia e classificou a conduta do adversário como uma conspiração contra a economia do país, citando ainda a existência de legislação antidumping que, segundo ele, não vem sendo aplicada.
Existe crime de traição à pátria no Brasil?
Um ponto curioso levantado no debate: o Brasil não possui uma legislação civil específica sobre traição à pátria em tempos de paz. Segundo apurado na conversa — com referência ao jurista Miguel Reale Jr. —, o tema aparece apenas no Código Penal Militar (artigo 141), aplicável exclusivamente em contexto de guerra.
No Código Penal comum, o que existe são os crimes contra a soberania nacional, previstos nos artigos 344 e 359-I. A lei tipifica como crime a articulação com país ou organização estrangeira com o objetivo de gerar conflito internacional envolvendo o Brasil ou de perturbar suas relações diplomáticas.
Críticas também ao Itamaraty
Caiado não poupou o Ministério das Relações Exteriores. Na avaliação do pré-candidato, o Itamaraty abandonou seu papel institucional na crise tarifária e passou a operar com viés ideológico, quando deveria conduzir uma política de Estado.
"Falso positivo": a crítica ao adiamento das tarifas
Antes da sabatina, em conversa com jornalistas, Caiado também rechaçou a proposta de adiar a aplicação das tarifas americanas para depois das eleições brasileiras. Para ele, a manobra criaria um "falso positivo" para a população — a falsa sensação de que o problema foi resolvido, quando apenas teria sido empurrado para depois do pleito.
O goiano afirmou não compreender a linha de raciocínio de Flávio Bolsonaro e declarou ser totalmente contrário à ideia, argumentando que a preocupação deve ser com o Brasil como um todo, e não com o calendário eleitoral.
Flávio nos EUA: o que é a Seção 301
Enquanto era criticado no Brasil, Flávio Bolsonaro participava de uma audiência nos Estados Unidos, na qual defendeu o cancelamento das tarifas contra o Brasil. A audiência faz parte de uma investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial americana.
O mecanismo permite que o governo dos EUA investigue se políticas adotadas por outros países prejudicam os interesses comerciais americanos — e, a depender da conclusão, aplique retaliações, como as próprias tarifas.
O que isso significa para 2026
O embate entre Caiado e Flávio Bolsonaro escancara como o tarifaço americano se tornou um dos temas centrais da corrida presidencial. De um lado, a acusação de que aproximações com o governo Trump prejudicam a economia nacional; de outro, a narrativa de que o diálogo direto com Washington é o caminho para reverter as tarifas.
Com a economia brasileira pressionada pelas tarifas de 25% e a eleição se aproximando, a tendência é que o tema continue dominando o debate entre os pré-candidatos nos próximos meses.
*Com informações de sabatina realizada em 7 de julho de 2026. Confira no site da *CNN