Os líderes do Brics encerraram a cúpula de Nova Délhi com um alerta sobre choques nas cadeias de suprimentos e a disputa por minerais críticos. A declaração conjunta, adotada durante o encontro de 12 e 13 de setembro de 2026, defendeu redes de fornecimento diversificadas, resilientes e capazes de gerar valor nos países produtores.
No discurso de encerramento, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, afirmou que tensões geopolíticas e interrupções logísticas ameaçam a estabilidade global. Ele também criticou o uso de tecnologia e minerais estratégicos como instrumentos de pressão entre países.
O que diz a Declaração de Nova Délhi
O documento pede cadeias de minerais críticos que sejam confiáveis, responsáveis, diversificadas, sustentáveis e justas. O texto também ressalta a soberania dos países sobre seus recursos naturais e o direito de adotar políticas públicas para promover agregação de valor e diversificação econômica.
A formulação é relevante porque lítio, níquel, cobre, grafite, terras raras e outros insumos estão no centro da produção de baterias, redes elétricas, turbinas, chips e equipamentos de defesa. A concentração da mineração, do refino ou da transformação em poucos países deixa empresas e governos expostos a embargos, tarifas e interrupções logísticas.
Por que o assunto interessa ao Brasil
O Brasil reúne reservas minerais importantes, capacidade de geração renovável e uma indústria que busca ampliar etapas de processamento local. Isso abre uma oportunidade econômica, mas não garante resultados. Para capturar mais valor, o país precisa combinar licenciamento previsível, infraestrutura, pesquisa, financiamento, rastreabilidade e demanda industrial.
Um exemplo do movimento já em curso é o apoio do BNDES ao projeto de terras raras da Viridis, de R$ 77,5 milhões. O desafio é transformar projetos isolados em uma cadeia que inclua beneficiamento, componentes e aplicação tecnológica, sem reduzir o debate a exportar minério bruto.
Tecnologia e comércio aparecem no mesmo tabuleiro
A declaração também trata de inteligência artificial, infraestrutura digital, segurança das cadeias tecnológicas e cooperação científica. Isso aproxima dois debates que muitas vezes parecem separados: quem controla os insumos físicos e quem domina as tecnologias capazes de transformá-los em produtos de maior valor.
Para empresas brasileiras, a consequência prática pode aparecer em exigências de origem, contratos de longo prazo, padrões ambientais e incentivos para produção local. O comércio com a China, principal parceiro do Brasil, continuará decisivo. A recente abertura chinesa para um produto brasileiro de maior valor agregado ilustra como decisões regulatórias e diplomáticas podem mudar mercados específicos.
O que a cúpula decidiu de fato
A Declaração de Nova Délhi estabelece uma posição política comum e áreas de cooperação. Ela não cria automaticamente uma reserva conjunta, um cartel de minerais ou regras obrigatórias para empresas. Medidas concretas dependerão de políticas nacionais, acordos posteriores e projetos financiáveis.
Essa diferença é essencial para interpretar o encontro. O consenso diplomático mostra prioridade e direção, mas seus efeitos econômicos serão medidos pela execução: novos investimentos, acordos de fornecimento, capacidade de processamento e participação dos países produtores nas etapas de maior valor.
O que acompanhar
Para o Brasil, os próximos sinais relevantes serão os programas de financiamento para minerais estratégicos, a evolução do licenciamento, parcerias tecnológicas e compromissos que incluam processamento doméstico. Também importa observar se o Brics conseguirá transformar a linguagem de cooperação em mecanismos transparentes de investimento e comércio.
A apuração considerou a Declaração de Nova Délhi divulgada pelo governo indiano e a cobertura do encerramento da cúpula por agência internacional. O texto evita atribuir ao grupo decisões que não aparecem no documento oficial.