Uma das maiores varejistas do país entrou com pedido de recuperação judicial, com dívidas de R$ 17,3 bilhões, e negocia um empréstimo de emergência de R$ 1 bilhão com Bradesco e Banco do Brasil. Junto ao pedido, fechou 298 lojas e demitiu mais de 3 mil pessoas. Entenda o que levou a gigante a esse ponto.
A Casas Bahia (BHIA3) deu um dos passos mais duros de sua história. A varejista fundada por Samuel Klein entrou com um pedido de recuperação judicial (RJ), informando dívidas que somam R$ 17,3 bilhões. É a primeira vez que a companhia recorre a esse mecanismo, embora já tenha passado por uma recuperação extrajudicial, mais branda, há cerca de dois anos.
Para atravessar os próximos meses, a empresa negocia um financiamento de emergência de R$ 1 bilhão, com a provável participação de seus dois maiores credores, o Bradesco e o Banco do Brasil. A situação se reflete na Bolsa: a ação da Casas Bahia acumula queda de 77% em 12 meses, e a companhia hoje vale cerca de R$ 670 milhões.
O que é uma recuperação judicial (e o tal do DIP)?
Vale explicar os termos. A recuperação judicial é um mecanismo em que uma empresa endividada pede à Justiça proteção contra seus credores para se reorganizar, ganhando fôlego para renegociar dívidas enquanto continua operando. É um passo mais sério do que a recuperação extrajudicial, o acordo negociado diretamente com credores, como o que a Raízen usou recentemente para reestruturar seus bilhões.
Já o tal DIP (sigla em inglês para debtor-in-possession financing) é o empréstimo de emergência buscado pela Casas Bahia. Trata-se de um dinheiro concedido a uma empresa já em recuperação que, em troca do risco, tem prioridade de recebimento sobre as outras dívidas. É o "capital de giro" que mantém a empresa de pé durante a reestruturação.
Como uma empresa que "zerou a dívida" pede RJ?
Aqui está o ponto que mais confunde. Há poucos meses, a Casas Bahia havia concluído uma reestruturação que praticamente eliminou sua dívida financeira, convertendo bilhões em debêntures em ações, operação que fez a Mapa Capital assumir o controle. No segundo trimestre, sua dívida líquida ajustada era de apenas R$ 1,2 bilhão.
Então, de onde vêm os R$ 17,3 bilhões? Esse número engloba o passivo total da companhia, incluindo dívidas com fornecedores, obrigações trabalhistas, tributárias e contratos de aluguel, muito além da dívida bancária. O problema, na prática, foi de caixa: a geração de dinheiro do último trimestre veio em boa parte da redução de estoques, uma alavanca que não se repete. Como resumiu uma fonte ao Brazil Journal, "não tinha mais muito de onde tirar". A empresa tentou levantar recursos com venda de ações e crédito, mas a piora do mercado fechou essa porta.
O ajuste duro: 298 lojas fechadas e 3 mil demissões
A recuperação judicial veio acompanhada da parte mais dolorosa do ajuste. Na sexta-feira, a Casas Bahia fechou 298 lojas deficitárias e demitiu mais de 3 mil funcionários, entre as lojas e a área administrativa.
Só os cortes de pessoal devem gerar uma economia de cerca de R$ 400 milhões por ano. Somando aluguéis, tecnologia e outros contratos, a redução estrutural de custos pode chegar a R$ 2 bilhões anuais. A estratégia declarada é operar uma companhia menor, priorizando margem, geração de caixa e retorno, em vez de perseguir volume de vendas e participação de mercado a qualquer custo. É uma guinada: fazer menos, mas com mais rentabilidade.
O plano para sobreviver até 2027
A aposta da empresa é usar o empréstimo de emergência como uma ponte até 2027, quando espera destravar mais caixa. Dois caminhos estão no radar: a liberação de cerca de R$ 1 bilhão em depósitos que a companhia mantém na Justiça e a renegociação de dívidas tributárias, alongando pagamentos e buscando descontos.
Somadas, essas medidas poderiam liberar ou adiar cerca de R$ 2,5 bilhões em caixa ao longo do próximo ano. Com os fornecedores, o plano é alongar as dívidas antigas sem calote (sem "haircut"), enquanto as novas compras passam a ser à vista. A expectativa da empresa é voltar a gerar caixa positivo em 2027.
O que isso significa para o investidor e o setor
Para quem tem a ação, o momento é de altíssimo risco. Em uma recuperação judicial, o acionista costuma ficar no fim da fila e sujeito a forte diluição ou perdas, o que ajuda a explicar o tombo de 77% do papel no último ano. Vale reforçar: este texto é informativo e não constitui recomendação de investimento.
O caso também acende um alerta sobre o varejo brasileiro, espremido entre os juros altos, que encarecem o crédito e as dívidas, e um consumidor mais cauteloso, uma pressão que tem apertado todo o setor, como se viu também nas margens magras do Carrefour. Do outro lado do balcão, os bancos credores, como o Bradesco e o Banco do Brasil, acompanham de perto, já que são eles que devem bancar o empréstimo de emergência.
O que fica no radar
Os próximos passos serão a análise do pedido pela Justiça e a apresentação formal do plano de recuperação, que precisará ser aprovado pelos credores. Enquanto isso, a companhia tentará provar que o modelo de "empresa menor e mais rentável" funciona.
O grande teste será 2027: é quando a Casas Bahia promete voltar a gerar caixa e mostrar que a dolorosa reestruturação valeu a pena. Até lá, o desafio é sobreviver ao aperto, manter os fornecedores por perto e reconquistar a confiança de um mercado que, por ora, precificou a ação perto do chão.