O banco superou as expectativas e emplacou o décimo trimestre seguido de crescimento do lucro, confirmando sua recuperação. O crescimento do crédito, porém, veio com o pé no freio, e a inadimplência em alta segue no radar.
O Bradesco (BBDC4) mostrou que sua virada continua firme. O banco reportou um lucro líquido recorrente de R$ 7 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,2% em relação a um ano antes e acima do que o mercado esperava, já que os analistas projetavam algo próximo de R$ 6,96 bilhões. Foi o décimo trimestre consecutivo de crescimento do lucro, um marco que confirma a recuperação do banco após anos mais difíceis.
A rentabilidade, medida pelo retorno sobre o patrimônio (ROE), atingiu 16,2%, um avanço tanto na comparação trimestral quanto anual. E a eficiência melhorou: o índice que mede o custo em relação à receita caiu para 46,5%, sinal de um banco mais enxuto (quanto menor esse número, melhor).
A recuperação que continua
O resultado ganha ainda mais valor pelo momento delicado da economia para os bancos, com juros altos e um ciclo de crédito mais arriscado. Enquanto o Bradesco entrega seu décimo trimestre de alta, o rival Santander (SANB11) vinha de um resultado fraco, jogando "na defesa". O Itaú (ITUB4), por sua vez, manteve a liderança de rentabilidade, com lucro de R$ 12,4 bilhões.
Para analistas, o balanço confirma a trajetória de recuperação que o Bradesco vem construindo nos últimos anos, com melhora consistente trimestre após trimestre. As receitas totais somaram R$ 37,6 bilhões, alta de 10,3% em um ano.
Crescimento com o pé no freio
O ponto mais interessante da estratégia é o cuidado com o risco. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o presidente do banco, Marcelo Noronha, resumiu a postura ao afirmar que o Bradesco "não está fazendo loucura" na concessão de crédito.
Na prática, isso significa crescer com seletividade. A carteira de crédito chegou a R$ 1,1 trilhão, alta de 11,6% no ano, mas o banco vem reduzindo sua exposição ao crédito pessoal, mais arriscado, e priorizando linhas com garantia, como o financiamento de veículos, que cresceu quase 27%. O crescimento mais forte veio das empresas, com destaque para o crédito rural, que subiu 31% em um ano. Esse ponto, aliás, acende um alerta: o setor agrícola vem enfrentando dificuldades, o que exige atenção redobrada.
O ponto de atenção: inadimplência e provisões
Nem tudo foi comemoração. O banco teve de elevar as provisões, o dinheiro reservado para cobrir calotes, em 22,6% no ano, para quase R$ 10 bilhões. A inadimplência acima de 90 dias também subiu levemente, para 4,3%.
Esse é o retrato do momento: com juros altos, o ciclo de crédito piora e mais gente atrasa as contas. Ainda assim, gestores ouvidos pelo mercado avaliam que o aumento é administrável, justamente porque o Bradesco está crescendo em linhas mais seguras, e não no crédito de maior risco. É o preço de crescer com cautela em um cenário difícil.
Peça de uma estratégia maior
O bom resultado não vem isolado. Ele se soma a um momento de reorganização e fortalecimento do banco, que recentemente anunciou um aumento de capital de R$ 10 bilhões para reforçar sua estrutura. O grupo também consolidou seus negócios de saúde na BradSaúde, hoje uma empresa listada, mostrando uma estratégia de deixar cada peça mais robusta.
Apesar dos números sólidos, a ação preferencial (BBDC4) não reagiu com euforia: fechou o pregão em leve queda e acumula uma pequena baixa no ano, o que leva o valor de mercado do banco a cerca de R$ 180 bilhões.
O que fica no radar
Para o segundo semestre, a mensagem do banco é de evolução gradual. Em vez de crescer a qualquer custo, o Bradesco quer melhorar a rentabilidade "fazendo as coisas certas", de forma estrutural. O foco será manter a disciplina no crédito enquanto tenta elevar o ROE.
No pano de fundo, o rumo dos juros será decisivo. Se o Banco Central iniciar um ciclo de cortes na Selic, o ambiente de crédito tende a melhorar, aliviando a inadimplência e abrindo espaço para um crescimento mais forte, e menos cauteloso, nos próximos trimestres.