A Confederação Nacional da Indústria reduziu de 2% para 1,6% a projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026. A revisão divulgada na quarta-feira (28) reflete o impacto dos juros sobre indústria, comércio e serviços, além da perspectiva de aceleração da inflação no fim do ano.
Indústria perdeu força
A estimativa de crescimento do PIB industrial caiu de 2% para 1,3%. A maior preocupação está na indústria de transformação, que agora deve recuar 0,7% em 2026. A previsão anterior era de alta de 0,6%.
Segundo a CNI, o setor enfrenta demanda interna mais fraca, condições financeiras difíceis, aumento de custos e maior entrada de produtos importados.
| Indicador | Projeção da CNI para 2026 |
|---|---|
| PIB total | +1,6% |
| Indústria | +1,3% |
| Indústria de transformação | -0,7% |
| Serviços | +1,6% |
| Agropecuária | +2,5% |
| IPCA | +5,15% |
| Selic no fim do ano | 13,25% |
A indústria extrativa deve crescer 9,1%, apoiada principalmente pela produção de petróleo. Mesmo esse desempenho forte não seria suficiente para compensar a fraqueza da transformação.
A construção teve a projeção mantida em 1,5%. Programas habitacionais e investimentos em infraestrutura devem sustentar o setor, apesar do crédito caro.
Serviços também desaceleram
A projeção para serviços caiu de 1,9% para 1,6%. O volume do setor permanece praticamente estável desde o fim de 2025, enquanto partes do varejo dependentes de crédito perderam ritmo.
Juros altos encarecem financiamentos, reduzem compras parceladas e dificultam investimentos de empresas. Os efeitos aparecem com atraso, o que ajuda a explicar a desaceleração mesmo após o início de uma flexibilização monetária gradual.
A agropecuária seguiu na direção contrária. A estimativa subiu de 1,8% para 2,5%, impulsionada por uma perspectiva melhor para a segunda safra de milho.
Mercado de trabalho ainda ajuda o consumo
A CNI espera crescimento de 1,2% da população ocupada e queda do desemprego para 5% no fim do ano. A massa de rendimentos reais deve avançar 4,6%.
Emprego e renda continuam apoiando a demanda das famílias, mas a criação de vagas já desacelera em setores como indústria e comércio. A falta de trabalhadores em alguns segmentos também pressiona salários e custos.
Esse contraste ajuda a explicar o cenário: o mercado de trabalho permanece forte, enquanto produção e investimento sentem mais intensamente o custo do crédito.
Inflação pode terminar em 5,15%
A entidade projeta IPCA de 5,15% em 2026, acima dos 4,26% registrados em 2025. Alimentos, energia, combustíveis e serviços devem pressionar os preços nos meses finais do ano.
Para a taxa Selic, a CNI espera dois cortes de 0,25 ponto percentual nas reuniões restantes, levando o juro básico a 13,25% em dezembro.
Mesmo nesse nível, a taxa real de juros continuaria elevada. A confederação calcula que ela ficaria próxima de 9%, patamar considerado restritivo para produção e investimento.
Dívida pública é o principal alerta
A CNI projeta déficit primário efetivo de R$ 54,6 bilhões no governo federal, equivalente a 0,4% do PIB. Depois das exclusões permitidas para o cumprimento da meta, o resultado seria um superávit de R$ 12,6 bilhões.
A dívida bruta poderia subir de 78,6% para 83,7% do PIB até o fim do ano. Juros elevados tornam essa trajetória mais difícil porque aumentam o custo de financiamento do governo.
O que a revisão significa
A projeção de 1,6% não é um dado realizado, mas uma estimativa sujeita a mudanças. Safra, inflação, crédito, política fiscal e cenário externo podem alterar o resultado.
Para empresas e investidores, o relatório aponta crescimento desigual: agro e extração mineral mais fortes, enquanto indústria de transformação e setores dependentes do consumo financiado enfrentam maior dificuldade.