O Comitê de Política Monetária manteve a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4), em decisão unânime. Com isso, o Banco Central interrompeu uma sequência de cinco cortes e sinalizou que precisará de cautela antes de voltar a reduzir os juros, diante da piora das expectativas de inflação e do aumento das incertezas econômicas.
A decisão confirmou a expectativa que ganhou força nos últimos dias. No começo de outubro, parte do mercado ainda projetava um corte de 0,25 ponto percentual, para 13,50%. A mudança no cenário fiscal, a volatilidade dos ativos brasileiros, a pressão do câmbio e a revisão das projeções de inflação fizeram as apostas convergirem para a manutenção.
Selic ficou em 13,75%
O Copom vinha reduzindo a taxa básica desde março. A Selic saiu de 15% ao ano para 14,75% em março, caiu para 14,50% em abril, 14,25% em junho, 14% em agosto e 13,75% em setembro. A pausa de novembro encerrou, ao menos por enquanto, esse movimento gradual.
| Reunião de 2026 | Decisão | Selic ao ano |
|---|---|---|
| Janeiro | manutenção | 15,00% |
| Março | corte de 0,25 ponto | 14,75% |
| Abril | corte de 0,25 ponto | 14,50% |
| Junho | corte de 0,25 ponto | 14,25% |
| Agosto | corte de 0,25 ponto | 14,00% |
| Setembro | corte de 0,25 ponto | 13,75% |
| Novembro | manutenção | 13,75% |
A manutenção não significa que o Banco Central abandonou definitivamente a possibilidade de novos cortes. O comunicado também não prometeu uma redução na reunião de dezembro. A autoridade monetária deixou os próximos passos dependentes dos dados de inflação, atividade, expectativas, câmbio e política fiscal.
O Copom afirmou que o cenário exige “serenidade e cautela” na condução da política monetária.
Por que o Banco Central parou de cortar
O comunicado destacou que a inflação cheia e a média das medidas subjacentes aceleraram nas divulgações recentes. Essas medidas procuram identificar a tendência dos preços, retirando ou suavizando itens muito voláteis. Quando elas permanecem pressionadas, o BC encontra mais dificuldade para reduzir os juros rapidamente.
As expectativas reunidas no Boletim Focus também se afastaram da meta. A mediana para a inflação ficou em 5,2% em 2026 e 4,8% em 2027. O centro da meta contínua é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
No cenário de referência, o Copom elevou para 3,5% sua projeção de inflação para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária. O número está acima do centro da meta e ajuda a explicar a decisão de conservar uma taxa considerada restritiva.
O comitê também apontou riscos relacionados à inflação de serviços, aos efeitos do petróleo, a eventos climáticos, ao câmbio e a políticas que estimulem o consumo. Do lado contrário, uma desaceleração mais intensa da economia brasileira ou mundial poderia reduzir as pressões sobre os preços.
Atividade desacelera, mas inflação ainda preocupa
O Banco Central reconheceu uma moderação mais acentuada da atividade econômica, principalmente nos setores mais sensíveis ao crédito. O mercado de trabalho continua resistente, embora mostre sinais de perda de força na margem. O Caged de setembro registrou 121 mil novas vagas formais, pior resultado para o mês desde 2020.
Essa combinação torna a decisão mais difícil. Juros elevados reduzem o consumo, encarecem financiamentos e pesam sobre o investimento das empresas. Ao mesmo tempo, cortar a taxa antes de uma melhora mais consistente da inflação pode pressionar o câmbio e afastar ainda mais as expectativas da meta.
O Copom resumiu esse dilema ao mencionar, no mesmo comunicado, a desaceleração doméstica mais forte e as expectativas de inflação mais elevadas. A opção foi preservar o grau de aperto e esperar novas informações.
O que muda para crédito e investimentos
A Selic é a referência básica para o custo do dinheiro no país, mas empréstimos não são reajustados de forma automática nem na mesma proporção. Taxas de cartão, cheque especial, crédito pessoal, financiamento imobiliário e capital de giro incluem risco de inadimplência, custos operacionais, impostos e margem das instituições.
Com a pausa, o alívio esperado para o crédito tende a ser mais lento. Empresas endividadas e setores dependentes de financiamento, como varejo, construção e bens duráveis, continuam enfrentando um custo de capital elevado. Isso não significa que todas as taxas permanecerão imóveis: bancos podem alterar suas condições conforme concorrência, risco e prazo.
Para quem investe, a renda fixa pós-fixada continua beneficiada por juros nominais altos. Produtos ligados ao CDI e títulos atrelados à Selic preservam rentabilidade elevada antes de impostos e taxas. Já os títulos prefixados e indexados à inflação podem oscilar no mercado conforme as expectativas para os juros futuros.
Na Bolsa, a leitura também não é uniforme. Juros altos costumam reduzir o valor presente dos lucros futuros e dificultar o desempenho de companhias mais endividadas. Bancos podem ganhar com margens financeiras, mas também enfrentam risco maior de inadimplência e crédito mais fraco. Exportadoras e empresas com receitas em dólar respondem ainda ao comportamento do câmbio e das commodities.
O que acompanhar até dezembro
A próxima reunião do Copom está marcada para 8 e 9 de dezembro. Até lá, o mercado acompanhará os índices de inflação, o câmbio, os dados de emprego e atividade e, principalmente, novos sinais sobre a política fiscal do governo.
A ata desta reunião será publicada na terça-feira seguinte e deve detalhar como os membros avaliaram a interrupção dos cortes. O documento pode esclarecer quais condições seriam necessárias para uma retomada do ciclo e se a manutenção deve durar apenas uma reunião ou um período maior.
O cenário-base agora é de juros altos por mais tempo, mas não existe decisão contratada para dezembro. A Selic continuará em 13,75% enquanto o Copom avaliar se a desaceleração da economia será suficiente para reduzir a inflação sem provocar uma piora das expectativas ou do câmbio.