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Economia

Peña renuncia após crise bancária abalar o Paraguai

Colapso do Ueno Bank derrubou Santiago Peña, bloqueou milhões de clientes e expôs riscos na economia que mais atrai brasileiros na América do Sul.

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Por Fundador e Editor-chefe · Publicado em Revisado por Muniz
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Colagem minimalista com palácio presidencial do Paraguai, cofre vazio, cartão quebrado, guaranis e manifestantes
A quebra do Ueno Bank provocou protestos, crise política e a renúncia de Santiago Peña no Paraguai. Colagem editorial gerada por IA / Analistas.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou sua renúncia nesta quinta-feira (5) depois que a quebra do Ueno Bank bloqueou o acesso de milhões de clientes ao dinheiro, levou manifestantes às ruas de Assunção e rompeu sua sustentação no Partido Colorado. A crise une um caso de bancos a uma discussão maior sobre a economia paraguaia, destino que vem atraindo um número recorde de brasileiros.

A saída ainda dependia da formalização pelo Congresso no momento desta apuração. Pouco depois do anúncio, a Câmara dos Deputados aprovou por 78 votos a zero a acusação para um julgamento político. Pela Constituição, o vice-presidente Pedro Alliana é o sucessor e deve completar o mandato iniciado em 2023, com término previsto para 15 de agosto de 2028.

O que aconteceu no Paraguai

A crise começou a ganhar forma pública na madrugada de terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai comunicou que havia iniciado o processo de resolução do Ueno Bank. A decisão havia sido tomada por unanimidade pelo diretório do regulador em 2 de novembro.

O procedimento de resolução não é apenas uma intervenção administrativa comum. Ele é usado quando a autoridade conclui que uma instituição não tem condições de continuar operando normalmente e precisa organizar a transferência de depósitos e ativos aproveitáveis antes da liquidação do restante.

Segundo o Banco Central paraguaio, ajustes nos demonstrativos financeiros revelaram que o índice de solvência do Ueno havia caído para menos da metade do mínimo legal. A revisão identificou problemas na qualidade dos ativos, operações com empresas relacionadas ao grupo controlador e falhas na documentação de determinadas operações.

Aplicativo, cartões e transferências deixaram de funcionar. Agências permaneceram fechadas e clientes formaram filas sem conseguir movimentar o próprio dinheiro. A corrida para abrir contas em outras instituições chegou a sobrecarregar aplicativos bancários, ampliando a sensação de pânico.

Cronologia da criseO que ocorreu
2 de novembroDiretoria do Banco Central decide iniciar a resolução do Ueno Bank
3 de novembroMedida é anunciada; operações do banco são interrompidas
4 de novembroProtestos crescem e deputados apresentam acusação política
5 de novembroPeña anuncia renúncia; Câmara aprova acusação por 78 a 0
Próxima etapaCongresso formaliza a saída e a sucessão; autoridades conduzem a resolução bancária

“Trata-se de um caso pontual, que não representa uma condição generalizada do sistema financeiro paraguaio.” — Banco Central do Paraguai, em comunicado de 3 de novembro, em tradução livre.

Um banco presente na vida de quase todo o país

O tamanho do Ueno explica por que um problema bancário se transformou tão rapidamente em crise social. A instituição afirmava ter cerca de 3 milhões de clientes, número equivalente a aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai.

O banco cresceu em poucos anos com contas digitais, cartões, ofertas de cashback, patrocínios e uma rede com mais de 70 pontos de atendimento. Seu nome chegou ao principal estádio do país. A expansão fez do Ueno uma peça importante para pagamentos, salários, aposentadorias e operações cotidianas.

De acordo com a apuração da Associated Press, a instituição mantinha entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos, equivalentes a cerca de um quarto de seus depósitos. Havia dinheiro de fundos previdenciários e de saúde e de empresas ligadas às grandes hidrelétricas do país.

O Banco Central anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis por depositante com recursos do Fundo de Garantia de Depósitos. A autoridade também começou a abrir contas em outros bancos para aproximadamente 280 mil pessoas que só mantinham relacionamento com o Ueno.

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Isso não significa que todas as perdas tenham sido determinadas. O processo precisa identificar quais ativos conservam valor, quais depósitos podem ser transferidos e como será feita a restituição acima das primeiras parcelas. Clientes devem acompanhar apenas os canais do regulador e das instituições receptoras.

Por que Santiago Peña entrou no centro do caso

Peña não foi condenado pela quebra do banco. O que levou a crise ao Palácio de López foi a combinação de vínculos empresariais anteriores, decisões de governo, suspeitas sobre a fiscalização e a dimensão dos recursos públicos colocados na instituição.

O presidente foi acionista de uma empresa ligada à holding do Ueno até 2025. Durante seu governo, Carlos Carvallo, que havia presidido a Financiera Ueno, antecessora do banco, foi nomeado para comandar o próprio Banco Central responsável pela supervisão da entidade. Carvallo deixou o cargo durante a crise, a pedido de Peña.

Relatos de inspeção citados pela imprensa paraguaia apontaram empréstimos relevantes para empresas relacionadas aos controladores, alguns sem garantias suficientes. A investigação deverá definir responsabilidades de administradores, controladores, reguladores e gestores públicos. O vínculo político e empresarial cria questionamentos legítimos, mas não substitui prova individual de crime.

Autoridades detiveram oito executivos do Ueno, entre eles o fundador Miguel Vázquez e o presidente Juan Manuel Gustale. Promotores apresentaram acusações contra 27 funcionários e associados por suspeitas que incluem quebra de confiança e tentativa de fraude. As defesas ainda terão direito de contestar os fatos e as provas.

Santiago Peña em retrato oficial durante seu mandato como presidente do Paraguai
Santiago Peña governou o Paraguai de agosto de 2023 até apresentar a renúncia em 5 de novembro de 2026. Foto: Presidência do Equador via Wikimedia Commons / Domínio público.

Como Peña perdeu o apoio político

O presidente chegou ao cargo em agosto de 2023 pelo Partido Colorado, força que domina a política paraguaia há décadas. Sua base no Congresso parecia sólida, mas se desfez quando aposentados, trabalhadores, estudantes e correntistas ocuparam as ruas e exigiram a devolução dos recursos.

O desgaste aumentou quando Horacio Cartes, ex-presidente e principal dirigente do Partido Colorado, retirou o apoio a Peña. Parlamentares governistas passaram a apoiar a acusação apresentada pela oposição. Sem proteção dentro do próprio partido, a permanência do presidente ficou politicamente inviável.

Peña anunciou a renúncia em um vídeo publicado no X enquanto os deputados discutiam o julgamento político. Disse agir em nome da estabilidade do país, da paz social e da preservação das instituições democráticas. Pediu desculpas caso tivesse falhado, mas não assumiu responsabilidade direta pelas irregularidades do banco.

“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.” — Santiago Peña, em mensagem publicada no X, em tradução livre.

A votação de 78 a zero na Câmara ocorreu mesmo após o anúncio. Se o processo de destituição prosseguisse, o Senado precisaria de maioria de dois terços para removê-lo. A aceitação formal da renúncia tende a encerrar a disputa sobre o cargo, mas não impede investigações administrativas e criminais relacionadas ao Ueno.

Santiago Peña cumprimenta Marco Rubio durante reunião oficial em Washington em janeiro de 2025
Santiago Peña em reunião com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, em Washington, em janeiro de 2025. Foto: Freddie Everett / Departamento de Estado dos EUA via Wikimedia Commons / Domínio público.

Quem assume o Paraguai agora

O artigo 234 da Constituição estabelece que o vice-presidente substitui o presidente em caso de impedimento ou ausência. Por isso, Pedro Alliana é o sucessor natural e não depende de uma nova eleição para ocupar a Presidência.

Alliana é empresário e político do Partido Colorado. Foi presidente da Câmara dos Deputados, comandou a legenda e foi eleito vice na chapa de Peña em 2023. A mudança mantém o mesmo partido no governo e não produz, por si só, alteração da maioria parlamentar ou da orientação econômica.

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Como a vaga de vice-presidente surge depois dos três primeiros anos do mandato, cabe ao Congresso escolher quem ocupará a Vice-Presidência até 2028. Se a vacância tivesse ocorrido nos três primeiros anos, a Constituição exigiria eleição popular para o cargo.

O novo governo terá três tarefas imediatas: garantir uma transição constitucional, evitar contágio para outros bancos e dar previsibilidade aos depositantes. Também precisará decidir se preserva ou substitui dirigentes e políticas ligados à administração Peña.

Pedro Alliana, vice-presidente chamado a assumir o comando do Paraguai após a renúncia de Santiago Peña
Pedro Alliana, vice-presidente eleito em 2023, é o sucessor constitucional de Santiago Peña. Foto: Freddie Everett / Departamento de Estado dos EUA via Wikimedia Commons / Domínio público.

Como funciona a economia do Paraguai

O escândalo ocorre em um país que vinha sendo elogiado pela estabilidade macroeconômica. O Paraguai cresceu 6,6% em 2025. Em setembro, o Banco Central elevou sua projeção para 2026 de 4,5% para 5%, enquanto o Fundo Monetário Internacional estimava avanço de 4,4%.

A inflação acumulada em 12 meses estava em 1,7% em setembro. A projeção do Banco Central para dezembro era de 3%, abaixo da meta de 3,5%. A taxa básica de juros estava em 5,5%, muito inferior à Selic brasileira de 13,75%.

Indicador econômicoDado mais recente usado na apuração
Crescimento do PIB em 20256,6%
Projeção do BCP para o PIB de 20265,0%
Projeção do FMI para o PIB de 20264,4%
Inflação em 12 meses até setembro1,7%
Projeção de inflação para dezembro3,0%
Taxa de política monetária5,5%
PIB por habitante em 2025US$ 7.679

Agricultura e pecuária continuam centrais. Soja, milho e carne bovina geram exportações e movimentam transporte, armazenagem e comércio. O país também produz grande excedente de energia hidrelétrica por meio de Itaipu, compartilhada com o Brasil, e Yacyretá, compartilhada com a Argentina.

Serviços, construção e indústria ganharam peso. O regime de maquila permite produzir no Paraguai para exportação mediante tributo único de 1% sobre o valor agregado nacional ou a fatura de exportação, prevalecendo o maior valor. A proximidade do mercado brasileiro e o acesso ao Mercosul tornaram o modelo atraente para autopeças, têxteis, plásticos e serviços.

Impostos baixos ajudam, mas não contam toda a história

O sistema tributário é uma das principais peças da propaganda econômica paraguaia. O Imposto de Renda Empresarial tem alíquota geral de 10% sobre a renda líquida. O IVA usa taxas de 5% e 10%. Para pessoas físicas, rendas de serviços são tributadas progressivamente em 8%, 9% ou 10%, enquanto determinadas rendas e ganhos de capital têm alíquota de 8%.

Esses números são menores que muitas alíquotas brasileiras, mas não significam que qualquer brasileiro possa simplesmente abrir residência e deixar de pagar impostos no Brasil. Residência migratória, domicílio fiscal, origem da renda, estrutura da empresa e comunicação de saída definitiva são temas diferentes.

Quem mantém negócios, imóveis, rendimentos ou presença habitual no Brasil pode continuar com obrigações brasileiras. Planejamentos que existem apenas no papel podem ser questionados. A decisão exige avaliação jurídica e tributária individual nos dois países.

O baixo peso dos impostos também limita a capacidade do Estado de financiar saúde, educação, fiscalização e infraestrutura. O Banco Mundial reconhece o avanço da renda e a queda da pobreza, mas aponta gargalos institucionais, desigualdade, vulnerabilidade climática e necessidade de melhorar a governança.

Quantos brasileiros estão indo para o Paraguai

Os dados confirmam uma aceleração. Em 2025, a Direção Nacional de Migrações recebeu 47.687 pedidos de residência de estrangeiros, aumento superior a 63% sobre 2024. Foram concedidas 40.600 residências; brasileiros lideraram com 23.526 autorizações, ou 58% do total.

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No primeiro semestre de 2026, o Paraguai recebeu 33.243 pedidos, 62% mais que no mesmo período de 2025, e concedeu 29.765 residências. Cidadãos do Brasil obtiveram 22.628 autorizações em apenas seis meses, quase o total concedido durante todo o ano anterior.

Residências no Paraguai20251º semestre de 2026
Pedidos de todas as nacionalidades47.68733.243
Residências concedidas a estrangeiros40.60029.765
Residências concedidas a brasileiros23.52622.628

O Itamaraty estimava 263.200 brasileiros vivendo no Paraguai em 2023, a terceira maior comunidade brasileira no exterior. A comparação exige cuidado: o número do Itamaraty é uma estimativa de moradores, enquanto os dados paraguaios medem documentos concedidos. Uma pessoa pode obter residência e não se mudar definitivamente, passar parte do ano no país ou retornar ao Brasil.

Por que brasileiros escolhem o país vizinho

Não existe uma causa única. A fronteira terrestre facilita visitas e mudanças graduais. O acordo de residência do Mercosul simplifica a regularização. Energia, imóveis e alguns serviços podem custar menos, embora preços variem muito entre Assunção, Ciudad del Este, Encarnación e cidades do interior.

Empresários observam impostos e o regime de maquila. Produtores rurais mantêm uma presença histórica no leste do Paraguai. Estudantes procuram cursos, especialmente Medicina, e profissionais remotos buscam custo de vida e regras tributárias diferentes. Há também aposentados e famílias atraídas por segurança percebida ou afinidade política.

Depois das eleições brasileiras, redes sociais passaram a apresentar o Paraguai como destino ideológico. Essa motivação aparece em entrevistas e grupos de mudança, mas não explica todos os 22.628 brasileiros documentados no semestre. A corrente inclui negócios, estudo, família, agricultura e residência de conveniência, além de migração efetiva.

O que a crise muda para brasileiros

A renúncia não cancela residências nem altera automaticamente o acordo do Mercosul. Também não transforma o conjunto do sistema bancário em insolvente. O próprio Banco Central afirma que o caso é específico do Ueno, e os fundamentos macroeconômicos continuam fortes.

O episódio, porém, elimina a ideia de que crescimento, impostos baixos e grau de investimento bastam para garantir segurança institucional. Um país pode ter inflação controlada e dívida sustentável e, ao mesmo tempo, apresentar falhas graves de governança e supervisão.

Brasileiros com recursos no Ueno devem acompanhar o Banco Central paraguaio, guardar comprovantes e evitar intermediários que prometam liberação antecipada. Quem pensa em mudar precisa diversificar bancos, entender a garantia de depósitos, verificar a situação fiscal nos dois países e avaliar saúde, educação e infraestrutura antes de tomar uma decisão.

Para investidores, os próximos sinais serão a velocidade de devolução dos depósitos, a eventual pressão sobre outros bancos, a estabilidade do guarani e a resposta das agências de classificação de risco. Também importa saber se o novo governo dará autonomia à investigação ou tentará limitar o alcance sobre agentes públicos e privados.

O contraste que define a crise

O Paraguai permanece uma das economias de crescimento mais rápido da região. Produz alimentos e energia, mantém inflação baixa, possui reservas consideradas adequadas pelo FMI e atrai empresas e migrantes. Esses fatos não desapareceram com a queda de Peña.

Mas o colapso de um banco presente na vida de milhões de pessoas revelou que estabilidade macroeconômica não substitui controles internos, transparência e separação entre governo, reguladores e grupos empresariais. A resposta ao caso Ueno mostrará se o país consegue preservar seus avanços econômicos e, ao mesmo tempo, corrigir a fragilidade institucional exposta pela crise.

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Escrito por Fundador e Editor-chefe

Muniz é o fundador e editor-chefe do portal Analistas. Empreendedor digital e especialista em tecnologia voltada para o mercado financeiro, é o desenvolvedor por trás de plataformas de dados como o Ações Capital. Lidera a visão editorial e a infraestrutura tecnológica do Analistas, unindo entrega de cotações em tempo real e rigor analítico para democratizar a informação no mercado brasileiro.

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Esta matéria foi revisada por Muniz (Fundador e Editor-chefe).

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