A cidade do interior de São Paulo lidera com folga o ranking dos municípios brasileiros mais ameaçados pelas novas tarifas americanas: são US$ 1,19 bilhão em exportações na mira, quase cinco vezes mais que a capital paulista. E há uma ironia no centro dessa história: uma empresa americana.
Quando se fala em cidades brasileiras ameaçadas pelo tarifaço de Donald Trump, a primeira que vem à cabeça talvez não seja Piracicaba. Mas é justamente esse município do interior de São Paulo, com cerca de 450 mil habitantes, que lidera com enorme distância o ranking dos mais expostos às novas sobretaxas dos Estados Unidos.
Segundo um levantamento feito pelo jornal Estadão, com dados do Ministério do Desenvolvimento e da Câmara Americana de Comércio, Piracicaba tem US$ 1,19 bilhão em exportações dentro dos grupos de produtos atingidos pelas tarifas. Para se ter uma ideia do tamanho, a cidade de São Paulo, o principal centro econômico do país, ficou em segundo lugar, com US$ 239,4 milhões, quase cinco vezes menos.
A ironia: uma empresa americana no centro
Aqui está o ponto mais curioso da história. A grande responsável pela exposição de Piracicaba é uma companhia dos próprios Estados Unidos: a Caterpillar, líder mundial de máquinas para construção e mineração, que mantém na cidade um de seus maiores complexos industriais fora do país.
As máquinas pesadas responderam por 43,5% de tudo o que Piracicaba exportou no primeiro semestre, e os Estados Unidos absorveram mais da metade das vendas da cidade ao exterior. Nos 12 meses até junho, mais de 80% do que o município vendeu ao mercado americano veio justamente do núcleo de produtos da fábrica da Caterpillar. Ou seja, a política de Trump, pensada para proteger a indústria americana, acaba encarecendo a operação de uma gigante americana no Brasil.
Como a cana virou uma indústria de máquinas
A liderança de Piracicaba não é acaso: é fruto de mais de um século de história industrial. Conhecida pela cana-de-açúcar, a cidade precisou aprender a fabricar as máquinas pesadas usadas nas usinas, como moendas, caldeiras e sistemas de vapor, que antes eram importadas.
Desse ambiente nasceu, em 1920, a Dedini, que se tornaria uma das principais fabricantes de equipamentos para açúcar e etanol do país (seu comando, décadas depois, passou pela família de Rubens Ometto, fundador da Cosan). Formou-se ali um polo metal-mecânico com mão de obra qualificada. Foi essa estrutura que a Caterpillar encontrou quando chegou à cidade, em 1976, integrando Piracicaba à sua rede global de produção.
O que está de fato em jogo
É importante colocar os números em perspectiva para não gerar pânico. Os US$ 1,19 bilhão medem o comércio exposto às tarifas, e não uma perda já certa. O impacto real vai depender de possíveis exceções, dos contratos já firmados e de como os compradores americanos vão reagir, algo que só ficará claro nos próximos meses.
Ainda assim, o risco é concreto para a economia local. O sindicato das indústrias metalmecânicas da região estima que cerca de 50 empresas e 10 mil empregos diretos estejam expostos às sobretaxas, que chegam a 37,5% sobre alguns produtos. O mesmo fenômeno se repete em Campo Largo, no Paraná, sede de outra fábrica da Caterpillar, também entre as mais afetadas do país.
O risco de longo prazo
A ameaça mais séria talvez não seja imediata, e sim silenciosa. A preocupação dos especialistas é que, com as tarifas encarecendo a exportação, a fábrica brasileira continue produzindo os modelos atuais enquanto as novas gerações de máquinas sejam destinadas a unidades nos Estados Unidos ou no México, país favorecido pela proximidade e por acordo comercial.
Se isso acontecer, a perda de importância viria aos poucos: uma linha de produção que não chega, um componente transferido, um projeto de engenharia entregue a outra unidade. Como resumiu ao InvestNews o professor Carlos Eduardo Vian, da Esalq-USP, para as empresas o cenário é complicado porque a tarifa entra, sai, volta, negocia, o que atrapalha o planejamento de uma produção global. Mudar uma fábrica inteira de lugar, porém, custa caro e leva tempo, o que dá algum fôlego a Piracicaba no curto prazo.
O que fica no radar
O desfecho vai depender das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e da estratégia das multinacionais. A Caterpillar, vale dizer, vive um bom momento, com vendas recordes acima de US$ 20 bilhões em um único trimestre. A questão, para Piracicaba, é onde essa companhia vai decidir crescer daqui para frente.
No fim das contas, a história da cidade paulista é um retrato de como o tarifaço, embora anunciado como uma disputa entre países, atinge de forma muito concreta o chão de fábrica, os empregos e o futuro industrial de lugares específicos, muitas vezes distantes dos holofotes.
Com informações do InvestNews e do Estadão. Levantamento com dados do Ministério do Desenvolvimento e da Câmara Americana de Comércio (Amcham).