A demanda de energia da Microsoft para data centers de inteligência artificial está por trás de um dos projetos mais simbólicos do setor elétrico americano: a retomada da antiga Three Mile Island Unit 1, hoje chamada Christopher M. Crane Clean Energy Center. O acordo comercial tem prazo de 20 anos, mas a usina ainda precisa cumprir etapas regulatórias antes de voltar a operar.
Em agosto de 2026, a Constellation Energy informou que avançou em duas frentes. A agência federal de energia autorizou uma transferência de direitos de conexão, e a Comissão Reguladora Nuclear dos Estados Unidos, a NRC, aprovou uma alteração relacionada à licença de combustível. A empresa passou a apontar 2027 como objetivo para a retomada, sujeito às autorizações e inspeções restantes.
O que a Microsoft contratou
A Constellation anunciou em setembro de 2024 um contrato de compra de energia por 20 anos com a Microsoft. O acordo dá sustentação econômica ao investimento estimado inicialmente em US$ 1,6 bilhão para restaurar a unidade e recolocar aproximadamente 835 megawatts de capacidade sem emissão direta de carbono na rede.
A eletricidade será entregue ao sistema, e não por um cabo exclusivo entre a usina e um único data center. O contrato permite que a Microsoft associe seu consumo a uma fonte firme de geração. Isso é valioso para centros de dados, que operam continuamente e não podem depender apenas da disponibilidade instantânea de sol ou vento.
Three Mile Island Unit 1 não é o reator do acidente
| Unidade | Histórico | Situação no projeto |
|---|---|---|
| Unit 1 | Operou de 1974 a 2019 e foi fechada por razões econômicas | É a unidade que a Constellation pretende reativar |
| Unit 2 | Sofreu o acidente nuclear de 1979 e não voltou a operar | Não faz parte do plano de retomada |
A distinção é central. O nome Three Mile Island ficou associado ao acidente de 1979, mas o projeto comercial com a Microsoft envolve a Unit 1, que continuou operando por décadas e foi desligada em 2019 por condições econômicas. A Unit 2 permanece fora de operação e não integra a proposta.
A usina já tem autorização para voltar?
Ainda não de forma definitiva. A NRC mantém um painel específico de retomada e afirma que a Constellation precisa restaurar a base de licenciamento para condição operacional, recuperar componentes, realizar melhorias necessárias e demonstrar que sistemas e programas atendem aos requisitos de segurança e proteção.
A página regulatória, atualizada em setembro de 2026, lista inspeções realizadas ao longo do ano, incluindo avaliações de simulador, segurança e atividades de retomada. A aprovação relacionada ao combustível é um marco, mas não substitui a decisão final sobre a volta da geração comercial.
Por que a IA está puxando energia nuclear
Treinar e operar modelos avançados exige processadores de alto desempenho, refrigeração e redes funcionando sem interrupção. A expansão dessa infraestrutura transformou energia em uma restrição estratégica para empresas de tecnologia. O Analistas já mostrou como a economia da IA movimenta trilhões de dólares e como esse ciclo pressiona investimentos em servidores e geração.
A energia nuclear oferece produção contínua e baixa emissão operacional, características atraentes para metas climáticas corporativas. Em contrapartida, reatores demandam capital elevado, fiscalização rigorosa, gestão de resíduos e longos ciclos de licenciamento. Reativar uma planta existente pode ser mais rápido do que construir outra do zero, mas não elimina essas exigências.
O que mudou desde o anúncio
Quando o acordo foi anunciado em 2024, a expectativa pública era uma retomada em 2028. Com avanços técnicos e regulatórios, a Constellation passou a mirar 2027. Essa é a meta da empresa, não uma garantia da NRC. O cronograma pode mudar conforme inspeções, obras e análises de segurança.
A empresa também obteve aval para transferir direitos de interconexão de outras instalações da Pensilvânia para o Crane Clean Energy Center. Na prática, isso remove um obstáculo para que a energia gerada seja entregue à rede caso a retomada seja autorizada.
O que o caso revela sobre a corrida da IA
A parceria mostra que a competição por IA não se limita a algoritmos e chips. Ela alcança território, redes elétricas, geração firme e contratos de décadas. A Microsoft aceita assumir um compromisso longo porque precisa de previsibilidade para ampliar capacidade computacional sem abandonar suas metas de redução de carbono.
O desempenho financeiro da companhia também ajuda a explicar a escala dessa aposta. Em análise anterior, o Analistas mostrou como o crescimento da Microsoft se diferencia de outras big techs na monetização da IA. A energia necessária para sustentar essa expansão tornou-se parte do próprio investimento tecnológico.
O que acompanhar agora
Os próximos marcos são as decisões restantes da NRC, o andamento das inspeções, a restauração dos equipamentos e a confirmação do cronograma de 2027. Até que essas etapas sejam concluídas, é mais correto falar em projeto de retomada do que afirmar que Three Mile Island já voltou a operar.
A apuração usou documentos atualizados da NRC e comunicados da Constellation. O texto distingue a meta empresarial das autorizações oficiais e separa a Unit 1 do reator envolvido no acidente de 1979.