O banco superou as expectativas no trimestre com a ajuda de um novo motor de crescimento: o crédito para pessoas físicas. Mas foi justamente esse motor que acendeu um sinal de alerta, e a ação caiu mesmo com o bom resultado.
O BTG Pactual (BPAC11) mostrou mais uma vez por que é um dos queridinhos dos investidores. No segundo trimestre, o banco lucrou R$ 5,1 bilhões, uma alta de mais de 20% em relação a um ano antes, superando em 5% as estimativas do mercado. Não foi a explosão de quase 40% vista no início do ano, mas foi o suficiente para confirmar a solidez do banco.
Curiosamente, apesar do resultado forte, a ação caía cerca de 2,4% na manhã desta terça-feira (11), cotada perto de R$ 52. O motivo dessa reação aparentemente contraditória está no detalhe do balanço, que traz uma boa e uma má notícia ao mesmo tempo.
O novo motor: crédito para pessoas físicas
A grande estrela do trimestre foi uma área que não é tradicionalmente associada ao BTG: o crédito para o consumidor. Esse negócio, herdado da compra do Banco Pan, se tornou um importante motor de crescimento. A carteira de crédito ao consumidor atingiu R$ 78,2 bilhões, um salto de mais de 35% em um ano, puxada principalmente pelo crédito consignado.
A lógica por trás disso é o que os analistas chamam de modelo "cascudo", ou seja, resistente. Quando uma área do banco vai mal, como a gestão de fortunas (Wealth Management) ou o banco de investimento, outra compensa. Segundo o Citi, essa mudança na composição do lucro é o ponto mais importante: com o crédito e as receitas recorrentes ganhando peso, a rentabilidade do BTG fica menos dependente dos altos e baixos do mercado financeiro. Na prática, um banco mais previsível.
O risco no radar
Mas todo motor potente esquenta. E o principal ponto de atenção apontado pelos analistas é justamente o outro lado desse crescimento no crédito. Emprestar mais para pessoas físicas significa, também, assumir mais risco, já que aumenta a exposição do banco a uma carteira que pode dar mais calote.
O alerta é reforçado pelo momento do país. Como avaliou o banco Safra, os investidores podem olhar esse avanço com mais cautela diante da deterioração gradual das tendências de qualidade dos ativos no setor. Ou seja, com os juros ainda altos, cresce o risco de inadimplência em todo o sistema. Por ora, porém, os sinais seguem controlados: o banco reforçou suas provisões (a reserva para cobrir calotes) e melhorou seus indicadores de capital.
O que decepcionou no balanço
Além do risco do crédito, algumas áreas ficaram abaixo do esperado e ajudam a explicar a queda da ação. A gestão de patrimônio, um negócio nobre do banco, teve desempenho mais fraco, o que foi apontado pelo JPMorgan como a principal surpresa negativa. As operações de trading caíram 5%, e o banco de investimento seguiu fraco, embora isso já fosse esperado.
Há ainda uma observação da XP: apesar de a rentabilidade do banco (o ROAE) ter subido para 26,7%, um patamar excelente, esse crescimento está exigindo que o BTG use cada vez mais capital próprio para sustentar as operações, o que é um ponto a acompanhar.
O que dizem os analistas
Mesmo com as ressalvas, o tom geral do mercado permaneceu positivo. As principais casas de análise mantiveram a recomendação de compra para a ação. Para o JPMorgan, o BTG está mais bem preparado do que os bancos tradicionais para enfrentar uma eventual piora no ciclo de crédito, um contraste com o momento de recuperação cautelosa de rivais como o Bradesco.
Em termos de preço, o JPMorgan projeta que a ação é negociada a cerca de 8,8 vezes o lucro estimado para 2027. Esse indicador, o P/L, mostra quantos anos de lucro o investidor "paga" ao comprar a ação: quanto menor, mais barata ela tende a estar. Vale lembrar que este texto é informativo e não constitui recomendação de investimento.
O que fica no radar
Os próximos trimestres dirão se o BTG consegue manter o equilíbrio entre crescer no crédito e controlar os riscos dessa carteira. Esse será o principal termômetro para a ação.
Há, porém, um vento a favor no horizonte. Com o Banco Central iniciando um ciclo de corte de juros, com a Selic já em 14%, o ambiente de crédito tende a melhorar ao longo do tempo, o que pode aliviar justamente o principal risco apontado no balanço. Se o banco navegar bem essa fase, o novo motor de crédito pode se firmar como uma vantagem duradoura sobre a concorrência.
Balanço referente ao segundo trimestre de 2026.