Montadora alcançou a marca nove meses após iniciar a operação na Bahia, mas carrocerias ainda chegam soldadas e pintadas da China enquanto novas áreas da fábrica permanecem em construção.
A BYD alcançou a marca de 100 mil carros montados em Camaçari, na Bahia, apenas nove meses depois de iniciar a operação industrial no antigo complexo da Ford.
O veículo de número 100 mil foi um Dolphin Mini, principal modelo da marca no mercado brasileiro. A celebração, porém, também expôs o desafio que a montadora ainda precisa superar: os carros que saem da linha baiana não são integralmente produzidos no Brasil.
Atualmente, as carrocerias chegam da China já soldadas e pintadas. Em Camaçari, os veículos passam principalmente pela montagem final, etapa em que recebem componentes, acabamentos e outros equipamentos necessários para chegar às concessionárias.
A BYD constrói novas áreas para incluir estamparia, soldagem e pintura no processo brasileiro. O cronograma ganhou importância porque a tributação dos kits importados ficará mais pesada a partir de 2027.
BYD produz ou apenas monta carros em Camaçari?
A resposta depende do significado atribuído à palavra “produzir”.
Existe atividade industrial real em Camaçari, com linha de montagem, trabalhadores, controle de qualidade e integração de componentes. Entretanto, as etapas de maior valor agregado ainda são realizadas fora do país.
A unidade opera atualmente pelo regime SKD, sigla para semi knocked down. Nesse modelo, o veículo chega parcialmente montado, exigindo menos operações industriais no destino do que uma produção completa iniciada a partir das chapas de aço.
Segundo a apuração do InvestNews, todas as unidades que atualmente saem de Camaçari recebem da China a carroceria já soldada e pintada. A operação brasileira concentra-se na montagem final.
A própria BYD informa que a primeira fase da fábrica começou com kits importados e que pretende nacionalizar gradualmente a produção. O complexo recebeu investimento anunciado de R$ 5,5 bilhões e ocupa uma área de aproximadamente 4,6 milhões de metros quadrados.
Qual é a diferença entre SKD, CKD e produção completa?
| Modelo industrial | Como o veículo chega | Atividades realizadas no Brasil |
|---|---|---|
| SKD | Parcialmente montado, podendo chegar com carroceria pronta | Principalmente montagem final e instalação de componentes |
| CKD | Mais desmontado que no sistema SKD | Exige mais mão de obra e pode incorporar soldagem, pintura e outras operações locais |
| Produção completa | Chapas, peças e componentes entram em diferentes etapas da fábrica | Estamparia, soldagem, pintura, montagem final e maior participação de fornecedores locais |
As siglas, isoladamente, não mostram exatamente quanto de um automóvel foi produzido no país. Dois veículos classificados como CKD, por exemplo, podem ter níveis diferentes de conteúdo nacional.
O melhor indicador é a participação do valor gerado localmente, incluindo peças brasileiras, mão de obra, engenharia e operações industriais realizadas no país.
O que ainda falta na fábrica da BYD?
Três etapas são consideradas essenciais para aprofundar a produção brasileira:
Estamparia
Grandes prensas transformam chapas de aço em partes como teto, capô, portas e painéis laterais. É uma das áreas mais caras de uma fábrica automotiva.
Soldagem
Robôs e trabalhadores unem as peças estampadas para formar a estrutura do veículo, conhecida como carroceria ou monobloco.
Pintura
A carroceria recebe tratamento anticorrosivo, preparação e camadas de tinta. Essa área exige investimentos elevados e um processo ambientalmente mais complexo.
Depois dessas etapas ocorre a montagem final, que já funciona em Camaçari.
A BYD havia indicado que começaria a incorporar mais operações nacionais até o fim de julho de 2026. Contudo, estamparia, soldagem e pintura ainda estavam em implantação em meados do mês. Os testes foram direcionados para agosto, e a produção em série com as novas etapas ficou prevista para o fim do ano.
Por que 2027 será um teste para a BYD?
A nacionalização não é apenas uma questão de imagem ou definição industrial. Ela pode afetar diretamente os custos da empresa.
O governo manteve o cronograma que eleva para 35% o Imposto de Importação sobre veículos eletrificados semidesmontados, classificados como SKD, desde julho de 2026. Para os kits CKD, a alíquota de 35% passa a valer em 1º de janeiro de 2027.
Ao mesmo tempo, a Camex aprovou uma cota adicional que permite importar kits CKD e SKD com alíquota zero entre julho e dezembro de 2026. O limite total da cota é de US$ 463 milhões e pode ser utilizado pelas montadoras habilitadas, não apenas pela BYD.
| Regime de importação | Imposto fora da cota | Regra principal |
|---|---|---|
| Veículo montado | Conforme o cronograma vigente | Não recebeu a nova cota temporária de isenção |
| Kit SKD | 35% desde julho de 2026 | Pode utilizar parte da cota temporária até dezembro de 2026 |
| Kit CKD | 14% até dezembro de 2026 e 35% a partir de janeiro de 2027 | Também pode utilizar a cota temporária |
A janela tributária oferece tempo adicional para a BYD concluir as obras. Caso a nacionalização atrase novamente, a empresa poderá enfrentar custos maiores para continuar abastecendo a fábrica com conjuntos importados.
BYD chegou a 100 mil carros em nove meses
A primeira etapa do complexo foi inaugurada em outubro de 2025. Nove meses depois, a linha atingiu 100 mil unidades montadas.
Atualmente, três modelos passam pela fábrica:
- BYD Dolphin Mini;
- BYD King;
- BYD Song Pro.
A capacidade instalada é de aproximadamente 150 mil veículos por ano, com espaço para chegar inicialmente a 300 mil unidades em uma segunda etapa. A empresa também pretende transformar a Bahia em base de exportação para outros mercados latino-americanos.
A operação já reúne cerca de 5.500 trabalhadores. Segundo os números divulgados pela montadora, 93% dos funcionários são baianos.
O carro pode ser chamado de nacional?
No uso cotidiano, é comum chamar de nacional qualquer veículo montado em uma fábrica brasileira. Do ponto de vista industrial, porém, a discussão é mais complexa.
Um automóvel pode sair de uma linha no Brasil e ainda possuir grande parte de seu valor originado no exterior.
No acordo automotivo entre Brasil e Argentina, por exemplo, o veículo precisa atingir um percentual de conteúdo regional para receber tratamento de produto originário do Mercosul. O cálculo considera o valor dos componentes, e não simplesmente a quantidade de peças instaladas.
A BYD diz que pretende chegar a aproximadamente 50% de conteúdo local até o fim de 2026. A companhia, entretanto, ainda não divulgou detalhadamente o índice atual nem se sua metodologia é idêntica à utilizada nas regras comerciais do Mercosul.
Por isso, a descrição mais precisa para o momento atual é:
Os veículos são montados no Brasil com kits e carrocerias parcialmente preparados na China.
À medida que estamparia, soldagem e pintura entrarem em funcionamento, a parcela efetivamente produzida no país aumentará.
BYD já é a quarta maior marca do Brasil
A pressão para nacionalizar a produção ocorre ao mesmo tempo em que a BYD avança rapidamente nas vendas.
No primeiro semestre de 2026, a companhia alcançou a quarta posição entre as marcas com mais automóveis emplacados no país. Foram 99.028 unidades, contra 96.723 da Hyundai.
| Posição | Fabricante | Emplacamentos no primeiro semestre de 2026 |
|---|---|---|
| 1º | Fiat | 270.941 |
| 2º | Volkswagen | 224.923 |
| 3º | General Motors | 140.706 |
| 4º | BYD | 99.028 |
| 5º | Hyundai | 96.723 |
Os números foram apresentados com base nos dados da Fenabrave. A própria BYD também afirma ter encerrado o semestre em quarto lugar, após crescimento de 107% em relação ao mesmo período anterior.
O Dolphin Mini tornou-se a principal força comercial da empresa. Além dos elétricos, a BYD avança com modelos híbridos, SUVs e sedãs em faixas de preço disputadas pelas montadoras tradicionais.
Nacionalização pode deixar os carros mais baratos?
Não necessariamente.
Produzir mais etapas no Brasil pode reduzir custos logísticos, diminuir a exposição ao dólar e evitar parte dos impostos incidentes sobre kits importados. A operação local também pode tornar o abastecimento das concessionárias mais rápido.
Por outro lado, estamparia, pintura e soldagem exigem investimentos elevados. A economia obtida pela montadora não é automaticamente transferida ao preço final.
Os valores dos carros também dependem de concorrência, câmbio, impostos estaduais, custos das baterias, estratégia comercial e demanda.
A nacionalização pode ajudar a BYD a preservar sua competitividade, mas não garante uma redução imediata nas tabelas.
Disputa vai além da BYD
A ampliação da cota de importação provocou reação da Anfavea, que representa fabricantes tradicionais instalados no país.
A entidade argumenta que o modelo baseado em kits importados gera menos valor local do que fábricas que realizam estamparia, soldagem, pintura e montagem completa.
A BYD, por outro lado, afirma que o SKD é apenas a etapa inicial de um projeto industrial mais amplo e que está investindo para ampliar progressivamente a produção nacional.
O debate central não é se componentes estrangeiros podem ser usados. Todas as grandes montadoras participam de cadeias globais e importam peças.
A questão é quanto do valor do automóvel será gerado no Brasil e em quanto tempo a BYD conseguirá cumprir o cronograma anunciado.
O que observar nos próximos meses
O avanço da fábrica poderá ser medido por cinco fatores:
- início dos testes nas áreas de soldagem e pintura;
- entrada da estamparia em operação;
- percentual de componentes nacionais;
- participação de fornecedores brasileiros;
- capacidade de manter preços competitivos após a mudança tributária.
A marca de 100 mil unidades comprova que Camaçari já tem escala de montagem. O próximo desafio é provar que a fábrica também consegue internalizar as etapas mais complexas da produção automotiva antes que a proteção tributária termine.
Perguntas frequentes sobre a fábrica da BYD
Quantos carros a BYD já montou em Camaçari?
A fábrica alcançou 100 mil veículos montados em julho de 2026, nove meses após o início da operação industrial.
Quais carros são montados na Bahia?
A linha de Camaçari trabalha atualmente com Dolphin Mini, King e Song Pro.
Os carros da BYD são totalmente produzidos no Brasil?
Ainda não. As carrocerias chegam da China soldadas e pintadas, enquanto a unidade brasileira realiza principalmente a montagem final.
O que é um kit SKD?
É um conjunto semidesmontado. O veículo chega com parte relevante das operações já concluída e passa pelas etapas finais no país de destino.
Quando a BYD terá produção mais nacionalizada?
A empresa pretende iniciar as novas operações industriais ao longo do segundo semestre de 2026, com produção em série prevista para o fim do ano. O cronograma ainda pode sofrer alterações.
Quanto a BYD investiu em Camaçari?
O investimento anunciado para o complexo é de R$ 5,5 bilhões.
A fábrica pode exportar carros?
A BYD pretende utilizar Camaçari como base de exportação para a América Latina, incluindo mercados como Argentina e México.