O estoque da dívida federal cresceu 2,61% em junho, quase R$ 8 bilhões por dia. O número assusta, mas boa parte da alta tem um motivo específico: o juro alto. Entenda o que está por trás da conta.
A Dívida Pública Federal do Brasil chegou a R$ 9,268 trilhões em junho, uma alta de 2,61% em um único mês, segundo o Relatório Mensal da Dívida (RMD) divulgado nesta quarta-feira (29) pela Secretaria do Tesouro Nacional. Em números do dia a dia, o estoque cresceu cerca de R$ 7,9 bilhões por dia corrido, um avanço de R$ 235,7 bilhões ao longo do mês.
Para dar dimensão ao tamanho: esse valor equivale a aproximadamente 73% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do país, que somou R$ 12,7 trilhões em 2025. Ou seja, a dívida se aproxima, mas ainda não alcança, o tamanho de tudo o que a economia brasileira produz em um ano.
Por que a dívida cresce tão rápido?
Aqui está o ponto que costuma passar batido nas manchetes. Grande parte desse crescimento não vem de gasto novo, e sim do próprio custo da dívida: os juros.
Com a taxa Selic em 14,25% ao ano, o governo paga caro para se financiar. Só em junho, mais de R$ 85 bilhões em juros foram incorporados ao estoque da dívida. O custo médio do endividamento subiu de 12,31% para 12,68% ao ano. E como cerca de metade da dívida (49,3%) está atrelada à Selic, cada mês de juro alto engorda automaticamente a conta.
O próprio Tesouro atribuiu a alta ao movimento da curva de juros, que reflete, nas palavras do órgão, as mudanças de expectativas no ciclo de política monetária em um cenário externo incerto. A postura mais dura do Federal Reserve, o banco central americano, foi citada como um dos fatores de pressão, algo que se conecta diretamente à decisão do Fed de manter os juros altos nos EUA.
Isso é preocupante?
Depende de para onde se olha, e vale apresentar os dois lados.
De um lado, o alerta é real. Uma dívida que cresce rápido consome uma fatia cada vez maior do orçamento com pagamento de juros, o que sobra menos para saúde, educação e infraestrutura, e dificulta a queda dos juros da economia. O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem defendido que países muito endividados coloquem a dívida em uma trajetória de queda firme para preservar a confiança dos investidores e a estabilidade econômica.
De outro lado, é preciso contexto para não cair no alarmismo. Boa parte do avanço é fruto do juro, um fenômeno de política monetária, e não de uma explosão de gastos novos. Além disso, economistas costumam acompanhar a relação entre dívida e PIB e a chamada dívida bruta do governo geral, e não apenas o número absoluto, que naturalmente cresce todo ano. Nos bastidores, integrantes do governo discutem apertar as regras fiscais em um eventual próximo mandato, como reduzir o teto de crescimento das despesas de 2,5% para 1,5% ao ano.
O que isso tem a ver com o seu bolso?
Mais do que parece. Dívida alta somada a juro alto é a receita que mantém a Selic elevada, e é a Selic que dita o custo do crédito, do financiamento e do cartão para as famílias. Enquanto o governo precisar pagar caro para rolar sua dívida, fica mais difícil ver os juros caírem de forma consistente.
A boa notícia é que existe um caminho de alívio: se a inflação continuar cedendo, como sugeriu o IPCA-15 mais fraco e o Focus em queda, o Banco Central ganha espaço para cortar a Selic. Juros menores significam dívida mais barata e mais fôlego, tanto para o governo quanto para o seu orçamento.
O que fica no radar
O próximo capítulo importante vem já na semana que vem: nos dias 4 e 5 de agosto, o Banco Central decide a Selic. Um corte, ou a sinalização de que ele virá, ajudaria a aliviar o custo da dívida ao longo do tempo.
Também entram no radar a discussão sobre o novo desenho das regras fiscais e o comportamento dos investidores estrangeiros, que em junho aumentaram em cerca de R$ 6,9 bilhões suas posições em títulos brasileiros, atraídos justamente pelos juros altos. No fim das contas, a trajetória da dívida vai depender menos de um número isolado e mais da combinação entre juros, inflação e disciplina de gastos nos próximos meses.