A projeção de inflação para 2026 recuou de novo, para 5,12%, na véspera da reunião do Copom. É a confirmação do que vínhamos observando: mesmo com o petróleo disparando e a guerra no Oriente Médio, o mercado não mexeu na aposta de que a inflação vai cedendo. Mas ela segue acima do teto da meta.
O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Banco Central mostrou a quarta redução consecutiva na projeção de inflação para 2026. A mediana do mercado para o IPCA recuou de 5,15% para 5,12%, mantendo a trajetória de queda que já dura quase um mês.
O dado ganha peso pelo momento em que aparece: às vésperas da reunião do Copom, que define a taxa de juros nesta semana, e depois de duas semanas em que o petróleo disparou e chegou a flertar com os US$ 100 por barril.
O petróleo subiu, a inflação projetada não
Aqui está a confirmação de uma tese que o Analistas vem acompanhando há semanas. A lógica de manual diz que, quando o petróleo sobe puxado por uma guerra, a inflação projetada deveria subir junto. Não foi o que aconteceu.
Na semana passada, quando o Focus já mostrava a inflação resistindo à alta do barril, a dúvida era se o efeito completo da escalada apareceria nas semanas seguintes. A resposta veio agora: mesmo com o Brent tendo batido US$ 91 e a tensão no Mar Vermelho e em Ormuz seguindo alta, a projeção de inflação caiu de novo.
Três fatores sustentam essa resistência: o câmbio, com o dólar projetado estável em R$ 5,20; a ancoragem das expectativas de longo prazo; e os subsídios domésticos, como o do diesel, que seguram o repasse do petróleo ao consumidor. O mercado apostou que esses amortecedores vão prevalecer sobre o choque do barril.
O quadro completo desta segunda
| Indicador | Projeção 2026 | Movimento |
|---|---|---|
| IPCA | 5,12% | 4ª queda seguida |
| Selic (fim de 2026) | 14,00% | estável há 5 semanas |
| Dólar | R$ 5,20 | estável há 6 semanas |
| PIB | 1,99% | estável há 4 semanas |
A estabilidade em quase todas as linhas, com a inflação cedendo devagar, desenha o cenário que o mercado vem consolidando: uma desinflação lenta, com juros altos mantidos por precaução.
A semana que decide os juros
O Focus de hoje é o aperitivo do prato principal. O Copom se reúne nesta semana, com a decisão sobre a Selic, hoje em 14,25% ao ano, saindo na quarta-feira à noite.
A leitura predominante do mercado é de que o espaço para corte é pequeno. Com a inflação ainda acima do teto da meta (que é de 4,5%, considerando o centro de 3% mais a tolerância de 1,5 ponto), o Banco Central tende a agir com cautela. O próprio Focus projeta a Selic em 14% ao fim do ano, o que significa que o mercado enxerga espaço para, no máximo, mais um corte de 0,25 ponto até dezembro.
Em outras palavras: a inflação melhora, mas não o suficiente para o BC acelerar o alívio nos juros. Quem esperava crédito mais barato no curto prazo vai ter que esperar mais.
O que isso significa para o seu dinheiro
O recado do Focus é direto para o bolso:
- Renda fixa segue atrativa. Com a Selic em 14% e a inflação acima da meta, títulos pós-fixados e indexados ao IPCA continuam pagando bem, e é por isso que seguem no radar dos investidores
- Crédito continua caro. Financiamento, cartão e empréstimo não devem aliviar tão cedo, já que o BC não tem pressa em cortar juros
- O dólar estável em R$ 5,20 é uma boa notícia para quem teme repasse de importados e para quem planeja viagens ao exterior
O que fica no radar
O grande evento é a decisão do Copom na quarta-feira. Além do número da Selic, o mercado vai ler com lupa o comunicado, em busca de sinais sobre o ritmo dos próximos cortes. Fora isso, seguem no centro das atenções a evolução do conflito no Oriente Médio, que define o preço do petróleo, e o comportamento dos preços de alimentos, que vinham ajudando a puxar as expectativas de inflação para baixo.