analistas .com.br
Economia

Galípolo faz alerta: 52,8 milhões têm dívida no cartão e BC prepara medidas

Galípolo alerta para endividamento das famílias: 52,8 milhões carregam dívidas no cartão. BC estuda medidas para conter riscos do crédito caro.

Foto de Muniz
Por Fundador e Editor-chefe · Publicado em
Compartilhar
alipolo-alerta-divida-cartao-bc-prepara-medidas-endividamento

Presidente do Banco Central diz que avanço do crédito também eleva o endividamento e demonstra preocupação com dívidas caras usadas para consumo; autoridade monetária estuda novas medidas.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fez nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, um alerta sobre o crescimento do endividamento das famílias brasileiras.

Durante a abertura do Febraban Tech 2026, em São Paulo, Galípolo chamou atenção especialmente para as dívidas contraídas em modalidades de crédito caras, sem garantias e utilizadas para bancar despesas recorrentes.

Publicidade

Um dos números apresentados pelo presidente do BC ajuda a dimensionar o problema.

Dos aproximadamente 96 milhões de usuários de cartão de crédito no Brasil, 52,8 milhões carregam dívidas no rotativo ou no parcelamento com juros.

O Banco Central também está preparando medidas para enfrentar riscos relacionados ao avanço do endividamento e da inadimplência, segundo declarações de Galípolo repercutidas nesta segunda-feira.

A discussão acontece justamente quando a economia brasileira começa a mostrar sinais de perda de força.

O Analistas mostrou nesta segunda-feira que o mercado reduziu a projeção de crescimento do PIB de 2026 para 1,95%, enquanto a inflação continua acima da meta.

O desafio do Banco Central é justamente equilibrar essas duas pontas: desacelerar crédito e inflação sem esfriar excessivamente a economia.

Galípolo: crédito e dívida são duas faces da mesma moeda

A declaração mais direta do presidente do Banco Central veio quando ele comentou a expansão das concessões de crédito.

Galípolo afirmou que não é coerente comemorar o crescimento do crédito e depois tratar o aumento do endividamento como um fenômeno completamente separado.

A lógica é simples.

Quando um banco concede crédito, alguém está assumindo uma dívida.

Por isso, períodos de expansão das linhas de financiamento naturalmente tendem a elevar também os passivos das famílias.

Essa relação ganha importância em um momento em que o crédito continua crescendo apesar do elevado nível dos juros brasileiros.

A Febraban projetava recentemente crescimento anual próximo de 9,7% para a carteira total de crédito, segundo sua pesquisa mensal.

O problema não é simplesmente ter dívida

Galípolo fez uma diferenciação importante.

Para o presidente do Banco Central, nem todo endividamento deve ser encarado da mesma maneira.

Um financiamento imobiliário, por exemplo, gera uma dívida, mas também permite que uma família adquira um patrimônio.

A situação é diferente quando uma pessoa utiliza uma linha de crédito cara para financiar consumo imediato ou despesas recorrentes.

Nesse caso, a dívida permanece, mas não existe necessariamente um ativo correspondente.

É esse tipo de situação que preocupa a autoridade monetária.

52,8 milhões carregam dívida no cartão

O cartão de crédito apareceu no centro do alerta.

Segundo Galípolo, o Brasil possui aproximadamente 96 milhões de usuários de cartão de crédito.

Desses, cerca de 52,8 milhões possuem dívidas no rotativo ou no parcelamento sujeito a juros.

O presidente do BC também citou taxas mensais que podem chegar a 15,1% nessas modalidades.

É justamente o custo dessas linhas que transforma dívidas aparentemente pequenas em um problema potencialmente grande.

Juros elevados compostos por vários meses podem fazer o saldo crescer rapidamente.

O Analistas já mostrou como os juros cobrados das famílias chegaram a níveis próximos de 64% ao ano e encareceram o crédito. Essa matéria já consta no sitemap do site.

Pix também entrou na discussão

Galípolo também utilizou o Pix para explicar como a inclusão financeira brasileira avançou rapidamente nos últimos anos.

Segundo os números apresentados pelo presidente do BC, o Pix realizou aproximadamente 80 bilhões de transações em 2025, movimentando cerca de R$ 35 trilhões.

O sistema teria alcançado aproximadamente 140 milhões de consumidores e 12,8 milhões de empresas.

Para o presidente do Banco Central, essa expansão representou um importante processo de inclusão financeira.

Entre os adultos inscritos no Cadastro Único, aproximadamente 74% possuem uma chave Pix cadastrada, segundo os dados citados por Galípolo.

O efeito, porém, não ficou restrito aos pagamentos.

Mais pessoas dentro do sistema financeiro também passaram a ter acesso a outros produtos bancários.

Entre eles está justamente o cartão de crédito.

37 milhões de novos usuários de cartão

Segundo Galípolo, aproximadamente 37 milhões de pessoas passaram a utilizar cartão de crédito entre 2020 e 2024, período que coincide com os primeiros anos de funcionamento do Pix.

Isso mostra como a digitalização financeira ampliou o acesso a produtos bancários.

Mas também criou um desafio.

Incluir consumidores no sistema financeiro é positivo.

Fazer isso sem que o novo acesso resulte em endividamento excessivo exige educação financeira, modelos melhores de análise de risco e regras capazes de limitar excessos.

É exatamente esse equilíbrio que o Banco Central começa a discutir.

Por que juros altos entram nessa história?

Galípolo também relacionou o tema à política monetária.

Segundo o presidente do BC, taxas de juros mais elevadas funcionam como um mecanismo de inibição da tomada de novas dívidas.

Na direção oposta, períodos de juros mais baixos normalmente favorecem maior crescimento do endividamento.

Essa é uma das maneiras pelas quais a Selic afeta a economia.

Juros altos:

  • tornam empréstimos mais caros;
  • reduzem a demanda por financiamento;
  • diminuem parte do consumo;
  • ajudam a esfriar a atividade;
  • e, consequentemente, podem reduzir pressões inflacionárias.

O problema é que o mesmo remédio também tem efeitos negativos sobre crescimento econômico.

Selic está em 14%

O Banco Central iniciou em agosto um processo de redução dos juros, levando a Selic para 14% ao ano.

O Analistas explicou os efeitos dessa decisão quando mostrou que o Copom cortou a Selic para 14% e detalhou o impacto sobre crédito, consumo e investimentos.

Apesar do corte, a taxa continua em um nível muito elevado.

E o Focus divulgado nesta segunda-feira mostra que o mercado espera apenas uma redução relativamente pequena até dezembro.

A mediana das projeções aponta para Selic de 13,75% no fim de 2026.

Ao mesmo tempo, o PIB esperado caiu para 1,95% e a inflação continua projetada em 5,02%.

Esse cenário ajuda a explicar por que o Banco Central mantém uma postura cautelosa.

A pergunta que incomoda o Banco Central

Existe ainda um paradoxo nos números brasileiros.

O mercado de trabalho melhorou.

A taxa de desemprego está em níveis historicamente baixos e a renda das famílias apresentou crescimento.

Mesmo assim, determinadas modalidades de endividamento continuam avançando.

Foi justamente esse descompasso que Galípolo colocou em discussão.

Segundo o presidente do Banco Central, é necessário entender por que o aumento da renda não está sendo utilizado em maior escala para reduzir as dívidas mais caras.

O problema pode estar relacionado ao próprio perfil dessas obrigações.

Quando uma família utiliza crédito rotativo ou parcelamento para despesas recorrentes, uma parte cada vez maior da renda futura precisa ser direcionada para pagar compromissos passados.

Isso reduz o espaço para consumo e poupança.

BC prepara novas medidas

Galípolo sinalizou que o Banco Central está discutindo formas de enfrentar esse problema.

Uma das frentes envolve mecanismos de educação financeira.

Outra está relacionada às regras prudenciais impostas às instituições que oferecem crédito.

A lógica é assegurar que bancos e demais empresas estejam devidamente provisionados para os riscos assumidos ao conceder financiamento aos clientes.

Segundo Galípolo, o sistema não pode criar incentivos para que instituições cresçam assumindo riscos que eventualmente acabem transferidos para outras partes do mercado.

Os detalhes das novas medidas ainda não foram apresentados.

Cartão pode virar o centro da discussão

Pelos números apresentados nesta segunda-feira, o cartão de crédito tende a ser uma das áreas de maior atenção.

Quando mais da metade dos aproximadamente 96 milhões de usuários possui alguma dívida sujeita a juros no produto, o impacto deixa de ser apenas individual.

Passa a ter dimensão macroeconômica.

Uma população altamente comprometida com dívidas possui menos renda disponível para consumir.

Isso pode reduzir as vendas do varejo, afetar serviços e contribuir para uma desaceleração da economia.

Ao mesmo tempo, inadimplência elevada também aumenta o risco para bancos e instituições financeiras.

É por isso que crédito, juros, renda e PIB acabam fazendo parte da mesma discussão.

O dilema do BC ficou ainda mais claro hoje

As duas principais notícias econômicas desta segunda-feira contam praticamente a mesma história por caminhos diferentes.

De manhã, o Focus mostrou:

PIB de 2026: 1,95% IPCA de 2026: 5,02% Selic no fim de 2026: 13,75%

Depois, Galípolo chamou atenção para o avanço das dívidas e para os riscos das linhas de crédito caras.

O cenário é delicado.

A economia está desacelerando.

Mas inflação e endividamento ainda dificultam uma redução rápida dos juros.

Se o Banco Central cortar a Selic depressa demais, pode estimular novamente o crédito e a demanda.

Se mantiver os juros altos por tempo demais, pode aprofundar a desaceleração econômica.

É exatamente esse equilíbrio que deve dominar as próximas decisões do Copom.

E o alerta feito por Galípolo nesta segunda-feira mostra que, além da inflação, a qualidade do endividamento das famílias também entrou com força no radar do Banco Central.

Publicidade
Foto de Muniz
Escrito por Fundador e Editor-chefe

Muniz é o fundador e editor-chefe do portal Analistas. Empreendedor digital e especialista em tecnologia voltada para o mercado financeiro, é o desenvolvedor por trás de plataformas de dados como o Ações Capital. Lidera a visão editorial e a infraestrutura tecnológica do Analistas, unindo entrega de cotações em tempo real e rigor analítico para democratizar a informação no mercado brasileiro.

Ver todas as matérias de Muniz →

Leia também

Comentários (0)

Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!

Deixe um comentário