O termômetro da economia do Banco Central quase parou entre abril e junho, bem abaixo do ritmo do início do ano, e o mês de junho até registrou recuo. É o efeito dos juros altos aparecendo, o que, por outro lado, reforça o espaço para o BC seguir cortando a Selic.
A economia brasileira perdeu força no segundo trimestre. O IBC-Br, índice do Banco Central conhecido como a "prévia do PIB", cresceu apenas 0,2% entre abril e junho, uma forte desaceleração frente à alta de 1,2% registrada nos três primeiros meses do ano. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (17).
O detalhe que mais chama a atenção é o desempenho de junho, quando a atividade econômica recuou 0,6% na comparação com maio, um resultado até pior do que o mercado esperava. Ou seja, a economia não apenas desacelerou, como chegou a encolher no fim do trimestre.
O que é o IBC-Br?
Para entender a notícia, vale conhecer o indicador. O IBC-Br é uma espécie de termômetro mensal da economia, calculado pelo Banco Central. Ele reúne dados de produção da indústria, do comércio, dos serviços e da agropecuária para dar uma prévia de como o Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas produzidas no país, deve se comportar.
Por isso é chamado de "prévia": ele antecipa a tendência. O número oficial e definitivo do PIB do segundo trimestre só será divulgado pelo IBGE em 1º de setembro. Para efeito de comparação, no primeiro trimestre o PIB oficial havia crescido 1,1%.
Por que a economia desacelerou?
A perda de fôlego era esperada por boa parte dos analistas e tem algumas explicações. A primeira é sazonal: no começo do ano, a economia foi impulsionada pela supersafra agrícola, e esse efeito positivo se dissipou ao longo dos meses.
A segunda, e mais importante, é o remédio amargo dos juros altos. A política monetária restritiva, com a Selic no patamar mais alto em quase duas décadas, funciona justamente esfriando a economia para conter a inflação, e seus efeitos aparecem com alguns meses de atraso. Em junho, a indústria recuou 1,4% e os serviços caíram 0,5%, sentindo esse aperto, além das incertezas do cenário externo, como a guerra no Oriente Médio.
Nem tudo foi negativo
Apesar do quadro de desaceleração, há pontos de resistência que impedem um cenário mais dramático. O comércio varejista, por exemplo, surpreendeu positivamente e cresceu 0,5% em junho. A agropecuária também avançou 1% no mês.
Além disso, o mercado de trabalho segue aquecido e as medidas de incentivo ao consumo por parte do governo ajudam a sustentar a demanda das famílias. Na comparação com um ano antes, o IBC-Br ainda mostra crescimento de 2,4%, e no acumulado de 12 meses a alta é de 1,5%. Ou seja, a economia desacelera, mas não está em queda livre.
O que isso significa para os juros?
Aqui está a leitura mais importante para o seu bolso. Uma economia mais fraca é, na prática, o "efeito colateral" desejado pelos juros altos: ao esfriar a atividade, o Banco Central consegue segurar a inflação. E, com a inflação sob controle, abre-se espaço para começar a baixar os juros.
Não por acaso, essa desaceleração dá suporte ao ciclo de cortes que já começou. Recentemente, o Copom reduziu a Selic para 14% ao ano, movimento que ganha ainda mais sentido diante de dados como este e da inflação que vem desacelerando. Em resumo: economia mais fraca hoje pode significar juros e crédito mais baratos amanhã.
O que fica no radar
O próximo grande dado será o PIB oficial do segundo trimestre, que o IBGE divulga em 1º de setembro e vai confirmar (ou não) essa tendência de desaceleração. O mercado, na pesquisa Focus, projeta um crescimento de cerca de 1,98% para a economia em 2026, com leve perda de ritmo em 2027.
O desafio do Banco Central, daqui para frente, é calibrar a dose: reduzir os juros para não travar demais a economia, mas sem perder o controle da inflação. Para o cidadão, o cenário combina uma atividade mais morna com a expectativa de alívio nos juros, uma troca que, no médio prazo, pode ser positiva para o crédito e para o consumo.