Novos dados do Banco Central mostram que o crédito para as pessoas físicas ficou ainda mais caro em junho. A inadimplência subiu e quase um terço da renda das famílias já vai para pagar dívidas. Entenda o que está por trás da conta.
Pegar dinheiro emprestado no Brasil está cada vez mais caro. A taxa média de juros do crédito livre para as pessoas físicas alcançou 64% ao ano em junho, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas nesta quinta-feira (30) pelo Banco Central. O porcentual subiu 1,2 ponto no mês e nada menos que 4,6 pontos em 12 meses.
Vale explicar o termo: o crédito livre é aquele em que o banco define livremente as condições, como o cartão de crédito, o cheque especial e o empréstimo pessoal. Ele não inclui as linhas com juros mais camaradas e regras específicas, como o financiamento da casa própria e o crédito rural. Ou seja, é o crédito do dia a dia que ficou mais salgado.
Por que o crédito está tão caro?
A raiz do problema tem nome: Selic. Com a taxa básica de juros em 14,25% ao ano, o custo do dinheiro para toda a economia sobe, e os bancos repassam isso ao consumidor. É o mesmo motor que faz a dívida pública crescer quase R$ 8 bilhões por dia: juro alto encarece o crédito de todo mundo, do governo ao cidadão.
Há ainda um segundo ingrediente: o risco. Quando mais gente atrasa as contas, o banco cobra mais caro de todo mundo para compensar o prejuízo. Segundo o Banco Central, o vilão específico do mês foi o crédito pessoal não consignado (aquele sem desconto direto na folha, considerado mais arriscado), cujas taxas dispararam 7 pontos. Considerando todas as modalidades, a taxa média das concessões ficou em 33,4% ao ano, com um spread bancário (a diferença entre o quanto o banco capta e o quanto cobra) de 21,9 pontos.
A inadimplência e o aperto no orçamento
Os números confirmam que o brasileiro está no limite. A inadimplência das famílias no crédito livre chegou a 7,6% da carteira, e o dado mais revelador é outro: o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu 28,5%.
Na prática, isso significa que quase um terço de tudo o que as famílias ganham já está carimbado para quitar parcelas, antes mesmo de pagar contas do mês. O nível de endividamento, que mede quantas famílias têm dívidas, ficou em 49,8%, ou seja, praticamente metade dos lares brasileiros.
Como se proteger do juro alto
Diante desse cenário, alguns cuidados ajudam a não cair na armadilha dos juros. Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional, mas alguns princípios são consenso entre educadores financeiros.
O primeiro é fugir das linhas mais caras. O rotativo do cartão de crédito e o cheque especial estão entre os créditos mais caros do mercado, bem acima daquela média de 64%. O segundo é dar preferência, quando possível, a modalidades com juros menores, como o crédito consignado ou empréstimos com garantia. E o terceiro, talvez o mais importante, é evitar usar crédito caro para pagar outro crédito caro, o famoso efeito bola de neve. Renegociar dívidas antigas costuma sair mais barato do que contratar dívida nova.
O que fica no radar
A boa notícia pode vir do próprio Banco Central. Na próxima semana, nos dias 4 e 5 de agosto, o Copom decide a Selic. Depois de sinais de inflação mais fraca, como mostrou o boletim Focus com projeções em queda, o mercado apostava na continuidade do ciclo de cortes de juros.
Se a Selic realmente começar a cair, o crédito tende a ficar mais barato ao longo dos meses, ainda que com alguma defasagem. Até lá, o recado para o bolso é de cautela: com juro a 64% ao ano, cada parcela pesa, e evitar o endividamento caro continua sendo a decisão mais inteligente.
Dados do Banco Central (Estatísticas Monetárias e de Crédito de junho de 2026).