A recuperação incompleta do tráfego de gás natural pelo Estreito de Ormuz mantém um risco relevante para fertilizantes, fretes e preços de alimentos no Brasil. O problema não se limita ao petróleo: quase um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito, o GNL, passava pela rota antes da crise.
O Financial Times destacou nesta segunda-feira, 14 de setembro, a preocupação com a duração da interrupção às vésperas do inverno no Hemisfério Norte. A Agência Internacional de Energia, a AIE, já havia advertido que os embarques do Catar e dos Emirados Árabes Unidos continuavam apenas em uma fração dos níveis anteriores ao conflito, apesar do aumento gradual do trânsito após o acordo provisório anunciado em junho.
Por que Ormuz importa para o gás mundial
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima estreita entre o Irã e a Península Arábica. Dados da AIE indicam que cerca de 93% das exportações de GNL do Catar e 96% das exportações dos Emirados Árabes Unidos usavam a rota. Somados, esses volumes correspondiam a aproximadamente 19% do comércio global de GNL.
O gás não tem a mesma flexibilidade logística do petróleo. O GNL exige terminais de liquefação, navios específicos e instalações de regaseificação no destino. Por isso, uma carga perdida no Golfo não é substituída imediatamente por oferta de outra região.
No primeiro semestre de 2026, produtores da América do Norte e da África elevaram a oferta e compensaram parte da redução do Golfo. Ainda assim, a AIE calculou queda de 4% na produção global de GNL entre março e junho, na comparação anual. O cenário ajuda a explicar a volatilidade observada nos preços internacionais.
Do gás ao fertilizante
O gás natural é matéria-prima e fonte de energia para a produção de fertilizantes nitrogenados, especialmente amônia e ureia. Quando o insumo encarece ou falta, fábricas podem reduzir a produção e repassar custos.
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a Unctad, estima que cerca de um terço do comércio marítimo mundial de fertilizantes passe por Ormuz. A entidade também aponta que os países da região respondem por 13% das exportações globais de nutrientes nitrogenados e 9% das de fosfatos.
Essa conexão é especialmente importante para o Brasil, grande produtor agrícola e dependente de fertilizantes importados. O impacto não é automático nem uniforme: estoques, contratos antecipados, câmbio, origem das compras e calendário de plantio determinam quanto do choque chega ao produtor.
Como o efeito pode chegar ao preço dos alimentos
O primeiro canal é o custo dos adubos. O segundo é o frete marítimo, que incorpora combustível, seguro e risco de guerra. O terceiro é o câmbio, porque fertilizantes e várias commodities são negociados em dólar.
Se esses custos permanecerem elevados durante mais tempo, produtores podem ajustar a quantidade aplicada, trocar insumos ou rever a área plantada. A consequência possível aparece com defasagem na produtividade, na oferta e nos preços. Não significa que todo alimento ficará imediatamente mais caro, mas aumenta o risco para a inflação ao longo da cadeia.
A pressão externa se soma a outros fatores que já afetam o preço de energia e combustíveis no país. O movimento recente do Brent e seus possíveis efeitos sobre Petrobras e inflação foi detalhado em análise sobre a alta do petróleo.
O que observar daqui para frente
O principal indicador é a normalização efetiva do número de navios e dos volumes embarcados, e não apenas anúncios diplomáticos. Também importam a retomada das instalações danificadas, os preços do gás na Europa e na Ásia e a disponibilidade de cargas alternativas.
No Brasil, o acompanhamento passa por cotações de ureia e amônia, custos de frete, dólar e decisões de compra dos produtores. A expansão do biometano regulado, como no novo mercado autorizado para a Comgás, ajuda a diversificar a matriz doméstica, mas não elimina a exposição brasileira ao mercado internacional de fertilizantes.
A duração da interrupção continua sendo a variável decisiva. Quanto mais lenta a volta dos fluxos de GNL e fertilizantes, maior a chance de o choque de energia se espalhar para a agricultura e para o custo de vida.