A partir de 1º de agosto, a gasolina comum passa a ter 32% de etanol. Para o motorista, a mudança é quase imperceptível; para o país, significa menos gasolina importada. Entenda o efeito no seu bolso e no seu carro.
A gasolina brasileira vai mudar de fórmula neste fim de semana. A partir deste sábado (1º de agosto), entra em vigor em todo o país a gasolina E32, com 32% de etanol anidro na mistura, contra os 30% atuais. A resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) que oficializa a mudança foi publicada no Diário Oficial da União na noite desta quinta-feira (30).
A medida está prevista na Lei do Combustível do Futuro, de 2024, e valerá inicialmente por 180 dias, prazo em que o governo vai monitorar os efeitos sobre o abastecimento, os preços e o mercado. Depois disso, a regra pode ser mantida, prorrogada ou revista.
O que muda na composição?
A conta é simples. Antes, a gasolina comum era formada por 70% de gasolina e 30% de etanol. Agora, passa a ser 68% de gasolina e 32% de etanol, ou seja, dois litros a mais de etanol a cada 100 litros de combustível.
Dois esclarecimentos importantes. Primeiro: a mudança vale apenas para a gasolina comum vendida nas bombas, e não afeta o etanol hidratado, aquele vendido separadamente para os carros e motos flex. Segundo: o etanol usado na mistura é o anidro, um tipo sem água, diferente do que abastece diretamente os veículos a álcool.
Muda algo para o meu carro?
Praticamente nada. Antes de aprovar o E32, o governo se baseou em testes conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, que avaliaram a nova mistura em carros e motos de diferentes idades e tecnologias. A conclusão foi de que o combustível é compatível com a frota brasileira, sem provocar danos ao motor nem comprometer o desempenho. O motorista não precisa fazer nada nem adaptar o veículo.
Vale, porém, uma observação honesta: o etanol tem menor poder calorífico do que a gasolina, o que, na teoria, pode gerar uma pequena variação no consumo. Na prática, a diferença entre uma gasolina com 30% e outra com 32% é considerada mínima e dificilmente será percebida no dia a dia.
E o preço? Fica mais barato?
Essa é a pergunta que todo mundo faz, e a resposta exige cautela. Como o etanol anidro costuma ser mais barato que a gasolina, aumentar sua participação na mistura pode ajudar a aliviar o preço final na bomba. Mas atenção: é uma possibilidade, não uma garantia.
O impacto tende a ser pequeno, já que a mudança é de apenas dois pontos percentuais, e o preço da gasolina depende de muitos outros fatores, como a cotação internacional do petróleo, o câmbio e os impostos. Ou seja, não espere ver o valor despencar no letreiro do posto por causa do E32.
Por que o governo fez isso?
O objetivo central é estratégico. Ao usar mais etanol, um combustível renovável produzido aqui, o Brasil reduz a dependência da gasolina importada e fica menos exposto às oscilações do mercado internacional de petróleo. A estimativa do setor é que a medida possa cortar a importação em cerca de 800 milhões de litros de gasolina por ano.
Há também o efeito na economia interna. A nova mistura deve exigir cerca de 1 bilhão de litros a mais de etanol anidro por ano, o que fortalece a cadeia da cana-de-açúcar e do etanol de milho. Segundo a Unica, entidade do setor, a produção tem folga para atender a essa demanda. Para o investidor, esse movimento tende a favorecer o setor sucroenergético, com empresas listadas na Bolsa como a Raízen (RAIZ4) e a São Martinho (SMTO3). A decisão também dialoga com outras mudanças recentes na política de energia, como a nova regra que permite ao governo vender gás natural direto à indústria.
O que fica no radar
Durante os próximos 180 dias, o governo vai acompanhar se o E32 cumpre o que promete, sem sustos no abastecimento ou nos preços. Se der certo, a regra pode ser mantida ou ampliada.
E o teto ainda pode subir: a Lei do Combustível do Futuro já prevê a possibilidade de chegar ao E35 (35% de etanol), desde que novos testes comprovem a segurança para a frota. Ou seja, a gasolina brasileira, que já é uma das mais renováveis do mundo, deve seguir ficando cada vez mais verde nos próximos anos.