O governo aprovou uma nova política que permite vender o gás natural da União direto para as fábricas, via leilões. A estimativa é derrubar o preço pela metade, mas a Petrobras resiste e o resultado depende dos leilões saírem do papel.
O governo federal deu um passo para tentar baratear um dos insumos mais importantes da indústria. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou nesta quinta-feira (30) uma resolução que reestrutura a comercialização do gás natural da União e permite vendê-lo diretamente a grandes consumidores, como indústrias e usinas termelétricas, por meio de leilões.
A promessa é ousada: segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a mudança pode reduzir em até 50% o preço do gás para esses grandes consumidores. Na conta do governo, o valor pago pela indústria cairia da faixa atual de US$ 12 a US$ 14 para cerca de US$ 5 por unidade.
O que muda na prática?
Hoje, o gás natural que pertence à União, extraído do pré-sal sob o regime de partilha, não chega de forma simples ao mercado. A nova resolução, que atualiza uma regra de 2018, muda isso ao dar à estatal Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA) o papel de organizar leilões para vender esse gás.
Os leilões serão divididos em duas frentes: os de curto prazo, entre 2026 e 2030, e os de longo prazo, a partir da próxima década. O primeiro deles está previsto para o último bimestre deste ano. A prioridade vai para a indústria de base, como os setores químico, petroquímico e de fertilizantes, além das termelétricas. Para viabilizar o transporte, a resolução também libera o uso dos gasodutos da Petrobras para escoar o gás da União.
Por que o gás pode ficar mais barato?
A lógica econômica é direta: mais oferta e mais concorrência tendem a derrubar preços. Ao colocar um novo volume de gás disputando o mercado, o governo aposta em quebrar a concentração do setor e forçar valores mais baixos.
Para o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, a medida é um marco que deve trazer mais competitividade ao gás natural e reduzir o custo do insumo para a indústria. Vale lembrar, porém, que os 50% de queda são uma estimativa do governo, e o resultado real vai depender de como os leilões acontecerem e de quanto gás efetivamente chegar ao mercado.
Quem ganha e quem resiste
Do lado de quem consome, a comemoração foi imediata. Entidades que representam os grandes consumidores industriais avaliam que o gás mais barato pode melhorar a competitividade das fábricas brasileiras e ajudar a reverter uma tendência de queda na demanda. Gás mais barato significa custo de produção menor.
Do outro lado, há resistência, e ela vem de um nome de peso: a Petrobras. A estatal, que domina a produção e o transporte de gás no país, vê com desconfiança a perda de protagonismo na comercialização do insumo. Nos bastidores, essa disputa já causou atritos: no início de julho, uma articulação da petroleira junto ao governo chegou a adiar uma reunião que trataria do tema. Não à toa, a companhia vem de um trimestre de peso, tendo batido recorde de produção puxada pelo pré-sal, a mesma origem do gás agora em jogo.
E o meu bolso?
Aqui é preciso ter cuidado para não criar falsas expectativas. Essa medida trata do gás para a indústria e para as termelétricas, e não do gás de cozinha (o botijão) nem diretamente da conta de luz residencial. Ou seja, o consumidor não verá a fatura cair da noite para o dia.
Os efeitos, se vierem, são mais indiretos e de médio prazo: uma indústria mais competitiva pode gerar empregos e produtos mais baratos, e um gás mais em conta para as termelétricas pode, no futuro, aliviar o custo da energia elétrica, que anda no centro do debate, como no caso dos chamados "jabutis" que ameaçam encarecer a conta de luz.
O que fica no radar
O teste de fogo será o primeiro leilão, previsto para o fim de 2026. É ele que vai mostrar se a promessa de gás mais barato se concretiza ou se esbarra na resistência da Petrobras e nos detalhes da execução.
Por ora, o governo entrega uma sinalização importante para a indústria, um setor que vinha reclamando do alto custo da energia. Se a conta fechar, o Brasil pode inaugurar uma fase de gás mais competitivo. Se não, ficará a promessa. Como sempre no setor de energia, o diabo mora nos detalhes, e nos leilões.