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Japão e EUA compram iene juntos pela 1ª vez desde 1998: o que muda no Brasil

Japão e Estados Unidos compram ienes juntos pela primeira vez desde 1998. Entenda o carry trade e o risco para dólar, Bolsa e investimentos no Brasil.

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Por Fundador e Editor-chefe · Publicado em
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Japão e EUA fazem intervenção no iene: impacto no Brasil

Ação histórica fez a moeda japonesa reagir após chegar ao menor nível em quatro décadas. O principal risco para o Brasil está no fechamento de operações de carry trade, que pode pressionar o dólar e a Bolsa.

O Japão e os Estados Unidos realizaram uma intervenção coordenada no mercado de câmbio para conter a forte desvalorização do iene.

A operação foi realizada na sexta-feira, 31 de julho, e confirmada pelo Ministério das Finanças japonês nesta segunda-feira, 3 de agosto.

Foi a primeira compra coordenada de ienes pelos dois países desde 1998. A última intervenção cambial conjunta envolvendo o Japão havia ocorrido em 2011, mas naquela ocasião o objetivo era enfraquecer a moeda japonesa, e não valorizá-la.

Após se aproximar de 164 ienes por dólar, o pior nível em cerca de 40 anos, a moeda japonesa chegou a ser negociada perto de 155,20 por dólar depois da atuação dos governos.

Não foi uma decisão conjunta do Banco do Japão e do Fed

Um detalhe importante é que a intervenção não foi comandada diretamente pelos bancos centrais como uma decisão de política monetária.

O comunicado oficial informa que a operação foi coordenada pelo Ministério das Finanças do Japão e pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

O Banco do Japão normalmente executa as ordens de intervenção definidas pelo governo japonês. Nos Estados Unidos, operações cambiais do Tesouro podem ser realizadas por meio do Federal Reserve Bank de Nova York.

A ação teve como objetivo declarado combater movimentos considerados excessivos e desordenados no câmbio. O governo japonês também deixou aberta a possibilidade de novas intervenções.

Quanto Japão e Estados Unidos gastaram?

O valor definitivo ainda não havia sido divulgado no momento da publicação.

Estimativas baseadas nos dados de liquidez do Banco do Japão indicam que o governo japonês pode ter utilizado até US$ 36,6 bilhões para comprar ienes na sexta-feira.

Esse número ainda é uma estimativa. O Ministério das Finanças publica posteriormente os valores oficiais das operações cambiais.

A participação americana também foi incomum. Segundo informações publicadas pela Reuters, os Estados Unidos teriam vendido euros para comprar ienes, evitando provocar uma queda generalizada do dólar.

Por que o iene ficou tão fraco?

O problema está principalmente na diferença entre os juros do Japão e de outros países.

Mesmo após elevar sua taxa básica para 1%, o Banco do Japão ainda mantém juros muito inferiores aos praticados nos Estados Unidos e no Brasil.

Essa diferença incentiva o chamado carry trade.

Nessa operação, investidores tomam dinheiro emprestado em uma moeda de juros baixos, como o iene, e aplicam os recursos em títulos ou ativos de países que oferecem retornos maiores.

Enquanto o iene permanece fraco ou estável, a estratégia pode ser lucrativa. O risco aparece quando a moeda japonesa sobe rapidamente.

Nesse cenário, o investidor pode precisar vender os ativos comprados no exterior para recomprar os ienes utilizados no empréstimo.

Onde o Brasil entra nessa história?

O Brasil oferece juros elevados e, por isso, pode receber recursos ligados a estratégias globais de carry trade.

Se o iene continuar valorizando e os investidores decidirem encerrar essas operações rapidamente, parte do dinheiro aplicado em mercados emergentes pode ser retirada.

Em um cenário mais intenso, o movimento poderia:

  • aumentar a procura por ienes e dólares;
  • pressionar o real;
  • elevar a volatilidade;
  • provocar venda de ações na B3;
  • pressionar os juros futuros brasileiros.

Isso não significa que a intervenção causará automaticamente uma queda do Ibovespa ou uma disparada do dólar.

O risco depende da duração da valorização do iene e, principalmente, de uma eventual mudança mais profunda na política monetária japonesa.

O dólar pode subir no Brasil?

Existe esse risco, mas a relação não é automática.

Durante períodos de redução global de risco, investidores costumam retirar dinheiro de ativos considerados mais voláteis. Moedas de países emergentes, como o real, podem perder valor nesses momentos.

Por outro lado, uma valorização do iene também pode enfraquecer o dólar frente a outras moedas. O resultado para o Brasil dependerá do comportamento dos juros americanos, dos preços das commodities e da percepção de risco global.

Por isso, não é possível atribuir qualquer movimento do dólar hoje apenas à intervenção japonesa.

Nesta segunda-feira, os mercados também acompanhavam as negociações entre Estados Unidos e Irã e a queda do petróleo, fatores que tiveram influência relevante sobre as Bolsas e as moedas.

A intervenção resolve o problema do iene?

Provavelmente não de forma permanente.

Intervenções cambiais conseguem alterar o preço de uma moeda no curto prazo, especialmente quando surpreendem os investidores. No entanto, seus efeitos costumam diminuir se os fatores econômicos que enfraqueceram a moeda continuarem presentes.

No caso japonês, o mercado acompanha principalmente:

  • possíveis novas altas de juros pelo Banco do Japão;
  • a diferença entre os juros japoneses e americanos;
  • a situação fiscal do governo;
  • os preços do petróleo e das importações;
  • novas intervenções coordenadas.

O Banco do Japão afirmou que os riscos de inflação ganharam importância e que novas decisões serão avaliadas nas próximas reuniões. A instituição, porém, não assumiu antecipadamente o compromisso de elevar os juros em setembro.

No Brasil, o diferencial continua elevado. O Boletim Focus mais recente aponta Selic de 13,75% no encerramento de 2026, enquanto os juros japoneses permanecem em 1%.

Essa distância ajuda a manter o Brasil atraente para determinadas operações, mas também aumenta sua exposição a mudanças repentinas no fluxo internacional.

Investidor brasileiro precisa mudar a carteira?

Uma intervenção isolada não é motivo suficiente para alterar investimentos.

O principal sinal de alerta seria uma combinação de valorização persistente do iene, alta dos juros japoneses e fechamento acelerado das operações de carry trade.

Nesse caso, o efeito poderia aparecer no dólar, nos juros futuros, nas ações de empresas mais dependentes de capital estrangeiro e em ativos internacionais.

Por enquanto, a avaliação apresentada pelo coordenador de alocação e inteligência da Avenue, Bruno Yamashita, é de que a ação deve ter efeito predominantemente pontual e não representa, sozinha, um choque significativo para o real ou para o mercado brasileiro.

O episódio, porém, merece acompanhamento. Uma intervenção conjunta entre Japão e Estados Unidos é rara e mostra que a queda do iene passou a ser tratada como um risco não apenas japonês, mas para o funcionamento dos mercados globais.

Foto de Muniz
Escrito por Fundador e Editor-chefe

Muniz é o fundador e editor-chefe do portal Analistas. Empreendedor digital e especialista em tecnologia voltada para o mercado financeiro, é o desenvolvedor por trás de plataformas de dados como o Ações Capital. Lidera a visão editorial e a infraestrutura tecnológica do Analistas, unindo entrega de cotações em tempo real e rigor analítico para democratizar a informação no mercado brasileiro.

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