Com a Selic em 14,25% ao ano e o crédito mais restrito, modelo permite acesso a um veículo novo sem entrada, mas mantém análise de crédito, prazo contratual e limite de quilometragem.
O carro por assinatura tem ganhado espaço no Brasil em meio aos juros elevados e às dificuldades enfrentadas pelos consumidores para financiar um automóvel, segundo a Localiza.
A avaliação foi apresentada por Breno Campolina, diretor-executivo de assinatura e gestão de frotas da Localiza&Co (RENT3), durante a Expert XP 2026, realizada nesta sexta-feira, 24 de julho, para o Poder360.
Na visão do executivo, o modelo pode ampliar o acesso ao automóvel porque elimina a necessidade de pagar uma entrada elevada. O cliente utiliza um carro novo mediante uma mensalidade, enquanto o veículo permanece sob propriedade da empresa de locação.
A modalidade, porém, não dispensa a análise de crédito. Segundo Campolina, a empresa entrega ao assinante um ativo que pode custar entre R$ 150 mil e R$ 200 mil sem exigir o pagamento inicial comum nos financiamentos.
Selic de 14,25% encarece o financiamento de veículos
O avanço do serviço ocorre em um momento no qual a taxa Selic está em 14,25% ao ano. O Banco Central reduziu a taxa básica de 14,50% para 14,25% em junho, mas manteve a política monetária em nível considerado restritivo.
Juros elevados afetam o custo dos empréstimos e financiamentos oferecidos pelos bancos. No mercado automotivo, isso pode aumentar o valor das parcelas, limitar a aprovação de crédito e exigir entradas maiores.
O cenário de juros e inflação também aparece nas expectativas acompanhadas pelo mercado. O Boletim Focus mantém a Selic em patamar elevado nas projeções para 2026, reforçando o ambiente de crédito mais caro para famílias e empresas.
Nesse contexto, a assinatura passa a disputar espaço com a compra financiada. Em vez de assumir uma dívida para adquirir o veículo, o consumidor contrata seu uso durante um período determinado.
Isso não significa que a assinatura seja necessariamente mais barata em todos os casos. Os custos dependem do modelo escolhido, da duração do contrato, da franquia de quilometragem e das condições aplicadas pela empresa.
Como funciona o carro por assinatura da Localiza
No serviço Localiza Meoo, o cliente escolhe o modelo, a cor, o período de utilização e a quantidade de quilômetros que pretende percorrer mensalmente.
Os contratos disponíveis têm duração de 18 a 48 meses, com franquias mensais que variam de 1.500 a 3.000 quilômetros.
A mensalidade inclui custos que normalmente ficariam sob responsabilidade do proprietário, como:
- IPVA e licenciamento;
- manutenção e revisões;
- proteção do veículo;
- assistência 24 horas;
- documentação e emplacamento.
A empresa também prevê gestão de multas e acesso a uma rede credenciada de oficinas.
Ao fim do contrato, o cliente devolve o automóvel. Diferentemente de um financiamento tradicional, os pagamentos não resultam na propriedade do veículo.
Também podem existir cobranças relacionadas ao excesso de quilometragem, avarias, encerramento antecipado e outras condições previstas no contrato.
Localiza vê automóvel cada vez mais conectado
Além do efeito dos juros, Campolina afirmou que o setor automotivo atravessa uma transformação impulsionada pela conectividade e pelos serviços digitais embarcados.
Na avaliação do executivo, o automóvel deixa de ser apenas um bem físico e passa a incorporar características de software, com novos serviços, atualizações e integração tecnológica.
Essa mudança também pode favorecer modelos de uso em vez da propriedade, principalmente entre consumidores que desejam trocar de veículo com maior frequência ou evitar os custos associados à revenda.
A transformação ocorre paralelamente à expansão da produção e das vendas de veículos eletrificados. A indústria brasileira também tenta ampliar sua participação nesse mercado, como mostra o avanço da produção da BYD na Bahia e os desafios para consolidar a fabricação nacional.
Veículos eletrificados crescem 125% no Brasil
As vendas de veículos leves eletrificados chegaram a 215.023 unidades no primeiro semestre de 2026, alta de 125% em relação às 95.493 unidades registradas no mesmo período de 2025.
Os eletrificados representaram 16 de cada 100 veículos leves vendidos no país entre janeiro e junho. Somente em junho, a participação chegou a 18%.
Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, o número de modelos disponíveis também aumentou, enquanto a rede pública e semipública alcançou 25.429 pontos de recarga em junho.
A expansão dos elétricos e híbridos amplia a variedade dos catálogos de assinatura, mas também cria novos desafios para locadoras. As empresas precisam avaliar depreciação, valor de revenda, manutenção, infraestrutura de recarga e velocidade de evolução das baterias.
Para o consumidor, a assinatura pode reduzir o risco de possuir um veículo que perca valor rapidamente com a chegada de novas tecnologias. Por outro lado, o custo dessa incerteza tende a ser incorporado à mensalidade cobrada pela locadora.
O que o crescimento representa para a Localiza
A Localiza atua em aluguel de veículos, gestão de frotas, venda de seminovos e carro por assinatura. Suas ações são negociadas na B3 pelo código RENT3.
O avanço da assinatura pode ampliar a receita recorrente e fortalecer a relação de longo prazo com os clientes. Ao mesmo tempo, exige capital para comprar veículos, administrar a frota e financiar a operação.
Por isso, os juros altos produzem dois efeitos distintos sobre a companhia. De um lado, tornam a compra financiada menos acessível para o consumidor e podem aumentar a demanda pela assinatura. Do outro, elevam o custo financeiro da própria Localiza.
A companhia já confirmou que divulgará seus resultados do segundo trimestre de 2026 em 6 de agosto, depois do fechamento do mercado. A apresentação aos analistas está marcada para o dia seguinte.
Os números deverão mostrar se a percepção de maior procura pela assinatura já se traduziu em crescimento da operação e qual foi o impacto dos juros sobre o custo da dívida e a rentabilidade da frota.
Assinatura muda a forma de acessar o automóvel
A declaração da Localiza mostra que os juros elevados estão modificando não apenas o preço do crédito, mas também a relação do brasileiro com o automóvel.
Na compra tradicional, o consumidor assume o financiamento, os impostos, a manutenção e o risco de desvalorização. Na assinatura, esses custos são reunidos em uma mensalidade, mas o veículo precisa ser devolvido ao fim do contrato.
Despesas externas à assinatura, como combustível, estacionamento, pedágios e multas, permanecem sob responsabilidade do usuário. Mudanças nos combustíveis, como a adoção da gasolina E32 com maior proporção de etanol, também continuam afetando o custo de utilização do carro.
O crescimento do modelo dependerá, portanto, da permanência dos juros em níveis elevados, da oferta de veículos, das condições dos contratos e da disposição do consumidor de pagar pelo uso sem adquirir a propriedade.