A dona do Facebook e do Instagram faturou US$ 60,8 bilhões no trimestre, mas viu o lucro cair 14%. O motivo é o mesmo que move o Vale do Silício: a fatura bilionária da corrida pela inteligência artificial.
A Meta, controladora de Facebook, Instagram e WhatsApp, mostrou nesta quarta-feira (29) o dilema que hoje define as gigantes de tecnologia. A empresa faturou US$ 60,8 bilhões no segundo trimestre, uma alta de 28% em um ano, mas o lucro líquido caiu 14%, para US$ 15,85 bilhões. Ou seja, vendeu muito mais e, ainda assim, ganhou menos.
O vilão dessa conta atende por duas letras: IA. Os investimentos da Meta em inteligência artificial dispararam quase 83% e chegaram a US$ 31 bilhões no trimestre, corroendo a rentabilidade da companhia. As ações caíram cerca de 1,3%, num dia em que as bolsas americanas já haviam fechado em forte queda.
A conta bilionária da IA
Os números mostram o tamanho da aposta. Com o salto dos investimentos, o fluxo de caixa livre da Meta, o dinheiro que efetivamente sobra no caixa, despencou 91% e frustrou os analistas. A margem operacional, que mede quanto de cada dólar de receita vira lucro na operação, encolheu de 43% para 31% em um ano.
E não para por aí. Os custos e despesas totais saltaram 55%, para US$ 42 bilhões, num pacote que inclui US$ 2,4 bilhões em encargos com processos judiciais e US$ 1,18 bilhão em rescisões ligadas à redução de quadro feita em maio. Esses cortes, aliás, fazem parte de um movimento maior que já provocou mais de 100 mil demissões atribuídas à IA nos EUA em 2026, com a Meta enxugando áreas para redirecionar dinheiro à nova tecnologia.
O recado para o ano é ainda mais impressionante: a empresa elevou a previsão de gastos e agora espera desembolsar até US$ 169 bilhões em despesas totais, com investimentos de capital (Capex) que podem chegar a US$ 145 bilhões só em 2026.
O negócio de anúncios continua uma máquina
Se a Meta pode gastar tanto, é porque seu negócio principal segue muito saudável. A publicidade, que banca a companhia, foi de vento em popa: as impressões de anúncios cresceram 14% e o preço médio de cada anúncio subiu 12%. A base de usuários também avançou, com 3,6 bilhões de pessoas usando os aplicativos da empresa por dia, alta de 3% em um ano.
É essa força que dá a Mark Zuckerberg a confiança para seguir gastando. Segundo o fundador e CEO, "a IA está acelerando nosso negócio principal hoje", além de abrir caminho para novos produtos. Na visão dele, os resultados já começam a aparecer.
Por que isso importa para o investidor brasileiro
Ainda que a Meta seja americana, o caso interessa a quem investe no Brasil. Muita gente tem exposição à empresa por meio de BDRs na B3 ou de fundos que seguem os índices dos EUA. Além disso, a Meta é peso pesado da Nasdaq, e o humor com as gigantes de tecnologia lá fora respinga direto na nossa Bolsa, como se viu no pregão em que o Ibovespa recuou seguindo Nova York.
O balanço da Meta é o retrato mais claro de um dilema que vale trilhões: as big techs estão queimando caixa para não ficar para trás na IA, apostando que o gasto de hoje vira lucro amanhã. Enquanto isso não se confirma, cada trimestre coloca à prova a paciência dos investidores.
O que fica no radar
Para o próximo trimestre, a Meta projeta uma receita entre US$ 61 bilhões e US$ 64 bilhões, sinal de que a máquina de anúncios deve seguir girando. A grande incógnita é quando, e se, todo esse dinheiro despejado em inteligência artificial vai se traduzir em lucro maior.
Por ora, o mercado observa com um pé atrás. A receita que cresce agrada, mas o lucro pressionado e o caixa mais magro acendem a dúvida sobre até onde vai, e quanto custa, a corrida da IA.