O hatch elétrico EX2, campeão de vendas na China, invadiu o top 10 brasileiro com um crescimento de 280% no ano. Com isso, a Geely vira a terceira força chinesa no país e desafia o domínio de BYD e GWM, apoiada numa jogada inteligente: a fábrica e a rede da Renault.
A briga pelas ruas do Brasil ganhou um novo protagonista. O Geely EX2, um hatch 100% elétrico que já é o carro mais vendido da China, disparou nas vendas por aqui e entrou para o seleto grupo dos mais emplacados do país. Só em julho, último mês fechado, ele figurou na 10ª posição geral do mercado.
O ritmo impressiona: comparando dezembro de 2025 com julho de 2026, as vendas do EX2 cresceram 280%, a aceleração mais forte de qualquer carro no período. Com esse desempenho, a chinesa Geely se firma como uma terceira força de peso no mercado nacional, ameaçando o duelo que até então era travado apenas entre as conterrâneas BYD e GWM.
A ascensão meteórica do EX2
O avanço fica ainda mais claro quando se olha o varejo, ou seja, as vendas feitas diretamente ao consumidor nas concessionárias, sem contar os grandes lotes vendidos a locadoras e frotas. Nesse recorte, o EX2 saltou da 25ª posição em janeiro para o segundo lugar em julho, praticamente empatado com o líder, o BYD Dolphin. A diferença foi mínima: 5.861 unidades do Dolphin contra 5.707 do EX2.
O feito tem um simbolismo maior: pela primeira vez, três carros 100% elétricos apareceram juntos no top 10 mensal de vendas, todos de marcas chinesas. E a Geely conquistou isso praticamente com um único modelo, já que o EX2 responde por cerca de 80% das vendas da marca, que por aqui oferece apenas ele e sua versão SUV, o EX5.
Quem é a Geely?
Para dimensionar a ameaça, vale conhecer a rival. A Geely é a segunda maior montadora da China, atrás somente da BYD. No ano passado, o placar global entre as duas ficou em 4,6 milhões de carros vendidos pela BYD contra 4,1 milhões da Geely, ou seja, são gigantes de porte parecido.
No Brasil, o crescimento ainda a coloca como a 11ª marca mais vendida no geral e a terceira entre as chinesas, atrás de BYD e GWM. Mas a distância vem diminuindo: em julho, a Geely já encostou na GWM (7,4 mil contra 9,2 mil emplacamentos). A BYD, por enquanto, segue folgada na liderança do pelotão asiático.
A jogada de mestre: a fábrica da Renault
Aqui está o trunfo mais interessante da estratégia da Geely, e o que mais importa para entender o negócio. Enquanto BYD e GWM chegaram ao Brasil como importadoras e tiveram de construir suas fábricas do zero (em Camaçari e Iracemápolis), a Geely escolheu um atalho: no ano passado, comprou 26,4% da Renault Brasil, formando uma joint venture, a Renault Geely.
Com um só movimento, a chinesa ganhou acesso imediato à ampla rede de concessionárias da francesa e, principalmente, à sua fábrica em São José dos Pinhais (PR). A ideia é começar a produzir o EX2 e o EX5 no Brasil ainda este ano, num primeiro momento pelo regime de "kits desmontados" (CKD), o mesmo caminho inicial trilhado pela BYD, que já montou 100 mil carros na Bahia. A vantagem da Geely é aproveitar a estrutura industrial que a Renault já tem, poupando tempo e investimento.
A corrida contra o imposto
Há pressa nessa nacionalização, e ela tem nome: imposto. Até o fim de 2026, valem cotas de imposto de importação zerado para os kits de carros elétricos. A partir de 2027, porém, essa alíquota volta a 35%, o mesmo dos carros importados inteiros.
Por isso, todas as chinesas correm para produzir cada vez mais peças em solo brasileiro, reduzindo a dependência dos kits vindos da China e, com isso, o peso do imposto. Produzir localmente também alivia outro gargalo: a dependência dos navios, que já chegou a deixar o EX2 sem estoque em alguns meses.
O empurrão do Move Brasil e dos apps
Boa parte desse boom de hatches elétricos tem um combustível específico: os motoristas de aplicativo. Para quem roda o dia inteiro, a economia com combustível pode chegar a R$ 3 mil por mês, e o país tem pelo menos 1,7 milhão desses profissionais.
Esse apetite ganhou reforço do Move Brasil, programa do governo federal voltado a motoristas de app e taxistas, que oferece juros abaixo do mercado, prazos de até seis anos e financiamento sem entrada para carros de até R$ 150 mil. Modelos como o EX2 e os BYD Dolphin se encaixam na faixa, o que turbinou a demanda e acirrou a guerra de preços. Para brigar, a Geely baixou a versão de entrada do EX2 para R$ 117,6 mil, enquanto a BYD cortou R$ 10 mil dos preços do Dolphin.
O que fica no radar
A entrada forte da Geely confirma uma tendência: o mercado automotivo brasileiro está sendo redesenhado pelas marcas chinesas, com as ruas cada vez mais tomadas por carros elétricos silenciosos. A disputa entre BYD, GWM e agora Geely tende a se intensificar, o que, para o consumidor, costuma ser uma boa notícia, com mais opções e preços mais agressivos.
O desafio das três será transformar o sucesso de vendas em produção nacional rentável antes que o imposto suba, em 2027. Enquanto isso, a briga se estende também para o campo da tecnologia, com apostas como o híbrido flex da BYD, que roda a etanol, mostrando que a corrida pelo motorista brasileiro está apenas começando.