A mineradora teve o melhor segundo trimestre de minério desde 2018, um respiro operacional e tanto. Mas o número dividiu espaço com outra notícia: nesta quarta, os acionistas decidem quem vai comandar o conselho, numa disputa que opôs a Previ à cúpula da empresa.
A Vale (VALE3) viveu nesta quarta-feira (22) um daqueles dias em que a operação e a política andam em paralelo. De um lado, a companhia confirmou uma forte recuperação operacional no segundo trimestre de 2026, com o melhor desempenho em minério de ferro para o período desde 2018. De outro, os acionistas se reuniram em assembleia para decidir quem vai presidir o conselho de administração, o desfecho de uma queda de braço que expôs os bastidores do poder na maior mineradora do país.
A produção que deu o respiro
Os números operacionais, divulgados na terça (21) após o fechamento, foram sólidos:
| Minério de ferro (2T26) | Resultado |
|---|---|
| Produção | 84,3 milhões de toneladas |
| Variação anual | +0,8% |
| Variação trimestral | +20,9% |
| Vendas | 79,7 milhões de toneladas (+3,1% no ano) |
O salto de quase 21% na comparação com o trimestre anterior foi sustentado por um recorde de produção no complexo S11D, em Carajás, e pelos maiores volumes dos projetos Capanema e VGR1. Cobre e níquel também cresceram na comparação anual. A companhia manteve o guidance para 2026, projetando entre 335 milhões e 345 milhões de toneladas de minério no ano.
Para o investidor, o recado operacional é bom: depois de trimestres pressionados, a Vale mostra que voltou a produzir no seu melhor ritmo em anos, num momento em que o preço do minério no exterior dá sinais de estabilização.
A briga que rouba a cena
O respiro operacional, porém, dividiu as atenções com um embate societário. A assembleia geral extraordinária desta quarta decide quem assume a presidência do conselho, cargo que ficou vago desde a renúncia de Daniel Stieler, em 6 de julho.
A origem da disputa está na Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil e maior acionista individual da Vale, com cerca de 7% das ações. Foi a Previ que pressionou pela troca no comando do colegiado, argumentando que a mudança faz parte de um processo de renovação da governança. A cúpula do conselho resistiu, e o impasse virou um debate público sobre até onde vai a influência dos grandes acionistas numa empresa sem controlador definido, como a Vale é desde o fim da Valepar.
Quem está na frente
Segundo o mapa de votação prévia divulgado pela própria Vale na véspera, com quase metade do capital votante já computado, o favorito é claro. Para a presidência do conselho, Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, o Ollie, aparecia com ampla vantagem: cerca de 1,29 bilhão de votos a favor, contra o rival Marcelo Gasparino, atual vice-presidente do colegiado.
Ollie é conselheiro independente da Vale desde 2021 e traz experiência de mineradoras como Anglo American e De Beers. É o nome apoiado pela Previ, o que na prática significa que o fundo tende a sair vitorioso da queda de braço.
Há uma sutileza, porém: para a outra vaga em disputa no conselho, a de conselheiro, a tendência se inverte. Ali Ieda Gomes, indicada e referendada pelo próprio colegiado, aparecia à frente de José Maurício Pereira Coelho, o nome da Previ. Ou seja, o desfecho provável é dividido: a Previ ganha a presidência, mas não leva tudo.
Vale a cautela: até o fechamento desta matéria, o resultado ainda dependia da apuração final, e uma parcela relevante dos votos vem dos detentores de ADRs, que costumam ser apresentados só durante a assembleia. O placar prévio aponta uma direção, mas não é oficial até a homologação.
Por que isso importa para o acionista
Governança não é detalhe abstrato numa empresa sem dono definido. Quem preside o conselho influencia a estratégia de longo prazo, a política de dividendos, a escolha de executivos e o apetite por novos investimentos. A disputa também funciona como um teste: mostra o quanto um grande acionista, no caso um fundo de pensão ligado a um banco estatal, consegue moldar os rumos de uma companhia privada de peso global.
Para o mercado, um desfecho ordenado tende a ser lido como positivo, porque remove a incerteza que vinha pesando sobre a ação. A combinação com a produção recorde faz da Vale uma das protagonistas do pregão, numa temporada de balanços que já trouxe o resultado da WEG e ganha corpo nas próximas semanas.
O que fica no radar
O resultado oficial da assembleia é o primeiro a acompanhar, com a confirmação de quem preside o conselho. Depois dele, o foco vira o balanço financeiro completo do segundo trimestre, que a Vale divulga em 30 de julho, quando os números de receita, custos e lucro vão mostrar se a produção recorde se converteu em resultado para o acionista. A teleconferência está marcada para 31 de julho.