As câmeras inteligentes leem o que acontece dentro do carro e pegam celular na mão e cinto solto, de dia e de noite. No Rodoanel elas já geram multa desde este mês. Na Raposo Tavares, mil flagras em 72 horas ainda não viraram autuação. Entenda a diferença.
Quem dirige nas rodovias de São Paulo precisa redobrar a atenção, e agora o motivo está dentro do próprio carro. Câmeras equipadas com inteligência artificial passaram a monitorar o comportamento dos ocupantes dos veículos, flagrando duas infrações que antes dependiam quase sempre do olho de um policial na estrada: o uso de celular ao volante e a falta do cinto de segurança.
A tecnologia impressiona pelo alcance. Os equipamentos contam com sensores infravermelhos e câmeras de última geração, funcionam 24 horas por dia e captam imagens nítidas mesmo à noite e com o carro em alta velocidade.
Onde a multa já está valendo
Aqui está o ponto que mais confunde o motorista, porque a situação é diferente em cada rodovia.
No Rodoanel Mário Covas, nos trechos Sul e Leste, os radares saíram da fase de testes e começaram a operar em caráter definitivo neste mês. Ou seja, ali o flagrante já vira autuação.
Na Raposo Tavares, não. As duas câmeras instaladas em março nos quilômetros 17 e 18, em trecho da capital, já passaram pelos testes, mas os flagrantes ainda não geram multa. Isso só vai acontecer quando estiver ativa a parceria com a Polícia Militar Rodoviária, que é quem faz a autuação. Procurada por veículos de imprensa, a PM não informou a data de início da operação.
Os números que assustam
O volume de infrações flagradas dá a dimensão do problema. Na Raposo Tavares, as duas câmeras registraram mais de mil indícios de infração em apenas 72 horas. A divisão foi a seguinte: 40% de passageiros sem cinto, 30% de motoristas sem cinto e 30% de condutores mexendo no celular.
No Rodoanel, os dados da fase de teste são ainda mais expressivos. Entre 12 de maio e 9 de junho, em 28 dias de monitoramento, a concessionária SPMar flagrou 4.879 veículos cometendo essas infrações, o que dá uma média de mais de 168 casos por dia. Do total, 2.420 eram motoristas sem cinto, 1.440 eram passageiros sem o dispositivo afivelado e 1.019 usavam o celular. Ninguém foi multado, porque o sistema ainda não estava em operação definitiva.
Quanto custa cair na malha
Vale saber o tamanho do prejuízo antes de arriscar:
- Sem cinto de segurança (incluindo passageiros): infração grave, multa de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH
- Celular ao volante: infração gravíssima, multa de R$ 293,47 e sete pontos na CNH
O radar não multa sozinho
Existe um detalhe legal importante, e ele derruba o medo de uma máquina decidindo tudo. Por lei, a câmera não aplica multa e a concessionária não tem poder de autuação.
O que a inteligência artificial faz é funcionar como um filtro de alta precisão: ela detecta a possível irregularidade, classifica o tipo de infração e envia a imagem para a Polícia Militar Rodoviária. Um agente humano então analisa a fotografia, e só se confirmar a irregularidade é que a multa é emitida.
Segundo o capitão Willer Pontes, da PM de São Paulo, o objetivo principal vai além de identificar irregularidades e passa pela conscientização sobre comportamentos que colocam vidas em risco.
Nem tudo é detectado ainda
O sistema tem limites claros. Por enquanto, o monitoramento por IA foca exclusivamente no cinto e no celular. Situações como veículos parados na pista, pedestres na via, objetos na estrada ou transporte inadequado de crianças ainda não são identificados, embora a Ecovias avalie incorporar essas funções no futuro.
Há também um tipo diferente de câmera em operação. No Rodoanel Norte, inaugurado no fim do ano passado, a concessionária Via Appia opera 59 câmeras com IA ao longo de 24 quilômetros, mas com outra finalidade: elas identificam veículos parados na faixa, manobras irregulares e uso indevido do acostamento. Não capturam automaticamente cinto e celular, embora o policial que acompanha o centro de controle possa registrar a imagem para comprovar a infração.
O que fica no radar
O cerco tende a se fechar. A Ecovias planeja instalar mais duas câmeras semelhantes na Raposo Tavares e na Castello Branco, sem data definida, e equipamentos parecidos já operam em estradas do interior, principalmente nas regiões de Campinas e Ribeirão Preto.
Por trás da fiscalização há um argumento de saúde pública difícil de contestar. Dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) mostram que o cinto reduz o risco de morte em pelo menos 60% para quem está no banco da frente e em 44% para quem viaja atrás. Com a tecnologia avançando pelas rodovias paulistas e a parceria com a PM em vias de ser fechada na Raposo, a recomendação é simples: trate toda câmera como se ela já estivesse multando.