A Rússia vendeu volumes significativos de ouro em 2026 para levantar recursos em meio ao aumento do déficit público e dos gastos relacionados à guerra na Ucrânia.
No início de julho, as reservas russas somavam 73,4 milhões de onças-troy, equivalentes a aproximadamente 2.283 toneladas de ouro. O estoque havia diminuído cerca de 43,5 toneladas desde o começo do ano e alcançado o menor nível desde antes da invasão da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022.
A Deutsche Welle estima que as vendas tenham levantado mais de US$ 5 bilhões. O valor não representa um dado oficial divulgado pelo governo russo, mas uma estimativa baseada no volume vendido e nos preços do metal durante o período.
Rússia se torna exceção entre os bancos centrais
Os números do World Gold Council confirmam que a Rússia vinha reduzindo seus estoques enquanto a maior parte dos bancos centrais continuava comprando ouro.
Somente em maio, o Banco Central da Rússia registrou uma venda líquida de seis toneladas. Até aquele momento, as vendas acumuladas no ano chegavam a 34 toneladas, reduzindo o estoque informado para 2.292 toneladas.
O movimento contrasta com a tendência internacional. Em pesquisa realizada em 2026, 89% dos gestores de reservas consultados pelo World Gold Council disseram esperar que os bancos centrais aumentem suas reservas de ouro nos 12 meses seguintes.
O ouro costuma ser utilizado pelos bancos centrais por reunir três características importantes: liquidez, segurança e capacidade de preservar valor em períodos de instabilidade econômica ou geopolítica.
Por que a Rússia está vendendo ouro?
A principal explicação está no orçamento do governo russo.
A Rússia aprovou para 2026 receitas de 40,3 trilhões de rublos e despesas de 44,1 trilhões de rublos. A diferença produziria um déficit previsto de aproximadamente 3,8 trilhões de rublos, equivalente a 1,6% do Produto Interno Bruto.
Entretanto, somente nos primeiros seis meses do ano, o déficit já havia alcançado 5,73 trilhões de rublos, ou 2,5% do PIB. O resultado superou em 2,35 trilhões de rublos o déficit registrado no mesmo período de 2025.
A comparação com a meta anual exige cautela. O Ministério das Finanças da Rússia atribuiu parte do desequilíbrio do primeiro semestre à antecipação de contratos e despesas que normalmente seriam realizadas ao longo do ano.
Ainda assim, o ministro das Finanças, Anton Siluanov, já havia admitido que o déficit de 2026 poderia ficar acima da previsão original de 1,6% do PIB.
Petróleo e gás renderam menos
Outro problema para o Kremlin foi a redução das receitas provenientes da indústria de energia.
Entre janeiro e junho de 2026, as receitas russas com petróleo e gás somaram 3,66 trilhões de rublos, queda de 22,7% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Enquanto isso, as despesas do governo chegaram a 24,35 trilhões de rublos no semestre, crescimento de 16,1%. As receitas totais avançaram apenas 5,8%, para 18,62 trilhões de rublos.
O resultado mostra por que o preço do petróleo continua sendo uma das principais variáveis para a capacidade financeira da Rússia.
O país ainda consegue obter receitas relevantes com exportações de energia, mas preços mais baixos, sanções e descontos oferecidos a compradores podem diminuir a entrada de recursos.
Esse mesmo mecanismo ajuda a explicar por que uma alta do petróleo provocada por conflitos internacionais pode alterar rapidamente as contas de países exportadores. O Analistas mostrou anteriormente o que muda na economia quando o petróleo chega a US$ 90.
Ouro vendido pertence principalmente a fundo estatal
Apesar de os dados aparecerem nas estatísticas das reservas internacionais, especialistas ouvidos pela Deutsche Welle afirmam que a maior parte do ouro teria sido negociada pelo Ministério das Finanças por meio do Fundo Nacional de Bem-Estar da Rússia.
O fundo funciona como uma reserva financeira do governo e acumulou recursos obtidos principalmente durante períodos de preços elevados do petróleo e do gás.
Depois das sanções impostas por países ocidentais, a Rússia passou a ter acesso limitado a títulos dos Estados Unidos e a outros ativos financeiros internacionais. O ouro ganhou importância por poder ser comprado de produtores russos e utilizado como uma reserva líquida.
O funcionamento é semelhante ao de outros fundos soberanos, que acumulam receitas obtidas com recursos naturais para utilizá-las em momentos de necessidade. O Analistas explicou como o fundo soberano da Noruega transformou receitas do petróleo em um patrimônio de US$ 2,2 trilhões.
Gastos militares pressionam o orçamento
As dificuldades fiscais aumentaram com a expansão dos gastos militares russos.
Segundo a Deutsche Welle, as despesas com defesa mais do que quadruplicaram desde 2021 e chegaram a aproximadamente 16 trilhões de rublos em 2025.
Uma reportagem do Financial Times apontou que despesas adicionais relacionadas à guerra poderiam atingir pelo menos US$ 28 bilhões em 2026, com pressões semelhantes previstas para 2027 e 2028.
Os gastos militares ajudam a sustentar fábricas, empregos e determinados setores da economia. Ao mesmo tempo, reduzem os recursos disponíveis para infraestrutura, saúde, educação e investimentos civis.
A Rússia está ficando sem dinheiro?
A venda de ouro indica pressão fiscal, mas não significa que o país esteja prestes a ficar sem recursos ou entrar em colapso financeiro.
A Rússia continua entre os maiores detentores de ouro do mundo e também é uma importante produtora do metal. Isso permite que o governo recomponha parte dos estoques comprando ouro extraído dentro do próprio país.
Chris Weafer, analista da Macro-Advisory entrevistado pela Deutsche Welle, avalia que a operação é extraordinária, mas não representa uma venda motivada por pânico. Segundo ele, utilizar ativos líquidos em períodos de dificuldade faz parte da função de um fundo soberano.
O economista também estima que a Rússia ainda tenha condições de financiar suas despesas e evitar uma crise financeira no curto prazo. O principal risco estaria no desgaste econômico acumulado caso a guerra e os gastos elevados se prolonguem.
O preço do petróleo será decisivo
A capacidade de Moscou de manter os gastos dependerá, em grande parte, das receitas com petróleo e gás.
Quando o petróleo sobe, o governo arrecada mais, o sistema financeiro recebe mais recursos e fica mais fácil financiar o déficit por meio de títulos públicos ou reservas.
Quando o preço cai, o orçamento perde receitas e o Kremlin precisa aumentar impostos, emitir dívida, reduzir despesas civis ou utilizar ativos do Fundo Nacional de Bem-Estar.
Os efeitos desses movimentos não ficam restritos à Rússia. Conflitos que pressionam o petróleo podem afetar inflação, bolsas, moedas e empresas em diversos países. Em julho, o Analistas mostrou como uma escalada militar derrubou bolsas e levou o petróleo novamente para perto de US$ 100.
O que a venda significa para o mercado?
A redução das reservas russas traz três sinais principais:
- O déficit público está exigindo novas fontes de financiamento.
- A receita com petróleo e gás ainda é insuficiente para cobrir a expansão das despesas.
- O ouro ganhou uma função prática no financiamento do governo durante as sanções.
A venda russa pode aumentar temporariamente a oferta do metal, mas o volume precisa ser comparado com o tamanho do mercado global e com a demanda de outros bancos centrais.
Como várias instituições monetárias continuam comprando ouro, não é possível concluir que as vendas da Rússia, isoladamente, provocarão uma queda prolongada na cotação.
Para o Brasil, os efeitos mais relevantes são indiretos. Mudanças nos preços do ouro, petróleo e dólar podem influenciar empresas exportadoras, inflação, câmbio e o comportamento dos mercados financeiros.
Este conteúdo tem caráter informativo e não representa recomendação de investimento.