O Government Pension Fund Global transformou o "ouro negro" do Mar do Norte no maior cofre do planeta — cerca de R$ 2 milhões por habitante. A história envolve uma decisão do Parlamento em 1990, uma regra fiscal rígida e a recusa em repetir os erros de outros países petroleiros.
Quando o petróleo jorrou pela primeira vez em águas norueguesas, em 25 de outubro de 1969, no campo de Ekofisk, a Noruega era um dos países mais modestos da Europa Ocidental. Pouco mais de meio século depois, o país escandinavo de 5,6 milhões de habitantes controla o maior fundo soberano do mundo: o Government Pension Fund Global (GPFG), com patrimônio de cerca de US$ 2,2 trilhões — 21,3 trilhões de coroas norueguesas, ou aproximadamente R$ 11 trilhões. O valor equivale a quase quatro vezes tudo o que a economia norueguesa produz em um ano.
Se o montante fosse dividido igualmente, cada norueguês — do recém-nascido ao aposentado — teria direito a cerca de US$ 375 mil, perto de R$ 2 milhões. Mas a genialidade do modelo está justamente em não dividir: o dinheiro pertence às gerações futuras tanto quanto às atuais.
A decisão que evitou a "maldição do petróleo"
A Noruega poderia ter seguido o caminho de tantos países ricos em recursos naturais que sucumbiram à chamada doença holandesa — o fenômeno em que a bonança de uma commodity aprecia a moeda, sufoca a indústria e deixa a economia refém dos ciclos de preço. Escolheu outro rumo, e essa escolha teve arquitetos.
Um deles, curiosamente, não era norueguês: o geólogo iraquiano Farouk al-Kasim, radicado no país desde os anos 1960, ajudou a desenhar os princípios que ficaram conhecidos como os "dez mandamentos do petróleo" norueguês — entre eles, o controle estatal dos recursos e a exigência de que a riqueza servisse à sociedade como um todo. Dessa filosofia nasceram a estatal Statoil (hoje Equinor), em 1972, e um regime de tributação pesada sobre as petroleiras.
A primeira proposta formal de um fundo para blindar o orçamento contra a volatilidade do barril surgiu em 1983. O empurrão definitivo veio da dupla crise dos anos seguintes — o colapso dos preços do petróleo e uma grave crise bancária entre 1988 e 1993. Em 1990, o Parlamento norueguês (Storting) aprovou a lei que criou o então Government Petroleum Fund, vinculado ao Ministério das Finanças e operado como uma conta no banco central.
Da primeira transferência ao maior investidor do planeta
O primeiro depósito só ocorreu em 1996, quando o país finalmente registrou superávit suficiente. A partir de 1998, a gestão operacional passou ao braço de investimentos do banco central, o Norges Bank Investment Management (NBIM), e o fundo começou a comprar ações. Em 2005, foi rebatizado de Government Pension Fund Global, explicitando a missão de sustentar o sistema de previdência e o bem-estar das próximas gerações.
Os números atuais impressionam:
- Participações em cerca de 7.200 empresas em mais de 60 países;
- 1,5% de todas as listadas em bolsa no mundo, o que faz do fundo o maior investidor individual do planeta;
- Mais de 71% da em ações e 26,5% em títulos de dívida, além de imóveis e infraestrutura renovável;
- Maiores posições em gigantes de tecnologia: cerca de 1,3% da Nvidia, 1,2% da Apple e 1,3% da Microsoft;
- Lucro de US$ 246,9 bilhões em 2025 (2,36 trilhões de coroas), com valorização de 15,1%, puxada pelo setor de tecnologia.
Um dado resume o sucesso da estratégia: a Noruega já ganhou cerca de três vezes mais dinheiro com o retorno dos investimentos do fundo do que com o petróleo que o Estado depositou nele. Hoje, mais da metade do patrimônio não vem do óleo, e sim dos rendimentos acumulados.
A regra de ouro: gastar só o rendimento
O pilar do modelo é a handlingsregelen, a regra fiscal adotada em 2001. Por ela, o governo só pode transferir para o orçamento, em média, o retorno real esperado do fundo — originalmente 4% ao ano, reduzido a 3% em 2017. O principal é intocável. Todo superávit orçamentário volta para o fundo; em déficits, o resgate é limitado pela regra.
Outra proteção fundamental: o fundo investe exclusivamente no exterior. A proibição de aplicar dentro da Noruega impede o superaquecimento da economia doméstica e a apreciação artificial da coroa — exatamente os sintomas da doença holandesa que o país quis evitar.
A governança é desenhada em camadas: o Ministério das Finanças — comandado desde fevereiro de 2025 por Jens Stoltenberg, ex-secretário-geral da Otan e ex-premiê — define o mandato e o índice de referência; o Norges Bank, sob a governadora Ida Wolden Bache, supervisiona; e a NBIM executa. Desde setembro de 2020, o CEO da NBIM é Nicolai Tangen, ex-gestor do hedge fund AKO Capital, reconduzido em 2025 para um segundo mandato, até 2030. Sob Tangen, a NBIM incorporou inteligência artificial às operações e reporta ganho de produtividade de cerca de 20% em um ano.
O fundo também opera um filtro ético desde 2004: um conselho independente exclui empresas ligadas a armas nucleares, tabaco, minas terrestres, violações de direitos humanos e danos ambientais graves — em 2019, desinvestiu de mineradoras de carvão e de parte do setor de exploração de petróleo.
E o Brasil nessa história?
O Brasil é o principal destino do fundo norueguês na América Latina. Ao fim de 2024, a NBIM tinha US$ 5,8 bilhões aplicados em mais de 110 empresas brasileiras — a maior posição era justamente na Petrobras, com US$ 1 bilhão, o equivalente a 1,3% do capital da estatal. Somando os investimentos diretos de empresas norueguesas, a presença do país no Brasil alcança US$ 14 bilhões, com cerca de 300 companhias atuando por aqui.
A comparação com o modelo brasileiro é inevitável. O Brasil criou em 2010 o Fundo Social do Pré-Sal, inspirado na experiência norueguesa, para receber parte das receitas do petróleo da camada pré-sal. Na prática, porém, os recursos têm sido majoritariamente direcionados a despesas correntes de educação e saúde, sem a lógica de acumulação de longo prazo — e sem a blindagem de uma regra fiscal do tipo norueguês. A diferença de escala fala por si: enquanto o GPFG acumula trilhões, o fundo brasileiro nunca chegou perto de cumprir papel semelhante de poupança intergeracional.
O que fica no radar
O próprio fundo reconhece que seu maior ativo é a disciplina, não o petróleo. Os desafios à frente incluem a transição energética — que encurta o horizonte das receitas de petróleo e gás do país, hoje o maior exportador de combustíveis fósseis da Europa Ocidental —, a concentração crescente da carteira em ações americanas de tecnologia (quase 40% do total) e as pressões políticas sobre o uso ético do dinheiro, como as restrições a investimentos ligados ao conflito em Gaza adotadas em 2024. A próxima divulgação de resultados semestrais está marcada para 12 de agosto de 2026. Para países produtores de petróleo, do Brasil à Guiana, a lição norueguesa permanece a mesma: a riqueza do subsolo só vira prosperidade permanente quando existe uma regra — e a vontade política de cumpri-la.
Com informações de UOL, Gazeta do Povo, CNBC e Norges Bank Investment Management.