Ações sofreram forte correção depois do balanço do segundo trimestre; banco corta preço-alvo de R$ 34 para R$ 33,10, mas mantém recomendação de compra.
A Sabesp (SBSP3) perdeu aproximadamente R$ 17,5 bilhões em valor de mercado após a forte correção das ações nas últimas semanas, mas o Itaú BBA acredita que a Bolsa pode ter exagerado na punição à companhia.
Em relatório repercutido nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, o banco reduziu seu preço-alvo para SBSP3 de R$ 34 para R$ 33,10.
Mesmo com o corte, o novo valor representa um potencial de valorização de aproximadamente 39% em relação ao fechamento da última sexta-feira.
O Itaú BBA também manteve sua recomendação de compra para as ações.
Por volta das 14h36 desta segunda-feira, SBSP3 reagia e subia aproximadamente 1,43%, negociada a R$ 24,09.
A grande discussão agora é simples:
a Sabesp realmente perdeu R$ 17 bilhões em valor ou o mercado está precificando problemas maiores do que os fundamentos justificam?
Por que SBSP3 caiu tanto?
A virada negativa começou principalmente depois do balanço do segundo trimestre de 2026.
Embora alguns números tenham vindo próximos das expectativas, investidores ficaram preocupados com três pontos:
- custos operacionais maiores;
- captura de eficiência mais lenta;
- ritmo de investimentos abaixo de algumas expectativas de curto prazo.
O resultado foi uma forte venda das ações.
No primeiro pregão após o balanço, em 13 de agosto, SBSP3 chegou a cair mais de 8% durante a sessão.
A pressão continuou nos pregões seguintes e reduziu fortemente o valor de mercado da companhia.
R$ 17,5 bilhões desapareceram da Bolsa
É justamente aqui que o Itaú BBA vê uma possível distorção.
Segundo os cálculos do banco, a correção eliminou aproximadamente R$ 17,5 bilhões do valor de mercado da Sabesp.
Só que, ao revisar suas próprias premissas para custos e eficiência, o BBA calcula uma destruição de valor econômico próxima de R$ 3,3 bilhões.
A diferença é enorme.
Em outras palavras, o mercado retirou mais de cinco vezes o valor que o banco estima ter sido efetivamente comprometido pelas mudanças nas projeções.
É exatamente essa assimetria que sustenta a manutenção da recomendação de compra.
O problema dos R$ 800 milhões
Um dos principais pontos da discussão envolve aproximadamente R$ 800 milhões em despesas adicionais.
À primeira vista, o número assusta.
Mas o Itaú BBA argumenta que nem todo esse valor deveria permanecer estruturalmente na base de custos da Sabesp.
Segundo o banco, apenas cerca de 20% a 25% do pacote de R$ 800 milhões deve continuar como despesa recorrente no longo prazo.
Isso significaria um impacto anual mais próximo de R$ 170 milhões a R$ 200 milhões.
Se essa leitura estiver correta, parte importante dos custos que assustaram investidores seria temporária.
O que aconteceu no balanço da Sabesp?
A Sabesp registrou lucro líquido contábil de R$ 1,46 bilhão no segundo trimestre de 2026.
O resultado representou queda de aproximadamente 31,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O lucro líquido ajustado ficou em aproximadamente R$ 1,15 bilhão, recuo de 41,2%.
Já o Ebitda ajustado alcançou cerca de R$ 3,5 bilhões, uma redução de 3,2% na comparação anual.
A receita, porém, continuou crescendo.
A receita líquida total chegou a aproximadamente R$ 10,2 bilhões, avanço de 13,9% sobre o segundo trimestre de 2025.
Portanto, a principal preocupação não foi uma queda abrupta do faturamento.
Foi a rentabilidade.
Custos cresceram mais rápido
Os custos e despesas operacionais avançaram aproximadamente 24,5% no trimestre.
Entre as razões estiveram investimentos na modernização do atendimento, efeitos inflacionários sobre insumos químicos e outras despesas operacionais.
A XP também chamou atenção para custos variáveis acima de suas estimativas.
Segundo a casa, o Ebitda ajustado de aproximadamente R$ 3,5 bilhões ficou cerca de 7% abaixo de sua projeção, pressionado também por despesas operacionais e inadimplência maiores.
A margem Ebitda ajustada caiu para aproximadamente 58%, recuo de 5,9 pontos percentuais.
Foi esse conjunto que provocou a forte reação do mercado.
Dívida da Sabesp chega a R$ 34 bilhões
Existe ainda outro ponto importante na equação.
A Sabesp encerrou junho com aproximadamente R$ 34 bilhões em dívida líquida.
Um ano antes, eram cerca de R$ 23 bilhões.
A relação entre dívida líquida e Ebitda chegou a 2,5 vezes.
O aumento do endividamento não acontece por acaso.
A companhia está acelerando investimentos de infraestrutura para cumprir suas metas de universalização do saneamento.
No primeiro semestre de 2026, os investimentos chegaram a aproximadamente R$ 7,5 bilhões, avanço de 15,6%.
A meta da empresa é investir aproximadamente R$ 20 bilhões ao longo de 2026.
Isso significa gastar muito dinheiro agora para tentar ampliar a operação e colher os benefícios nos próximos anos.
Universalização até 2029 é o grande projeto
A transformação da Sabesp gira principalmente em torno das metas de universalização de água e esgoto no Estado de São Paulo.
A companhia atende atualmente 376 municípios, fornecendo água a cerca de 30,6 milhões de pessoas e coleta de esgoto a aproximadamente 27,7 milhões.
A estratégia envolve investimentos bilionários até 2029.
É justamente por isso que o mercado acompanha tão de perto a execução do capex.
Se a Sabesp conseguir transformar esses investimentos em expansão da base atendida, eficiência e geração de caixa futura, a tese pode continuar funcionando.
Se os custos crescerem sem o retorno esperado, o cenário muda.
Itaú BBA acredita que mercado exagerou
Essa é a principal conclusão do relatório divulgado nesta segunda-feira.
O banco reconhece que as projeções de curto prazo pioraram.
Mas considera que a reação da ação foi grande demais diante da magnitude das alterações fundamentais.
O preço-alvo caiu apenas de R$ 34 para R$ 33,10.
Enquanto isso, o mercado eliminou aproximadamente R$ 17,5 bilhões do valor da companhia.
Para o BBA, o sell-off parece incorporar uma deterioração de rentabilidade e execução muito mais persistente do que aquela presente em suas próprias projeções.
Quanto SBSP3 teria que subir?
O preço-alvo de R$ 33,10 implica valorização próxima de 39% sobre o fechamento da última sexta-feira utilizado pelo Itaú BBA como referência.
Isso não significa que a ação irá atingir esse valor.
Preço-alvo é uma estimativa produzida a partir das premissas adotadas pelos analistas.
Se custos, investimentos, tarifas ou eficiência operacional evoluírem de forma diferente do esperado, o valuation também muda.
A recomendação é do Itaú BBA e não representa recomendação de investimento do Analistas.
Outros bancos também continuam otimistas
O Itaú BBA não é a única casa que ainda vê valor em SBSP3.
A XP, por exemplo, manteve recomendação de compra após os resultados e trabalhava com preço-alvo de R$ 38,30 para o final de 2026.
Já o Banco Safra também manteve visão positiva mesmo reconhecendo que o segundo trimestre apresentou pressão de custos e inadimplência.
Segundo o Safra, parte dos problemas observados no período possui caráter não recorrente e a tese de transformação operacional permanece de pé.
O consenso não elimina os riscos, mas mostra que a recente queda das ações abriu uma discussão importante sobre valuation.
A Sabesp ficou barata ou o mercado percebeu algo antes?
Esse é provavelmente o ponto central para quem acompanha SBSP3 agora.
Existem duas leituras.
Na primeira, o mercado exagerou.
Custos temporariamente elevados e ajustes na execução levaram investidores a precificar uma deterioração muito maior do que realmente ocorreu.
Essa é, essencialmente, a leitura do Itaú BBA.
Na segunda, a Bolsa está cobrando uma prova de que a transformação prometida depois da privatização será capaz de entregar eficiência suficiente para justificar os investimentos e o aumento da dívida.
E essa prova ainda precisa aparecer nos próximos balanços.
O que observar em SBSP3 agora?
Cinco indicadores devem ganhar ainda mais importância:
- evolução dos custos operacionais;
- redução das despesas consideradas não recorrentes;
- ritmo do capex;
- crescimento da dívida líquida;
- recuperação das margens.
Também será fundamental acompanhar se os investimentos começam efetivamente a produzir ganhos de eficiência.
A Sabesp está executando uma das maiores transformações de infraestrutura do país.
Por isso, pequenas mudanças nas premissas de eficiência possuem impactos bilionários no valuation.
Nesta segunda-feira, porém, o Itaú BBA colocou um número muito claro nessa discussão.
O banco calcula aproximadamente R$ 3,3 bilhões de perda econômica em suas novas premissas.
A Bolsa retirou cerca de R$ 17,5 bilhões.
Se essa diferença estiver exagerada, SBSP3 pode ter espaço relevante para recuperação.
Se o mercado estiver certo em antecipar problemas mais persistentes, os próximos resultados precisarão mostrar isso.
É essa disputa de narrativas que deve definir os próximos movimentos da ação.