Com a Bolsa brasileira travada na manhã desta sexta, os investidores tiveram de olhar para os recibos de ações negociados em Nova York. E lá, dois nomes deram o tom: o Santander disparou com uma oferta de compra, e a Braskem afundou após balanço fraco.
A pane que deixou a B3 fora do ar durante a manhã desta sexta-feira (31) criou uma situação inusitada: sem pregão no Brasil, o único termômetro do mercado passou a ser a Bolsa de Nova York. Por lá, os ADRs, os recibos que representam ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos, seguiram funcionando normalmente e serviram de referência para onde os papéis andariam por aqui.
E o destaque foi o Santander Brasil. Seu ADR disparou mais de 12% em Nova York, o maior avanço entre as empresas brasileiras. No extremo oposto, a Braskem (BRKM5) desabou mais de 7%, na maior queda do dia. Para entender o pano de fundo, vale conferir por que a B3 ficou mais de duas horas fora do ar em uma falha inédita.
Por que os ADRs viraram termômetro?
ADR é a sigla em inglês para recibo de ação estrangeira. Na prática, são papéis negociados na Bolsa americana que representam ações de empresas de fora dos EUA, como as brasileiras. Uma parte relevante das nossas maiores companhias, como Vale, Petrobras e os grandes bancos, tem ADRs por lá.
Quando a B3 está aberta, esses recibos costumam andar junto com as ações no Brasil. Mas, numa manhã como a desta sexta, com a Bolsa brasileira parada, eles se tornaram a única janela disponível para o investidor tentar prever o humor do mercado. Não é uma medida perfeita, mas é a melhor referência quando falta o pregão local.
Santander dispara com a oferta da matriz
O salto de mais de 12% do Santander não veio à toa. O movimento foi impulsionado por uma OPA (oferta pública de aquisição) proposta pela matriz espanhola do banco para comprar as ações que ainda não possui da operação brasileira.
Na prática, o controlador espanhol quer aumentar sua fatia, adquirindo os papéis que estão nas mãos de outros investidores, num movimento que pode encaminhar o fechamento de capital do Santander Brasil (SANB11). Quando surge uma oferta desse tipo, geralmente com um prêmio sobre o preço de mercado, as ações tendem a subir forte, exatamente o que se viu no ADR. Os detalhes e as condições da oferta, como preço e prazos, são o ponto que os acionistas de SANB11 devem acompanhar de perto nos próximos dias.
Braskem afunda com resultado fraco
Do outro lado, a Braskem foi a vilã do dia. O ADR da petroquímica caiu mais de 7% depois da divulgação de dados operacionais considerados fracos: as vendas recuaram no segundo trimestre, ainda que os spreads (a margem entre o preço de venda e o custo dos insumos) tenham melhorado.
A queda da Braskem contaminou nomes ligados, como a Cosan (CSAN3), que também recuou. Já a Vale (VALE3) teve baixa puxada pelo minério de ferro mais fraco e pela repercussão de seu balanço.
O que fica no radar
Com a B3 reaberta no início da tarde, a expectativa era ver se os preços por aqui confirmariam o que os ADRs anteciparam, especialmente o salto do Santander. Vale lembrar que os recibos são apenas uma referência, e não uma garantia de que a ação repetirá o mesmo desempenho no Brasil.
No radar dos próximos dias ficam dois pontos: os detalhes da oferta do Santander, que pode mudar a vida do acionista minoritário, e a confiança do investidor na infraestrutura da Bolsa, abalada após a falha da manhã. Foi um daqueles dias em que o mercado brasileiro precisou se enxergar pelo espelho de Nova York.