O Brasil tinha 1,96 milhão de trabalhadores de aplicativos em 2025. Eles trabalhavam, em média, 44,7 horas por semana, 5,4 horas a mais que os demais ocupados do setor privado, mas recebiam praticamente o mesmo valor mensal. A diferença derrubava em 12% o rendimento por hora do grupo ligado às plataformas digitais.
Os dados fazem parte de um levantamento divulgado nesta sexta-feira (4), elaborado a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. O número de pessoas que utilizavam plataformas para trabalhar cresceu 18,4% em relação a 2024, acréscimo de aproximadamente 305 mil profissionais.
Jornada maior, renda mensal quase igual
O rendimento mensal médio dos trabalhadores de aplicativos foi estimado em R$ 3.148. Entre os demais ocupados do setor privado, ficou em R$ 3.147. A proximidade entre os valores mensais esconde uma diferença relevante na quantidade de tempo necessária para alcançar essa renda.
Quem trabalhava por plataformas cumpria jornada semanal média de 44,7 horas, ante 39,3 horas dos demais profissionais. Quando a remuneração é distribuída pelas horas trabalhadas, o grupo dos aplicativos recebe menos.
Na comparação com 2022, a jornada média dos plataformizados diminuiu 1,7 hora por semana. A renda, porém, ficou praticamente estável entre 2022 e 2025, com variação de apenas 1%. No mesmo período, o rendimento dos demais ocupados avançou 10,6%.
Quase 2 milhões trabalham por plataformas
As plataformas correspondiam a 1,9% da população ocupada do país. Para 1,8 milhão de pessoas, o aplicativo era a atividade principal. Outros 182 mil utilizavam esse trabalho como fonte secundária de renda.
Os motoristas formavam o maior grupo. Cerca de 1,15 milhão de pessoas trabalhavam com transporte particular ou táxi intermediado por aplicativos. Entregas de alimentos e produtos reuniam 595 mil profissionais, enquanto plataformas de serviços gerais ou especializados alcançavam 313 mil.
As categorias podem se sobrepor, porque uma mesma pessoa pode utilizar mais de um tipo de plataforma. Por isso, a soma dos segmentos não deve ser tratada como uma contagem de indivíduos distintos.
Informalidade e Previdência
A informalidade atingia 72,1% dos trabalhadores de aplicativos, contra 42,7% entre os demais ocupados do setor privado. A diferença aparece também na proteção previdenciária. Dois em cada três profissionais vinculados às plataformas não contribuíam para a Previdência.
A ausência de contribuição pode afetar o acesso a aposentadoria e benefícios associados à incapacidade, maternidade ou morte. O trabalhador por conta própria pode contribuir individualmente, mas o enquadramento e a alíquota dependem da atividade e da forma de formalização.
O tema se relaciona ao debate sobre proteção de quem atua fora do emprego tradicional. O Analistas mostrou que o Congresso aprovou uma força-tarefa para reduzir a fila do INSS, enquanto o número de trabalhadores sem cobertura previdenciária continua sendo um desafio estrutural.
Por que os brasileiros recorrem aos aplicativos
A flexibilidade foi a justificativa mais citada, mencionada por 26,8% dos profissionais. A dificuldade para encontrar outro emprego apareceu em seguida, com 24,6%. Outros 20,8% disseram enxergar rendimento maior que o disponível em alternativas de trabalho.
O complemento de renda foi a razão apontada por 16,6%. Essa motivação era especialmente frequente entre quem mantinha o aplicativo como atividade secundária.
Perfil dos trabalhadores
Os homens representavam 84,4% do total, proporção superior aos 58,2% observados no conjunto dos ocupados. A maioria havia concluído o ensino médio ou iniciado o ensino superior sem completar a graduação.
O levantamento retrata o terceiro trimestre de 2025 e mede trabalho intermediado por plataformas digitais. Ele não permite concluir que todos os aplicativos adotem as mesmas condições ou que os rendimentos sejam idênticos em todas as cidades.
O principal dado é a diferença entre renda mensal e remuneração pelo tempo dedicado. Embora os valores mensais médios sejam semelhantes, o trabalhador de aplicativo precisa cumprir mais horas e enfrenta maior informalidade para alcançar esse resultado.