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Economia

85% via Pix e metade contra jovens: o raio-x da fraude no Brasil

Brasil teve 9 milhões de indícios de fraude no 1º semestre, alta de 10,26%. Mas o número pode ser boa notícia. Entenda o dado da Quod e saiba como se proteger.

Foto de Muniz
Por Fundador e Editor-chefe
Publicado em Atualizado às 15:15 de hoje
Fraude pix 2026

Foram 9 milhões de golpes em seis meses, 85% via Pix, quase metade contra jovens. Mas o "aumento de 10%" pode significar o oposto do que parece. Veja o que os números realmente dizem, e como se proteger.

O Brasil registrou mais de 9 milhões de indícios de fraudes financeiras no primeiro semestre de 2026, alta de 10,26% sobre os 8,26 milhões do segundo semestre de 2025. Os dados são de um levantamento da Quod, datatech de inteligência para o mercado de crédito, com base no Registro Unificado de Fraudes (Rufra).

O número impressiona. Mas antes de lê-lo como "os golpes aumentaram 10%", vale entender o que ele mede — porque a própria Quod diz que a interpretação intuitiva provavelmente está errada.

Por que "mais fraude registrada" pode ser boa notícia

O salto está atrelado a uma mudança de regra, não necessariamente a mais crime. Em janeiro entrou em vigor a Resolução 501 do Banco Central, que obrigou as instituições financeiras a compartilhar informações sobre golpes de forma muito mais ampla.

O efeito é estatístico: tentativas de fraude que antes passavam batidas, sem registro, agora entram numa base única. Ou seja, parte do "aumento" é fraude que sempre existiu e só agora aparece nos números.

Nas palavras de Danilo Coelho, diretor de produtos e dados da Quod, o avanço reflete o amadurecimento das defesas do sistema — instituições detectando e trazendo à tona golpes que antes ficavam subnotificados.

É a mesma lógica de quando uma cidade instala mais câmeras e os registros de furto sobem: nem sempre há mais furto, às vezes há mais captura do que já acontecia. Isso não significa que o problema seja pequeno. Significa que o número de 9 milhões provavelmente é mais próximo da realidade do que os dados de antes — e que o retrato anterior era otimista demais.

O retrato do golpe brasileiro

Os dados revelam onde e como o país é fraudado:

Onde acontece% dos casos

  1. Por celular - 78%
  2. Envolvendo conta corrente - 94%
  3. Via Pix - 85%
  4. Por engenharia social - 40%

A engenharia social, quando o golpista convence a própria vítima a entregar dados ou fazer a transferência, respondeu por 40% dos casos, mais de 3,6 milhões de ocorrências. É o dado mais importante da lista, e explica por que tecnologia sozinha não resolve: não há antivírus contra a manipulação de uma pessoa por outra.

Gráfico sobre fraudes no Brasil
Gráfico gerado pelo Portal Analistas com auxília de Inteligência Artificial

O Pix em 85% dos casos não significa que o Pix seja inseguro. Significa que ele é o meio de movimentação dominante no país e o dinheiro segue o caminho mais rápido, para o golpista tanto quanto para o consumidor honesto.

Quem é a vítima (e a resposta surpreende)

Existe um mito de que golpe financeiro é problema de idoso confuso com tecnologia. Os números dizem o contrário:

  • 49,06% das vítimas têm entre 18 e 34 anos
  • 29,98% têm entre 35 e 49 anos
  • Homens são 51%; mulheres, 48%
  • 58% recebem até dois salários mínimos
  • 3,1 milhões de pessoas foram vítimas no semestre
  • Cerca de 799 mil caíram em golpe duas vezes ou mais

O jovem, nativo digital e confiante no celular, é justamente quem mais cai. A familiaridade com a tecnologia vira excesso de confiança. E a concentração entre quem ganha menos mostra o tamanho do estrago social: para quem vive com dois salários mínimos, um golpe não é transtorno, é o mês inteiro.

A reincidência de 799 mil pessoas é o dado mais desconfortável. Cair uma vez pode ser azar; cair de novo sugere que as vítimas não recebem, depois do primeiro golpe, orientação suficiente para se proteger do segundo.

Leia também: Por que os EUA vê o pix como ameaça?

Como não cair: o básico que funciona

A Quod resume a defesa em três hábitos, e todos atacam a engenharia social, que é o vetor de 40% dos casos:

  1. Não tome decisão financeira com pressa, ainda mais durante o expediente, quando a atenção está dividida. Urgência é a principal ferramenta do golpista, "resolva agora ou perde" é o roteiro
  2. Não clique em links recebidos por mensagem. Banco de verdade não manda link para você acessar a conta
  3. Nunca empreste a conta bancária para receber ou repassar valores de terceiros. Isso transforma a vítima em laranja, com consequências criminais

Vale um quarto, que a engenharia dos golpes torna essencial: desconfie de qualquer contato que peça sigilo ou diga para não comentar com o gerente, com a família ou com a polícia. O isolamento da vítima é parte do golpe.

Passo a passo completo, com todos os prazos e o que fazer se o banco negar: Caiu em golpe no Pix? O guia para tentar recuperar o dinheiro

O que fica no radar

O dado da Quod tende a piorar antes de estabilizar não porque o crime vá explodir, mas porque a Resolução 501 ainda está sendo absorvida, e a base de registro vai ficando mais completa a cada semestre. Nos próximos relatórios, um número maior pode significar, de novo, mais captura e não mais crime. O desafio será separar as duas coisas.

Para o consumidor, a lição atravessa a estatística: o golpe brasileiro é digital, passa pelo Pix e ataca pela conversa, não pelo sistema. A defesa mais eficaz não é técnica é a pausa antes de agir.

Foto de Muniz
Escrito por Fundador e Editor-chefe

Muniz é o fundador e editor-chefe do portal Analistas. Empreendedor digital e especialista em tecnologia voltada para o mercado financeiro, é o desenvolvedor por trás de plataformas de dados como o Ações Capital. Lidera a visão editorial e a infraestrutura tecnológica do Analistas, unindo entrega de cotações em tempo real e rigor analítico para democratizar a informação no mercado brasileiro.

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