As empresas já protocolaram R$ 18,4 bilhões em pedidos de crédito. O programa inteiro tem R$ 21 bilhões. E quem está na fila não é exatamente quem você imagina.
O BNDES pediu ao Ministério da Fazenda a liberação de mais R$ 7,25 bilhões para reforçar as linhas de crédito criadas pelo governo federal em socorro às empresas atingidas pelas tarifas americanas. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, o pedido foi encaminhado à Secretaria do Tesouro Nacional na terça-feira (14).
O dinheiro iria para o FGE (Fundo de Garantia à Exportação), que financia o Plano Brasil Soberano.
A conta que explica a pressa
O programa é grande, mas a fila é maior:
- Até R$ 15 bilhões do Tesouro
- Mais R$ 6 bilhões de recursos próprios do BNDES
- Capacidade total: R$ 21 bilhões
- Já liberados pelo Tesouro: cerca de R$ 7,75 bilhões
- Pedidos já protocolados pelas empresas: R$ 18,4 bilhões
Ou seja, a demanda das empresas está a poucos bilhões de esgotar a capacidade inteira do programa. Daí o pedido de antecipação da segunda parcela.
Segundo o diretor de planejamento e relações institucionais do BNDES, o ex-ministro Nelson Barbosa, a liberação é necessária diante da "demanda adicional prevista" pelas linhas de financiamento.
O banco faz questão de dizer que isso não estoura o Orçamento. Em nota à imprensa, afirmou não se tratar de recursos novos, e sim de medida operacional para atender projetos já protocolados dentro de um programa em curso.
Quem está na fila (e a surpresa)
Aqui está o dado mais interessante, e o que mais contraria a intuição.
Os setores mais atingidos pela sobretaxa de 25% são os suspeitos de sempre: etanol, aço, calçados, máquinas agrícolas, vestuário, papel. Mas, segundo a apuração da Folha, a maior parte da demanda por crédito vem de outro lugar:
- Alimentos
- Fármacos
- Fertilizantes
- Minerais críticos
- Máquinas e equipamentos
Não é a mesma lista. E a diferença importa: quem grita não é necessariamente quem apanha. Vale lembrar que o Plano Brasil Soberano não foi desenhado só para o tarifaço — ele também atende empresas afetadas pela guerra no Oriente Médio e setores da indústria que precisam de ajuda para equilibrar a balança comercial.
Como o dinheiro chega na ponta
O mecanismo tem três degraus:
- O Tesouro transfere os recursos ao BNDES
- O BNDES usa esse dinheiro para conceder empréstimos às empresas que atendam aos critérios
- As empresas usam para capital de giro operacional, capital de giro para exportação, investimento em expansão e compra de bens de capital
A fonte é o FGE, um fundo que tradicionalmente serve para dar garantia a operações de crédito à exportação, reduzindo o risco dessas operações para o governo. Uma mudança na legislação abriu caminho para que esses recursos abastecessem também o Brasil Soberano, com juros mais acessíveis.
A intenção é evitar que empresas atingidas pelas barreiras parem investimentos, cortem produção ou quebrem o caixa.
O contexto: por que o socorro virou urgente
O Plano Brasil Soberano nasceu depois que Donald Trump anunciou a elevação de tarifas sobre produtos brasileiros. Nesta semana, os EUA oficializaram a sobretaxa de 25% com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — medida que o governo brasileiro respondeu acionando a Lei de Reciprocidade e o mecanismo de solução de controvérsias da OMC.
Empresários e entidades de comércio exterior vinham alertando que a alta das tarifas poderia provocar perda de competitividade, cancelamento de contratos e queda nas exportações. O crédito subsidiado é a tentativa de amortecer isso — e o mercado já sentiu o baque, com o Ibovespa fechando em queda com o tarifaço no radar.
O que fica no radar
A bola está com a Fazenda. As equipes técnicas do Tesouro e do BNDES analisam a liberação e recalculam o montante necessário.
O problema é o relógio. Contrato cancelado não espera despacho administrativo, e a demanda de R$ 18,4 bilhões já quase encosta no teto de R$ 21 bilhões do programa. Se a segunda parcela demorar, a fila para de andar.