O Planalto chamou o dia 15 de julho de "marco lastimável", anunciou duas frentes de resposta e apontou o dedo para a família Bolsonaro. O senador rebateu no mesmo dia. Entenda os dois lados e os números da disputa.
O governo brasileiro divulgou na madrugada desta quinta-feira (16) uma nota à imprensa em resposta à decisão americana de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, anunciada na quarta (15) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Veio por meio do X (twitter) do Presidente Lula.
O texto, assinado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, abre com uma frase que define o tom: "O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável".
A resposta anunciada tem duas frentes simultâneas:
- Lei de Reciprocidade: o Brasil "iniciará imediatamente os trâmites" para acionar os instrumentos da lei, aprovada por unanimidade no Congresso
- OMC: o tema será retomado no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio
Os números da defesa brasileira
A nota constrói o argumento em cima de estatísticas americanas. Segundo o comunicado:
- Nos últimos 15 anos, os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões de superávit em bens e serviços com o Brasil
- Em 2025, 76% das importações vindas dos EUA entraram no Brasil sem pagar imposto de importação
- A alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos americanos foi de apenas 3,1%
Nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, afirma o governo, 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e americano foram contrárias ao tarifaço.
Pix e desmatamento no centro da briga
O comunicado responde ponto a ponto às alegações da investigação americana. Sobre o sistema de pagamentos, o texto sustenta que as acusações são descabidas e classifica o Pix como patrimônio do povo brasileiro e referência internacional de infraestrutura pública digital — assunto que já vinha incomodando o setor financeiro americano.
Sobre a regulação de plataformas digitais, a nota afirma que o Brasil não vai abdicar de proteger famílias e crianças "contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas", e que liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. Já as acusações sobre desmatamento são chamadas de absurdas, com o governo alegando redução da devastação em todos os biomas a partir de 2023.
A parte política: acusação e resposta
O trecho final da nota é o mais duro. O governo afirma que o desfecho das investigações faz parte de um enredo construído com a "ativa colaboração da família Bolsonaro", chamando-os de "falsos patriotas" movidos por objetivos eleitoreiros. E completa: "Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições".
O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) rebateu no mesmo dia. Em entrevista ao Flow Podcast, atribuiu o tarifaço ao próprio governo Lula: disse que estava nos EUA tentando evitar a medida enquanto, segundo ele, o presidente preferiu provocar Trump, e contabilizou mais de 62 ocasiões em que Lula teria atacado o presidente americano ou os EUA.
Do lado americano, o secretário de Estado Marco Rubio publicou no X que Trump determinou a tarifa porque, na sua avaliação, o governo Lula não negociou de boa-fé, e afirmou que o presidente brasileiro teria colocado o próprio ego acima de um acordo.
Vale o registro de contexto: o senador participou de audiência do USTR com representantes do setor privado antes da aplicação da medida.
O que ficou de fora e o que ainda vem
Nem tudo foi taxado. Aeronaves, óleo, café e carne ficaram fora da tarifa, conforme apurou a Agência Brasil. A exceção do café coincide com a projeção do IBGE de safra recorde do grão em 2026.
O governo também informou que manterá o Plano Brasil Soberano, de proteção aos setores afetados, e seguirá diversificando parcerias, citando os acordos do Mercosul com União Europeia, Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura.
Um detalhe pouco comentado: o Brasil ainda aguarda a conclusão de uma segunda investigação americana, que sugere uma nova taxa de 12,5% sobre produtos nacionais. Ou seja, a conta pode não ter fechado.
O que fica no radar
A tarifa vale para mercadorias importadas ou retiradas de armazéns para consumo a partir da data de vigência. No mercado, o susto já apareceu antes mesmo da confirmação: o Ibovespa fechou a quarta em queda, com o tarifaço no radar. Agora, o que importa é o prazo dos trâmites da reciprocidade, a lista de produtos americanos que pode entrar na mira e o desfecho da segunda investigação.