O banco anunciou uma injeção de até R$ 10 bilhões em capital novo, com os controladores bancando a maior parte, e adiantou o pagamento de proventos. A ação caiu, e o mercado se dividiu entre ver oportunidade ou sinal de cautela.
O Bradesco (BBDC4) surpreendeu o mercado com um pacote financeiro de peso, anunciado na noite de quarta-feira (29). O banco vai realizar um aumento de capital de até R$ 10 bilhões, com a emissão de novas ações, e ainda antecipou o pagamento de R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio (JCP), uma forma de remunerar os acionistas.
O anúncio pegou parte dos investidores no contrapé. O motivo: o próprio banco vinha dizendo, em conversas com analistas, que seu nível de capital era confortável. Somado ao fato de a novidade ter vindo a poucos dias da divulgação do balanço do segundo trimestre, marcada para a próxima quarta (5), o movimento gerou desconfiança. As ações preferenciais (BBDC4) caíam cerca de 2,5% na manhã desta quinta-feira (30).
O que o banco vai fazer, na prática
A operação tem duas pernas. A primeira é a captação de dinheiro novo via emissão de até 604,9 milhões de novas ações, oferecidas primeiro aos atuais acionistas. Os preços foram fixados em R$ 15,43 para cada ação ordinária (BBDC3) e R$ 17,64 para cada preferencial (BBDC4), um desconto de cerca de 4% em relação ao fechamento anterior.
O ponto mais relevante é quem vai bancar a conta. Os controladores do banco, ligados à família do fundador Amador Aguiar, se comprometeram a colocar até R$ 8 bilhões, o mínimo necessário para a operação sair do papel. Esse valor equivale a cerca de 80% da oferta, bem acima da fatia de 37% que eles detêm no capital total. Na leitura do mercado, esse compromisso é um forte voto de confiança da casa no próprio negócio.
A segunda perna é a antecipação dos R$ 6,5 bilhões em JCP, que serão pagos em 15 de setembro. E há um detalhe esperto: o banco vai permitir que o acionista use justamente esse dinheiro dos proventos para pagar as novas ações, facilitando a adesão.
Por que o Bradesco está fazendo isso?
O objetivo central é reforçar o capital do banco, deixando-o mais robusto para enfrentar tempos incertos e financiar o crescimento. Em termos técnicos, a operação melhora o chamado patrimônio tangível (a parte do patrimônio que pode virar caixa de verdade) e eleva o índice de capital principal, um indicador de solidez que os reguladores acompanham de perto. Segundo estimativas de mercado, esse índice sairia de 12,7% para cerca de 13,6% caso a oferta seja totalmente subscrita.
O reforço acontece depois da reorganização dos negócios de saúde do grupo na BradSaúde e, na visão de analistas, tende a tirar o banco de uma situação de aperto de capital.
Oportunidade ou proteção? Os analistas se dividem
Aqui o mercado racha ao meio, e vale mostrar os dois lados.
A visão mais otimista enxerga a jogada como inteligente: o Bradesco estaria aproveitando um momento ainda favorável, com forte apoio dos controladores, para ganhar flexibilidade e acelerar investimentos que sustentem o lucro no futuro. Para um analista do Itaú BBA, o compromisso dos controladores de subscrever bem mais do que sua fatia é um claro sinal de confiança no banco.
A visão mais cautelosa vê o copo meio vazio. Parte dos investidores teme que o banco esteja se antecipando porque enxerga um cenário difícil pela frente, com os juros altos (a Selic está em 14,25% ao ano) elevando o risco de calotes num possível ciclo de inadimplência. Esse pano de fundo aparece nas contas semanais do mercado, que seguem de olho no rumo da inflação e da Selic. Há ainda quem cite dois outros motivos: a pressa de captar antes da volatilidade típica de ano eleitoral e a chance de acelerar o uso de créditos tributários acumulados.
E o acionista, o que precisa saber?
Para quem tem ações do Bradesco, o calendário é o que importa. Terão direito de preferência os acionistas posicionados em 4 de agosto. A partir de 5 de agosto, as ações passam a ser negociadas sem esse direito. O período para subscrever as novas ações vai de 6 de agosto a 4 de setembro.
Cada acionista poderá comprar novas ações equivalentes a cerca de 5,7% da posição que tinha. Quem exercer o direito integralmente não perde participação. Já quem optar por ficar de fora pode sofrer uma diluição de até 3,4%, ou seja, passar a deter uma fatia um pouco menor do banco.
O que fica no radar
O próximo grande teste é o balanço do segundo trimestre, na quarta-feira (5), que vai ajudar a esclarecer se o reforço de capital é mesmo estratégia de crescimento ou blindagem contra tempos ruins. Também será importante acompanhar a adesão dos pequenos investidores à oferta e como a ação reage depois do susto inicial.
No fim das contas, o Bradesco colocou na mesa uma aposta de bilhões respaldada pela família controladora. Se vai se revelar oportunidade ou proteção, os resultados dos próximos trimestres é que vão dizer.