A entidade planeja abrir o capital do negócio que controla os direitos da Copa do Mundo. A União Europeia acendeu o alerta da concorrência e a UEFA reagiu com fúria, falando até em boicote.
A FIFA anunciou nesta semana um dos planos mais polêmicos de sua história: criar uma empresa para reunir toda a operação comercial da Copa do Mundo e vender uma fatia dela a investidores privados. A reação foi imediata. A União Europeia avisou que pode investigar o negócio, e a UEFA, que comanda o futebol europeu, acusou a FIFA de estar "vendendo o futebol".
A nova companhia se chamaria FIFA Forward Enterprise (FFE) e teria valor inicial estimado em US$ 20 bilhões. A ideia é juntar num só lugar os direitos de transmissão, patrocínio, licenciamento e venda de ingressos, além da organização de torneios como as Copas masculina e feminina e o Mundial de Clubes.
O que exatamente a FIFA quer fazer?
Na prática, a FIFA quer transformar sua "galinha dos ovos de ouro" em um ativo negociável. O plano é vender participações minoritárias, sem poder de controle, para levantar até US$ 4,2 bilhões com investidores de longo prazo ainda neste ano.
A entidade promete que o dinheiro vira desenvolvimento do esporte: mais de US$ 10 bilhões em financiamento ao futebol nos próximos quatro anos, com direito a repasses opcionais de até US$ 20 milhões para cada uma das 211 federações filiadas, por meio de um novo programa batizado de Fast Forward.
A FIFA faz questão de repetir que continuaria dona da FFE e com controle total sobre governança, regras, calendário e decisões esportivas. Segundo a entidade, os investidores não teriam voz nesses assuntos. O plano ainda precisa passar pelo conselho da FIFA e ser aprovado pela maioria das federações.
Quem entraria com o dinheiro?
Aqui mora parte da polêmica. O nome mais cotado para liderar o grupo de investidores é a Thrive Eternal, firma de Joshua Kushner, cujo irmão, Jared Kushner, é casado com a filha do presidente americano Donald Trump. O banco JPMorgan estaria assessorando a operação, com o ex-executivo da Liberty Media Greg Maffei como conselheiro comercial.
A proximidade dos investidores com o círculo de Trump joga lenha na fogueira em um momento já sensível na relação dos EUA com outros países, incluindo o Brasil, alvo de ordens do governo americano. Vale lembrar: os investigados e envolvidos têm direito de se manifestar, e até aqui não há qualquer irregularidade comprovada no plano.
Por que Europa e UEFA reagiram tão mal?
A UEFA soltou uma nota dura, dizendo que a proposta cruza uma linha que o futebol nunca deveria cruzar. Resumiu a revolta em uma frase: o futebol não é da FIFA para vender. Federações europeias já estudam uma reunião de emergência, e a possibilidade de boicote à Copa entrou na conversa.
Do lado da União Europeia, o comissário de Esporte e Cultura, Glen Micallef, foi público ao criticar o que chamou de comercialização "corrosiva" do esporte. Mais grave para a FIFA: segundo a Bloomberg, autoridades europeias avaliam que o desenho do negócio pode esbarrar em leis de concorrência do bloco, o que abriria caminho para uma investigação formal.
Não é a primeira vez que uma ideia parecida naufraga. Em 2019, um plano de US$ 25 bilhões de investimento privado apoiado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, foi barrado. Desta vez, críticos ouvidos pela imprensa internacional classificaram a proposta como algo potencialmente pior do que a fracassada Superliga Europeia.
O que fica no radar
O plano está longe de ser aprovado. Ele depende do aval do conselho da FIFA e da maioria das federações, e já nasce sob fogo cruzado de Europa, ex-dirigentes e torcedores. Os próximos capítulos incluem a reunião de emergência das federações europeias e a resposta da FIFA às ameaças de investigação.
No fundo, a briga é sobre quem manda no esporte mais popular do planeta e quanto ele pode ser tratado como negócio. Para o investidor que acompanha o tema, fica o alerta: mexer na Copa do Mundo é mexer em um dos ativos de mídia mais valiosos do mundo e a conta política pode sair cara.