A crise do ICL virou barulho de bastidor. Mas o número no centro dela — R$ 43,6 milhões distribuídos antes da taxação — é a versão com nome e sobrenome de um movimento que tirou R$ 315 bilhões do alcance do Fisco em 2025.
Em 2025, as empresas listadas na B3 distribuíram R$ 315 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio. O volume se concentrou no quarto trimestre, e o motivo não era generosidade: era o relógio. A partir de 1º de janeiro de 2026, dividendos passaram a ser tributados.
Esse movimento foi noticiado em bilhões abstratos. Agora ele ganhou um rosto, um CNPJ e uma ata.
Os números do ICL
Documentos revelados pelo Diário do Centro do Mundo (DCM) mostram que os sócios do Instituto Conhecimento Liberta distribuíram entre si R$ 43.665.886,47 em lucros dos exercícios de 2024 e 2025.
O lucro de 2024 foi de R$ 5.471.893,56 e de 2025 de R$ 38.193.992,91, no total foi distribuído R$ 43.665.886,47.
Eduardo Moreira, que detém 57,48% da empresa ficou com R$ 25.099.151,54 e Rafael Donatiello (38,32%) com R$ 16.732.767,70 e o restante dividido entre os seis sócios (3,7% somados).
Repare: a soma dos lucros de 2024 e 2025 bate exatamente com o valor distribuído. Foi 100% do lucro acumulado para fora do caixa.
Moreira confirmou, e explicou
Em vídeo publicado nas redes sociais, com os comentários desativados, o fundador do ICL confirmou a antecipação. Disse que o caixa da empresa foi todo distribuído aos sócios no ano passado por causa da mudança tributária, e que a manobra evitou "pagar indevidamente mais de 5 milhões" em impostos e tributos.
Na mesma fala, afirmou que sempre defendeu a tributação de dividendos e que a considera correta.
Ele acrescentou que os sócios que permaneceram vão usar o dinheiro distribuído para pagar custos da empresa nos próximos anos, enquanto os que saíram ficam com o que já embolsaram.
O que a lei permitia (e permite)
Aqui está o ponto que define a história: nada disso é ilegal.
A Lei nº 15.270/2025, sancionada em novembro de 2025, retomou depois de quase três décadas a tributação sobre lucros e dividendos. A regra:
- Dividendos pagos por uma mesma empresa a uma mesma pessoa física que superem R$ 50 mil em um mês sofrem retenção de 10% na fonte
- Vale a partir de 1º de janeiro de 2026
- Mas os lucros cuja distribuição fosse aprovada em assembleia até o prazo legal seguem isentos, mesmo que pagos depois — até 2028
- O prazo original era 31 de dezembro de 2025, e foi esticado até 31 de janeiro de 2026 por decisão do ministro Nunes Marques, do STF
Ou seja, a lei criou uma janela. E o Brasil corporativo inteiro passou por ela.
O tamanho da corrida
Os efeitos foram macroeconômicos, não anedóticos:
- R$ 315 bilhões distribuídos pelas empresas de capital aberto em 2025, concentrados no 4º trimestre
- A arrecadação federal ficou muito abaixo do projetado. A equipe econômica esperava arrecadar R$ 30 bilhões com a nova tributação em 2026
- De janeiro a abril de 2026, a distribuição de proventos caiu 27% ante o mesmo período do ano anterior: R$ 117 bilhões, contra mais de R$ 160 bilhões
Se você tem carteira de dividendos e achou que a torneira secou neste ano, aí está a explicação. O dinheiro não sumiu: foi antecipado.
O ICL, nesse retrato, é uma empresa média fazendo exatamente o que fizeram a Petrobras, os bancos e o vizinho dono de uma padaria com boa contabilidade.
A parte incômoda: a sequência
O que transformou um caso de planejamento tributário em crise pública não foi a manobra. Foi a ordem dos fatos.
10 de julho: o diretor de jornalismo Leandro Demori é demitido. Em carta ao conselho editorial, que vazou, ele afirmou que a empresa passava por problemas financeiros e que a alta gestão pedira corte de 30% na área de jornalismo, com extinção da própria diretoria.
13 de julho: Moreira atribui a saída à necessidade de reequilibrar as contas, cita prejuízo acumulado no ano e culpa o custo de anúncios em Meta e Google.
Em seguida: vêm a público os documentos da distribuição dos R$ 43,6 milhões.
Depois de Demori, saíram o CEO Thiago Guedes, o comentarista César Calejon — que disse deixar o projeto de coração partido — e nomes como Adriana Ferreira, Nina Lemos, Alice Maciel, Pedro Barciela, Eduardo Souza, Thiago Barcellos e Juliana Zaroni.
Há três números circulando sobre o tamanho do corte, e vale registrar quem diz o quê:
- Demori, na carta: pedido de corte de 30% do jornalismo
- Moreira, no vídeo: 15 desligamentos em mais de 350 funcionários, ou cerca de 4% do quadro
- Sindicato dos Jornalistas de SP: fala em 11 profissionais e classifica como dispensa coletiva
O sindicato, presidido por Thiago Tanji, enviou ofício pedindo reunião de urgência com a direção.
A defesa de Moreira
O fundador do ICL sustenta que a empresa apenas ajustou o tamanho à capacidade financeira. Segundo ele, o jornalismo custou R$ 8 milhões em 2024, subiu para R$ 14 milhões em 2025 e tinha projeção de R$ 22 milhões neste ano — e a área não tem receita de publicidade privada, de governos, de estatais ou de monetização.
Moreira também negou qualquer censura, afirmando que nenhuma voz foi ou será calada na empresa, criticou o vazamento de uma comunicação interna do conselho editorial e pediu o fim dos ataques à sua mulher, Juliana Baroni. Disse ainda que o ICL tem mais de R$ 100 milhões em compromissos para os próximos dois anos.
O contraste que o próprio arquivo registra
Moreira construiu parte da sua audiência criticando exatamente esse tipo de distribuição. Conforme registrou a revista Crusoé, ele já comentou publicamente o lucro trimestral de R$ 45 bilhões da Petrobras e o anúncio de quase R$ 50 bilhões em dividendos, dizendo ser duro ouvir aquilo.
Os fatos estão os dois na mesa. A conclusão é do leitor.
As perguntas que ainda não têm resposta
Três, e nenhuma é retórica:
1. Por que R$ 5 milhões? A alíquota anunciada é de 10%. Sobre R$ 43,66 milhões, daria cerca de R$ 4,37 milhões. Moreira fala em "mais de 5 milhões em impostos e tributos". A diferença pode vir de outras incidências, mas a conta, na régua simples, não fecha.
2. Como o dinheiro volta? Moreira disse que os sócios remanescentes usarão os valores distribuídos para bancar custos futuros do ICL. Se o caixa saiu como lucro isento e retorna à empresa, retorna como o quê — empréstimo de sócio, aumento de capital, adiantamento para futuro aumento de capital? Cada formato tem tratamento tributário próprio.
3. E a nova sede? Moreira anunciou a compra de um imóvel para abrigar estúdios, redação e um teatro, afirmando que sairá do bolso dele e de Donatiello, não do caixa do ICL. É verdade — o caixa do ICL já tinha saído antes, para o bolso deles.
O que fica no radar
Para o leitor investidor, a lição do caso é maior que a briga: a janela da Lei 15.270 se fechou, e lucros aprovados dentro do prazo ainda podem ser pagos sem imposto até 2028. Ou seja, parte da distribuição que parece "generosa" nos próximos dois anos é, na verdade, dinheiro que já venceu o Fisco em 2025.
A crise do ICL segue aberta, com o sindicato cobrando reunião. Mas o número que importa não é o dele: é o R$ 315 bilhões.
Documentos revelados pelo Diário do Centro do Mundo. Com informações do Brasil 247, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, da Crusoé, da Gazeta do Povo e da Istoé Dinheiro.