Depois de um dia de alívio, os juros pagos pelos títulos públicos voltaram a subir nesta quinta-feira, com os prefixados perto de 14,7%. O motivo está lá fora: o mercado global desconfiou de uma intervenção do governo americano. Entenda o que isso tem a ver com o seu investimento.
O alívio durou pouco. As taxas do Tesouro Direto, os juros pagos pelos títulos públicos, voltaram a subir nesta quinta-feira (20), devolvendo parte da queda registrada no dia anterior. O movimento foi puxado pelos títulos prefixados, e a origem do nervosismo não está no Brasil, mas nos Estados Unidos.
Na prática, os prefixados voltaram a rondar os 14,7% ao ano. O Tesouro Prefixado 2032, por exemplo, subiu de 14,68% para 14,73%. Já os títulos atrelados à inflação (os IPCA+) tiveram alta bem mais tímida, com o IPCA+ 2050 indo de 7,31% para 7,34% ao ano. Pode parecer pouco, mas cada centésimo faz diferença no bolso do investidor de longo prazo.
Por que uma medida dos EUA mexe com o Tesouro no Brasil?
Essa é a pergunta central, e a resposta ajuda a entender como o mundo financeiro é interligado. Nos últimos dias, os juros dos títulos de longo prazo dos Estados Unidos dispararam. O papel de 30 anos do Tesouro americano chegou a pagar 5,33%, o maior patamar desde 2007.
Para conter essa alta, o Tesouro dos EUA anunciou que vai, no mínimo, dobrar o tamanho de suas operações de recompra de títulos, uma forma de injetar dinheiro e acalmar o mercado. Acontece que os juros americanos são a principal referência do planeta: quando eles sobem, puxam para cima os juros de praticamente todos os países, inclusive os do Brasil. É por isso que o sobe e desce em Nova York respinga diretamente nas taxas do nosso Tesouro Direto.
Por que o mercado não "comprou" a intervenção
A medida americana chegou a funcionar por um dia, derrubando os juros na quarta-feira. Mas o efeito logo se dissipou, e a explicação é importante. Segundo analistas, a intervenção ataca um problema de liquidez (a falta de compradores no momento), mas não resolve a causa mais profunda que empurra os juros para cima.
Como resumiu um estrategista ouvido pela agência Bloomberg, a medida deve funcionar apenas como um "circuit breaker", um freio de emergência temporário, insuficiente para conter a alta dos rendimentos. Não à toa, gestoras internacionais como a Franklin Templeton seguem evitando os títulos mais longos, apostando que os juros vão continuar pressionados.
A raiz do problema: o rombo fiscal americano
O que realmente assombra o mercado é a saúde das contas públicas dos Estados Unidos. O déficit do país (quando o governo gasta mais do que arrecada) saltou para US$ 432,3 bilhões só em julho, o maior valor mensal em anos. No acumulado do ano, o rombo já beira os US$ 1,8 trilhão.
A dívida americana se aproxima dos assustadores US$ 40 trilhões, e apenas os juros para financiá-la já custaram cerca de US$ 1,2 trilhão neste ano. Enquanto esse quadro fiscal não melhorar, os investidores vão exigir juros cada vez mais altos para emprestar dinheiro ao governo dos EUA, mantendo a pressão sobre as taxas no mundo todo. É a mesma lógica que, aqui no Brasil, faz a dívida pública crescer e pressionar os juros.
O que isso significa para o seu investimento?
Aqui está a parte prática. Para quem quer investir agora, taxas mais altas podem soar como uma boa notícia: significa que dá para "travar" um rendimento maior, comprando um prefixado a quase 15% ao ano ou um IPCA+ pagando mais de 8% acima da inflação, o que é considerado historicamente atrativo por muitos investidores.
Mas há um alerta para quem já tem esses títulos. Por causa da chamada "marcação a mercado", quando as taxas sobem, o preço dos títulos prefixados e IPCA+ cai no curto prazo. Ou seja, se você precisar vender antes do vencimento, pode ter prejuízo. Quem leva o título até o final, porém, recebe exatamente a taxa contratada. Vale lembrar que o Tesouro Selic, mais conservador, não sofre com essa oscilação. Este texto é informativo e não constitui recomendação de investimento.
O que fica no radar
A volatilidade dos juros globais deve continuar enquanto persistirem as dúvidas sobre o quadro fiscal das grandes economias. Os investidores seguirão de olho nos próximos passos do Tesouro e do Federal Reserve, o banco central americano.
Por aqui, o cenário tem um contrapeso positivo: o Banco Central brasileiro iniciou um ciclo de corte da Selic, hoje em 14%, com a inflação em desaceleração. É um cabo de guerra: de um lado, os juros lá fora pressionam para cima; de outro, a melhora doméstica abre espaço para quedas. Para o investidor, fica a lição de sempre: em tempos de incerteza, entender o que se está comprando é o melhor escudo.