Sete em cada dez heranças somem antes de completar o ciclo familiar, e o Brasil tem no ex-homem mais rico do país o retrato perfeito de como bilhões viram pó em pouco tempo.
Poucas histórias resumem tão bem a fragilidade do dinheiro quanto a de Eike Batista. Em 2012, ele tinha um patrimônio estimado pela Forbes em US$ 30 bilhões e era a sétima pessoa mais rica do planeta. Menos de dois anos depois, chegou a declarar patrimônio líquido negativo. As ações da OGX, o coração do seu império, saíram de um pico acima de R$ 23 para R$ 0,13 em outubro de 2013, arrastando as demais empresas do grupo num efeito dominó.
O caso é extremo, mas não é uma exceção. Ele apenas escancara um fenômeno que atinge a imensa maioria das fortunas do mundo, ricos e remediados, e que tem até nome popular.
O que é a "regra das três gerações"?
Existe um ditado que aparece em várias culturas: "pai rico, filho nobre, neto pobre". A ideia é que a primeira geração constrói a riqueza no sacrifício, a segunda desfruta dela e a terceira dilapida o que sobrou. Nos Estados Unidos, o mesmo conceito é conhecido como "da fartura ao trabalho braçal em três gerações".
Não é só folclore. Os números por trás dele são duros:
- Cerca de 70% das transições de patrimônio fracassam, segundo levantamentos citados por consultorias como a McKinsey.
- Ao fim da terceira geração, estima-se que nove em cada dez fortunas familiares já desapareceram.
- Quando a riqueza se perde na passagem de bastão, a maior parte dos casos não tem causa técnica ou tributária. Um estudo do The Williams Group aponta que cerca de 60% das falhas vêm de falta de comunicação e de confiança dentro da família.
Ou seja: a herança raramente é destruída por um contrato mal redigido. Ela costuma ruir por um almoço de domingo mal resolvido.
Por que o dinheiro escorre entre os dedos?
O mecanismo é quase sempre o mesmo. Quem constrói a fortuna aprende, no susto, o valor de cada centavo. Os filhos já crescem com conforto. Os netos chegam completamente descolados do esforço que gerou aquele patrimônio, sem terem passado pela experiência de ganhar, perder e administrar dinheiro de verdade.
Some-se a isso três armadilhas clássicas:
- Excesso de confiança do fundador. No caso de Eike, vários projetos imaturos avançaram ao mesmo tempo, sem geração de caixa suficiente para sustentá-los quando o mercado virou.
- Consumo maior que a renda. Estilo de vida de bilionário, coleções de carros de luxo e gastos que só se sustentam enquanto os ativos valorizam.
- Falta de diversificação e de disciplina. Concentrar tudo em uma aposta, sem uma base sólida e previsível, transforma qualquer solavanco em catástrofe.
É por isso que muita gente com patrimônio muito menor sobrevive melhor a crises do que fortunas bilionárias mal estruturadas. Não é sobre quanto se ganha, e sim sobre como se protege.
Dá para fugir dessa maldição?
Sim, e é aqui que a história deixa de ser fofoca sobre ricos e vira lição prática. Especialistas em empresas familiares, como o professor John A. Davis, do MIT, lembram que a regra descreve a maioria dos casos, mas não é uma sentença. Famílias que atravessam gerações têm alguns pontos em comum, e todos são copiáveis por quem ganha bem menos que Eike Batista.
O primeiro é tratar dinheiro como assunto de família, com conversas honestas sobre valores, e não como tabu. O segundo é ensinar a próxima geração a lidar com o patrimônio antes de recebê-lo, dando autonomia e deixando que aprenda com erros pequenos. O terceiro é encarar a riqueza como algo para investir, e não apenas gastar.
Na prática financeira, isso significa preferir ativos que preservem e multipliquem o dinheiro no tempo em vez de apostas de tudo ou nada. É o oposto da lógica do cassino, tanto que aposta não é investimento, como o próprio mercado brasileiro já foi obrigado a reconhecer nas propagandas. Instrumentos previsíveis ajudam nessa fundação, e há janelas interessantes até na renda fixa, como quando o Tesouro IPCA supera 8% de juro real. Não à toa, os investidores mais bem-sucedidos do mundo pregam disciplina e visão de longo prazo, filosofia que aparece até na forma como Warren Buffett organiza a destinação de sua fortuna bilionária.
O que fica de lição
Eike Batista segue vivo no imaginário como o homem que teve tudo e viu quase tudo evaporar, e hoje aposta em projetos bem mais modestos para tentar reescrever a própria história. Cabe registrar que ele foi alvo de investigações e processos, com penas e acordos que tramitaram na Justiça, e que a discussão jurídica sobre seus casos é uma história à parte da mecânica financeira tratada aqui.
O que fica no radar para o leitor comum é mais simples e mais útil: fortuna grande não é sinônimo de fortuna segura. O que separa quem preserva patrimônio de quem o perde não é a sorte de um pré-sal embaixo do mar, e sim a chatíssima combinação de disciplina, diversificação e educação financeira passada adiante. É de graça, e vale bilhões.
Com informações de Forbes, McKinsey, The Williams Group e dados públicos de mercado.