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A Suzano (SUZB3) gastou R$ 70 bi e agora fecha a torneira; e os dividendos?

A Suzano investiu R$ 70 bi em cinco anos e agora não prevê novos projetos de expansão. O que a virada de ciclo significa para o capex, dívida e os dividendos.

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Por Fundador e Editor-chefe
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Floresta de eucalipto da Suzano, base da produção de celulose

A maior produtora de celulose do mundo diz que não prevê novos projetos de expansão. Encerrado o ciclo de obras bilionárias, começa a fase de colher. Para quem tem SUZB3, isso mexe diretamente com capex, dívida e a volta dos dividendos.

A Suzano (SUZB3) investiu mais de R$ 70 bilhões nos últimos cinco anos e agora vira a chave. Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, o vice-presidente executivo florestal da companhia, Douglas Lazaretti, afirmou que o foco deixou de ser construir e passou a ser extrair o máximo retorno do que já foi construído. Segundo ele, a empresa não prevê, neste momento, novos projetos para ampliar a capacidade instalada de produção de celulose.

Pode soar como uma declaração burocrática de estratégia. Para o acionista, é das informações mais relevantes do ano.

Por que "parar de construir" é boa notícia para quem investe

O ciclo que se encerra foi caro. A construção da fábrica do Projeto Cerrado, em Ribas do Rio Pardo (MS), somada à expansão da base florestal, consumiu caixa em ritmo pesado e deixou a companhia com uma alavancagem elevada para o seu próprio histórico, na casa de 3,2 vezes dívida líquida sobre EBITDA no primeiro trimestre.

Esse investimento pesado teve efeito colateral direto no bolso do investidor: a Suzano adotou uma postura conservadora com dividendos, priorizando a redução da dívida. A meta da administração é derrubar a alavancagem para cerca de 2,5 vezes até o fim de 2027 ou meados de 2028.

Quando a empresa para de erguer fábrica, o capex cai. E capex menor, com a fábrica nova já produzindo, é a receita clássica para o fluxo de caixa livre crescer. As projeções de mercado apontam justamente isso: um investimento anual saindo de cerca de R$ 10,9 bilhões em 2026 para algo próximo de R$ 9,4 bilhões nos anos seguintes.

O ciclo que muda Situação
Investimento em 5 anos mais de R$ 70 bilhões
Novos projetos de expansão nenhum previsto
Capex anual (2026) cerca de R$ 10,9 bilhões
Capex projetado (anos seguintes) cerca de R$ 9,4 bilhões
Alavancagem atual cerca de 3,2x dívida/EBITDA
Meta de alavancagem 2,5x até 2027/2028

Em resumo: a fase de gastar acabou, a de gerar caixa começa. O que o mercado quer ver agora é a entrega.

A estratégia: distância, madeira e clima

Do lado operacional, a entrevista à CNN detalha por onde passa esse ganho de eficiência. São três frentes.

A primeira é logística. Lazaretti explica que a distância média entre as florestas e as fábricas é um dos principais indicadores de competitividade, porque transportar madeira pesa no custo da celulose. A expectativa é operar nos próximos anos com um raio médio próximo de 150 quilômetros.

A segunda é autossuficiência em madeira, num cenário de disputa crescente por matéria-prima. O executivo cita um descompasso relevante: entre 2019 e 2024, a base florestal brasileira cresceu 9%, enquanto o consumo avançou 19%. Ou seja, a demanda por madeira sobe bem mais rápido que a oferta, e depender de terceiros fica mais caro.

A terceira é o clima, e aqui está um ponto que interessa a qualquer investidor de agro. A companhia investe em desenvolver florestas que não apenas produzam mais, mas resistam a períodos de seca e a novas pragas. Não é preocupação teórica: o setor todo vem sendo alertado sobre riscos climáticos, e a Fitch já apontou que o El Niño ameaça safras e cadeias produtivas no Brasil. Para uma empresa cujo ativo é literalmente a floresta, resiliência climática vira item de balanço.

A base florestal da Suzano soma 1,7 milhão de hectares, integralmente composta por eucalipto clonado, apoiada no que a companhia descreve como o maior banco genético de eucalipto do mundo.

O problema que a Suzano divide com a WEG

Há um fator que a estratégia florestal não resolve, e que explica boa parte da pressão recente sobre a ação: o câmbio.

Cerca de 80% da receita da Suzano é dolarizada. Quando o real se valoriza, como vem acontecendo em 2026, cada dólar vendido lá fora vira menos reais no balanço. Foi exatamente o que aconteceu no primeiro trimestre: a empresa bateu recorde de vendas de celulose e ainda assim viu o lucro cair, com a receita líquida recuando 5%.

É o mesmo enredo que apareceu nesta semana em outra exportadora: a WEG teve queda no lucro do segundo trimestre por efeito do dólar mais barato, embora suas vendas externas tenham crescido quase 15% em moeda forte. Duas empresas diferentes, o mesmo vento contra. Para quem acompanha a temporada de balanços, esse é o padrão a observar: exportadoras com operação saudável e resultado em real achatado pelo câmbio.

O outro movimento: sair de perto da China

Na frente comercial, a estratégia declarada é diversificar mercados e reduzir gradualmente a exposição ao mercado chinês, principal destino da celulose brasileira. A leitura de mercado é que a China está próxima de um pico de curto prazo, com estoques elevados e sentimento fraco na cadeia, o que abre espaço para correção nos preços da celulose.

Diversificar destino é, portanto, defesa. E é um movimento que dialoga com o momento do comércio exterior brasileiro, marcado pela entrada em vigor do tarifaço americano e pela busca de novos mercados.

O que fica no radar

Três pontos definem a tese daqui para frente. O primeiro é a entrega da desalavancagem: se o caixa gerado pela fábrica nova, agora sem obras novas concorrendo pelo dinheiro, derrubar a dívida no ritmo prometido. O segundo é o preço da celulose, que ronda a casa dos US$ 560 a US$ 600 por tonelada e define a receita. O terceiro é o câmbio, o fator que a empresa não controla e que hoje é o principal responsável por transformar bons números operacionais em resultados apenas medianos em real.

E, no horizonte próximo, o balanço do segundo trimestre, que dirá se a virada de ciclo já começou a aparecer nos números.

Foto de Muniz
Escrito por Fundador e Editor-chefe

Muniz é o fundador e editor-chefe do portal Analistas. Empreendedor digital e especialista em tecnologia voltada para o mercado financeiro, é o desenvolvedor por trás de plataformas de dados como o Ações Capital. Lidera a visão editorial e a infraestrutura tecnológica do Analistas, unindo entrega de cotações em tempo real e rigor analítico para democratizar a informação no mercado brasileiro.

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