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Economia

Fitch: El Niño ameaça a safra 2026/27 e o crédito das rodovias

Fitch alerta que o El Niño pressiona o crédito do transporte na América Latina. No Brasil, o risco está nas rodovias do agro, na safra 2026/27 e nos rios.

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Por Fundador e Editor-chefe
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Colagem mostra caminhões graneleiros transportando soja por estrada de terra, embarcação em rio amazônico com bancos de areia expostos e silos de armazenamento ao fundo.
Os desafios logísticos do escoamento de grãos no Brasil, afetado por estradas precárias e pelo baixo nível dos rios amazônicos.

A agência de classificação de risco avisa: o fenômeno climático confirmado em junho pode encolher a safra, esvaziar os rios do Norte e chegar ao bolso de quem financia as estradas brasileiras.

O El Niño voltou, e a Fitch Ratings acaba de colocar um alerta amarelo no setor de transporte da América Latina. Em relatório publicado nesta terça-feira (14), a agência afirma que o fenômeno climático traz riscos amplos para a infraestrutura da região e pode pressionar o perfil de crédito de alguns subsetores. A confirmação do início do El Niño veio da NOAA, a agência oceânica e atmosférica americana, em 11 de junho de 2026.

Segundo apuração da Fitch Ratings, o Brasil aparece no relatório com um problema bem específico: as rodovias com alta exposição ao agronegócio.

O que trava as estradas brasileiras

A agência aponta dois vetores de risco de demanda para as concessões rodoviárias com perfil agrícola:

  • Janela de plantio mais curta na safra 2026/2027, o que reduz o volume de grãos a ser escoado
  • Menor navegabilidade dos rios no Norte, por causa das secas, o que mexe com toda a logística do Arco Norte

Não é hipótese de laboratório. A Fitch lembra que a seca de 2024 no Centro-Oeste afetou a colheita de grãos e, indiretamente, pressionou o tráfego nas rodovias, o que levou a agência a tomar ação negativa de rating à época. Ou seja: já aconteceu, e o roteiro pode se repetir.

Vale o registro: o relatório trata de subsetores e não nomeia empresas ou emissores específicos. Mas a leitura é direta para quem acompanha as concessionárias de pedágio listadas na B3 com forte exposição a corredores de grãos.

Por enquanto, o agro brasileiro convive com sinais mistos. A safra de café do país deve ser recorde em 2026, segundo o IBGE, o que mostra que os efeitos climáticos não são uniformes entre culturas e regiões.

Quem sofre mais e quem escapa

A Fitch separa o setor por grau de exposição. De acordo com as informações obtidas junto à Fitch Ratings:

Rodovias com pedágio: as mais expostas a eventos climáticos extremos, justamente pela dependência do tráfego de produtos agrícolas.

Portos: vulneráveis a danos físicos por chuva forte e alagamentos, que afetam os acessos rodoviários e aumentam a necessidade de dragagem e manutenção. Como a maioria dos portos latino-americanos movimenta carga diversificada, o risco de volume é menor. A pior parte fica com o Peru, onde os portos podem enfrentar inundações costeiras e ressacas, com exposição concentrada em exportações agrícolas perecíveis como frutas e hortaliças.

Aeroportos: podem ter disrupções operacionais e carga aérea mais fraca em mercados agrícolas, mas a receita de passageiros limita a sensibilidade de crédito. Curiosamente, os aeroportos do Caribe podem até se beneficiar: o El Niño costuma suprimir a atividade de furacões no Atlântico, o que favorece o tráfego de passageiros e abre uma janela boa para obras de manutenção até o fim do ano.

Ferrovias: o menor risco de receita entre todos os subsetores, porque mantêm vantagem estrutural de demanda mesmo com quebra de safra.

Canal do Panamá: o caso à parte. A menor chuva na bacia do Lago Gatún pode derrubar de novo o nível da água e forçar restrições de calado, com pressão sobre a receita. A boa notícia é que as chuvas da estação seca do Panamá, entre dezembro e abril, ajudaram a encher os reservatórios, o que sugere alguma folga para atravessar o período.

Os para-raios contratuais

Nem tudo é céu nublado. A Fitch destaca que há proteções estruturais que amortecem o golpe no crédito:

  • Eventos climáticos ligados ao El Niño podem ser enquadrados como força maior em muitas concessões de infraestrutura, acionando mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro
  • As concessionárias ferroviárias brasileiras contam com contratos take-or-pay, que limitam a volatilidade de volume, e algumas ainda têm acordos de volume mínimo com os clientes principais
  • Na Colômbia, as concessões rodoviárias do programa 4G têm valor presente líquido mínimo garantido, com o poder concedente compensando a arrecadação que faltar numa janela móvel de cinco anos

Bases de carga diversificadas e estruturas de dívida flexíveis completam o colchão.

Até quando isso dura?

O El Niño não é passageiro. Projeções do Climate Prediction Center dos EUA, de 8 de junho, indicam 96% de chance de o fenômeno persistir no período de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027, justamente a janela do verão brasileiro e da safra de verão.

Para o investidor, o efeito vaza para dois lugares. O primeiro é a inflação de alimentos, num momento em que o Boletim Focus já projeta inflação menor para 2026 e abre espaço para corte da Selic — quebra de safra é exatamente o tipo de coisa que estraga essa conta. O segundo é o custo do frete rodoviário, tema que já está no Congresso: o Senado acaba de aprovar a MP do frete sem piso salarial.

O relatório completo está disponível no site da Fitch Ratings.

Com informações da Fitch Ratings e da NOAA.

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Escrito por Fundador e Editor-chefe

Muniz é o fundador e editor-chefe do portal Analistas. Empreendedor digital e especialista em tecnologia voltada para o mercado financeiro, é o desenvolvedor por trás de plataformas de dados como o Ações Capital. Lidera a visão editorial e a infraestrutura tecnológica do Analistas, unindo entrega de cotações em tempo real e rigor analítico para democratizar a informação no mercado brasileiro.

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