A tarifa de 25% dos EUA passou a valer nesta quarta, e o governo respondeu na mesma tarde: sancionou a lei que banca o socorro às empresas exportadoras e anunciou uma nova linha de crédito. Veja o que muda para quem exporta e para a economia.
Nesta quarta-feira (22), o tarifaço americano deixou de ser ameaça e virou realidade: entrou em vigor a sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros. No mesmo dia, o governo federal respondeu com duas medidas coordenadas. À tarde, em cerimônia no Palácio do Planalto marcada para as 15h, o presidente Lula sancionou a lei que dá respaldo ao Programa Brasil Soberano, o pacote de socorro às empresas afetadas, e anunciou uma nova linha de crédito para os setores atingidos.
A resposta no próprio dia da entrada em vigor não foi coincidência. É o fecho de um roteiro que vinha sendo montado havia semanas.
O que foi sancionado
A peça central é o Projeto de Lei de Conversão nº 7, de 2026, aprovado pelo Congresso, que dá base legal ao financiamento das empresas atingidas por barreiras comerciais. Na prática, a lei transforma em política permanente o que vinha sendo feito por medida provisória, e destina recursos para linhas de crédito operadas pelo BNDES.
As características do apoio, segundo o governo:
- Foco em micro, pequenas e médias empresas exportadoras
- Crédito com custo mais baixo que o de mercado
- Uma contrapartida: para aderir, a empresa precisa manter parte dos empregos, o mecanismo desenhado para evitar demissões em massa
- Operação conduzida pelo BNDES
A lógica é conter o efeito dominó. Uma exportadora que perde o mercado americano de um dia para o outro corta produção, atrasa investimento e demite. O crédito subsidiado é a tentativa de manter o caixa dessas empresas de pé até que elas encontrem novos mercados ou a disputa se resolva.
De onde vem esse dinheiro
O pacote não nasceu hoje. Ele vem sendo construído em camadas desde março, quando o governo destinou os primeiros R$ 15 bilhões para operações do BNDES voltadas a exportadores. A demanda, porém, cresceu rápido: as empresas já protocolaram bilhões em pedidos, ao ponto de o BNDES ter pedido mais R$ 7,25 bilhões ao Tesouro para não esgotar o programa.
A sanção de hoje dá segurança jurídica a esse fluxo e permite ampliá-lo conforme os setores apresentarem suas necessidades.
As três frentes da resposta brasileira
O crédito é apenas uma das pernas da estratégia. Desde que os EUA oficializaram a tarifa, o governo montou uma resposta em três frentes que vale recapitular:
A primeira é o socorro doméstico, o crédito do Brasil Soberano sancionado hoje. A segunda é a reação jurídica: o Brasil acionou o mecanismo de solução de controvérsias da OMC e ameaça usar a Lei de Reciprocidade Econômica, que permite taxar de volta produtos americanos. A terceira é a diplomacia: mesmo com a tarifa valendo, a equipe econômica afirma que segue buscando uma solução negociada com Washington.
Some-se a isso a defesa de bandeiras específicas. Lula reafirmou que não aceitará ataques ao Pix, que virou um dos pontos de atrito com os EUA, como o Analistas já detalhou em por que o Pix virou ameaça ao domínio financeiro americano.
O tamanho do impacto e o que ainda vem
O golpe é menor do que o número de 25% sugere à primeira vista, mas não é desprezível. Segundo cálculos do próprio governo, cerca de 57% das exportações brasileiras aos EUA seguem sem novas tarifas, e outros 24% já estavam sujeitos a medidas anteriores. O baque concentrado recai sobre a parcela restante, o que, pela pauta de 2025, representa algo em torno de US$ 5,8 bilhões em exportações afetadas.
O problema é que a conta pode piorar. O governo Trump sinaliza a possibilidade de anunciar ainda esta semana uma segunda sobretaxa, de 12,5%, resultado de outra investigação. Se confirmada, alguns setores chegariam a uma taxação total de 37,5%, o que ampliaria a pressão sobre as mesmas empresas que o crédito de hoje tenta socorrer.
O que fica no radar
Três frentes seguem abertas. A primeira é a régua da segunda tarifa: se os 12,5% adicionais saírem esta semana, o pacote de socorro terá de crescer. A segunda é a reação diplomática, com o Brasil tentando manter o canal com Washington aberto apesar da tarifa em vigor. A terceira é o efeito no mercado, que até aqui reagiu com relativa calma: o Ibovespa vinha resistindo e o dólar cedendo nos últimos pregões, sinal de que o tarifaço, por ora, estava em boa parte precificado. O teste real vem com os primeiros dados de exportação sob a tarifa cheia.