analistas .com.br
Investimentos

ETFs assumem a liderança da captação de fundos em junho impulsionados pela renda fixa

ETFs de renda fixa dominam captação e classe acumula R$ 32,5 bi no semestre, 6 vezes mais que em 2025. Entenda os motivos e o que muda para o investidor.

EQ
Equipe Analistas Equipe Editorial
Publicado em: 08/07/2026
ETFs captação

Fundos de índice captaram R$ 5,9 bilhões líquidos no mês, segundo a Anbima, e acumulam R$ 32,5 bilhões no semestre, mais de seis vezes o volume de um ano atrás. Juros altos, custo baixo e vantagem tributária explicam o avanço.

O investidor brasileiro está mudando a forma de aplicar em fundos, e os números da Anbima divulgados nesta quarta-feira (8) mostram isso com clareza. Os ETFs, fundos passivos que replicam índices, assumiram em junho a liderança da captação líquida da indústria, com entradas de R$ 5,9 bilhões, superando todas as demais categorias no mês.

Renda fixa é o motor

O movimento foi dominado pelos ETFs de renda fixa, que concentraram 88% das entradas do mês, o equivalente a R$ 5,2 bilhões. Foi o 16º mês consecutivo de captação positiva para esse tipo de fundo. No acumulado de janeiro a junho, os fundos de índice somaram R$ 32,5 bilhões em ingressos líquidos, mais de seis vezes o volume do mesmo período do ano passado, com R$ 27,1 bilhões vindos da renda fixa contra R$ 5,3 bilhões dos ETFs de ações.

A explicação mais óbvia está na Selic a 14,25% ao ano: com o juro básico nesse patamar, o investidor encontra retornos relevantes sem precisar assumir risco. Mas o produto tem atrativos próprios que sustentam o crescimento além do ciclo de juros. Para a pessoa física, três pontos pesam:

Custo: as taxas de administração costumam ficar entre 0,1% e 0,3% ao ano, bem abaixo da média dos fundos tradicionais. Tributação: o IR incide a alíquota fixa de 15% sobre o ganho na venda das cotas, independentemente do prazo. Come-cotas: os ETFs de renda fixa não sofrem a antecipação semestral de imposto que corrói o rendimento composto dos fundos DI e similares.

A oferta acompanhou a demanda. O número de ETFs listados saltou de 132 em junho de 2025 para 202 em junho deste ano, alta de 53%, enquanto a base de contas cresceu de 1,14 milhão para 1,65 milhão. E há um potencial catalisador no radar: a CVM discute a criação dos ETFs ativos, em que o gestor escolhe os ativos para tentar superar um benchmark. Hoje a regra brasileira só permite fundos de índice passivos. Segundo Pedro Rudge, diretor da Anbima, a tendência é de mais espaço para a classe, já que em mercados desenvolvidos a participação dos ETFs é bem maior que no Brasil.

O retrato completo da indústria

No agregado, a indústria de fundos captou R$ 184,7 bilhões no primeiro semestre, mais que o dobro dos R$ 84 bilhões de um ano antes e a segunda melhor marca para o período em cinco anos, atrás apenas de 2024. O patrimônio líquido total chegou a R$ 11,1 trilhões, alta de 10% em 12 meses, com 45,6 milhões de contas.

Os fundos de renda fixa tradicionais seguem como carro-chefe, com R$ 108,4 bilhões captados, ou 59% de todo o ingresso líquido. Dentro da classe, o destaque foram os fundos de baixa duração com crédito livre (R$ 70,3 bilhões), que também entregaram o melhor retorno da categoria: 6,8% no semestre, em linha com o CDI e acima da média de 5,5% da renda fixa.

Os estruturados também tiveram semestre forte, somando quase R$ 68 bilhões: R$ 32,1 bilhões em FIPs, R$ 30,6 bilhões em FIDCs e R$ 5,1 bilhões em Fiagros. Segundo a Anbima, os FIPs não tiveram nenhum mês negativo nos últimos 12 meses, e cerca de metade da captação veio de capital estrangeiro, que segue enxergando oportunidades de longo prazo no país.

Multimercados na lanterna

Na ponta oposta, os multimercados registraram o maior resgate líquido do semestre, de R$ 9,9 bilhões, seguidos por previdência (saídas de R$ 8,6 bilhões, pressionadas pelas mudanças tributárias recentes) e fundos de ações (R$ 6,5 bilhões). O desempenho ajuda a explicar a fuga: a rentabilidade média dos multimercados ficou em 3,8% no semestre, bem abaixo do CDI de 6,8%. Enquanto a renda fixa pagar tanto com tão pouco risco, a classe terá dificuldade de reconquistar o investidor.

Leitura para o investidor

O dado confirma um amadurecimento estrutural: o brasileiro está migrando de produtos caros de gestão ativa para veículos baratos, líquidos e tributariamente eficientes, movimento que os mercados desenvolvidos já viveram. Com a Selic projetada em 14,0% no fim do ano e corte de apenas 0,25 ponto esperado para agosto, o cenário de juros altos que alimenta os ETFs de renda fixa deve persistir. O ponto de virada a monitorar é a regulamentação dos ETFs ativos pela CVM, que pode abrir uma nova frente de crescimento para a classe e pressionar ainda mais as taxas da indústria tradicional.

Comentários (0)

Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!

Deixe um comentário