A dona da Vivo teve seu maior avanço de EBITDA em quase três anos e distribuiu bilhões aos acionistas, mas o papel recuou no pregão seguinte. Entenda o que o mercado não gostou.
A Telefônica Brasil (VIVT3), dona da marca Vivo, reportou lucro líquido de R$ 1,6 bilhão no segundo trimestre de 2026, um crescimento de 17% sobre o mesmo período do ano passado. A receita líquida somou R$ 15,8 bilhões, alta de 7,6%, e o EBITDA chegou a R$ 6,6 bilhões, avanço de 10,9%, o maior crescimento percentual do indicador nos últimos 11 trimestres.
Números fortes, à primeira vista. Mesmo assim, na manhã seguinte à divulgação, as ações VIVT3 chegaram a cair cerca de 4%, entre os piores desempenhos do Ibovespa em um dia positivo para a Bolsa. Por que uma empresa que lucra mais é castigada pelo mercado?
Se o lucro subiu, por que a ação caiu?
A resposta está nas entrelinhas do balanço. O lucro veio praticamente dentro do que os analistas já esperavam, ou seja, sem a surpresa positiva que costuma empurrar o papel para cima. Além disso, parte do bom desempenho operacional teve uma ajuda pontual: a Vivo registrou R$ 202 milhões com a venda de ativos ligados à antiga concessão de telefonia, um ganho que não se repete todo trimestre.
Analistas do Itaú BBA classificaram o resultado como misto, com receita de serviços móveis forte, mas lucro considerado abaixo do ideal quando descontados os efeitos não recorrentes. Vale o registro de que a leitura do mercado não é unânime nem constitui recomendação: parte das casas mantém visão positiva de longo prazo para a companhia, citando a geração de caixa robusta e o retorno ao acionista como pontos fortes. Este texto tem caráter informativo e não é sugestão de compra ou venda.
Onde a Vivo ganhou dinheiro?
O motor continua sendo a telefonia móvel. A receita de serviços móveis alcançou R$ 10,2 bilhões, alta de 6,6%, com o pós-pago respondendo por R$ 8,9 bilhões e já representando 87% do faturamento móvel. A base pós-paga chegou a 73,2 milhões de acessos.
Outros destaques operacionais do trimestre:
- Aparelhos: a receita com celulares e eletrônicos cresceu 27,8%, para R$ 1 bilhão, e 98,8% dos smartphones vendidos já eram compatíveis com 5G.
- Cobertura 5G: a rede da Vivo chegou a 978 municípios, alcançando mais de 73% da população.
- Fibra: a receita da fibra subiu 10,7%, para R$ 2,1 bilhões, com a base conectada atingindo 8,2 milhões de residências e empresas, alta de 11,3%.
- Convergência: o Vivo Total, que junta serviços fixos e móveis, cresceu 29,4% e já responde por 46,3% dos clientes de fibra.
O churn (taxa de cancelamento) da operação fixa recuou para 1,4%, sinal de que a base de clientes está mais fiel.
E os novos negócios digitais?
A Vivo vem tentando deixar de ser só uma operadora de telecom para virar uma plataforma de serviços. Os negócios digitais já representam 12,2% da receita acumulada em 12 meses.
Nesse guarda-chuva, os serviços financeiros faturaram R$ 433 milhões, alta de 12,8%, e o Vivo Pay já concedeu R$ 1,3 bilhão em crédito pessoal desde o lançamento. Na saúde, a Vale Saúde alcançou 511 mil assinaturas e receita de R$ 126 milhões, um salto de 58,2%. As parcerias de música e vídeo somaram R$ 890 milhões em 12 meses, com 4,9 milhões de assinantes.
Vale a pena pelos dividendos?
Aqui está o ponto que mais interessa a quem busca renda. A Vivo é uma das pagadoras de dividendos mais tradicionais da Bolsa e se comprometeu a distribuir pelo menos R$ 7 bilhões aos acionistas em 2026, o equivalente a no mínimo 100% do lucro líquido do ano.
E a máquina já está rodando: só nos primeiros sete meses de 2026, a companhia repassou R$ 7 bilhões, sendo R$ 3 bilhões em juros sobre capital próprio declarados em 2025 e R$ 4 bilhões via redução de capital, além de declarar outros R$ 2,2 bilhões em JCP neste ano. Aliás, a operadora aprovou recentemente mais R$ 500 milhões em JCP, com data-com em 27 de julho. Para quem ainda se perde nesses termos, vale entender a diferença entre JCP e dividendos, já que eles têm tratamento tributário distinto.
Esse perfil de forte distribuição, somado à disputa acirrada do setor, num momento em que até a rival TIM vira alvo de cobiça, como no movimento da Poste Italiane pela sua controladora, ajuda a explicar por que a ação segue no radar mesmo com o tropeço do dia. O que fica de lição é que, em balanços de empresas maduras como a Vivo, o mercado olha menos para a manchete do lucro e mais para a qualidade dele e para o cheque que vai parar no bolso do acionista.